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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Vila Zatt terra boa Autor(a): Aguinaldo Venancio - Conheça esse autor
História publicada em 26/08/2011
Nasci lá em cima, na Vila Zatt em maio de 1961. Éramos quatro irmãos: Tânia, Sandra, Aguinaldo (eu) e Sérgio.

Morávamos bem perto do campo do “Rio Verde”, ao lado da fábrica de papelão, onde eu ia assistir aos jogos de futebol do meu tio Zé Maria, que era um dos craques do Universo da Vila Zatt.

Lembro-me de que nos fundos da fabrica de papelão havia um córrego com água transparente. Era possível até mesmo enxergar os peixinhos que navegavam por ali. O córrego ficava próximo a Rua Santo Antonio.

Numa noite de domingo chuvosa, em novembro de 1967, quando estávamos lá na casa da minha avó Eredias (na Rua Mario Gatt, onde hoje é o posto de saúde), chegou um motoqueiro com a notícia de que o meu pai Wlamir, que acabara de sair do trabalho (trabalhava na "Estrada" hoje conhecida como CPTM), por volta das 22h, havia sofrido um atropelamento, ao lado da ponte de Pirituba, que passa sobre a linha de trem, ha alguns metros da entrada do hospital Pinel. Na mesma madrugada ele faleceu e soubemos quem o atropelou.

Na época do acidente a Tânia tinha nove anos, a Sandra tinha oito, eu tinha apenas seis e o Sérgio tinha cinco anos. Minha querida mãe Lizonete, então com 23 anos, foi trabalhar para nos sustentar - jamais se casou novamente - e por conta da situação financeira grave e da impossibilidade de pagar aluguel, fomos todos morar na casa da minha avó, na Rua Mario Gatt.

Numa casa de três cômodos moravam também a minha querida e saudosa tia "Bebé" e meu saudoso e honrado tio e pai Zé Maria.

Fomos todos criados na Vila Zatt. Saudade daqueles difíceis e inesquecíveis tempos. Os vizinhos e amigos eram todos de bem, gente boa. Se por um lado faltavam recursos materiais, por outro sobrava amor, carinho, afeto, garra e responsabilidade.

Crescemos ali, na Rua Mario Gatt. Lá no fim da rua onde hoje é o posto de saúde, tinha um campinho de futebol conhecido como "vermelhão". Esse campinho era quase tudo o que um garoto da minha idade poderia querer para aproveitar a infância. Saindo do campinho, depois de jogar bola por horas, descia até a biquinha para matar a sede - que água deliciosa, cristalina e gelada...

Minha mãe trabalhava em um condomínio que no final do ano dava presentes para nós, os meninos ganhavam bola "dente de leite" (era o melhor presente que alguém poderia me dar) e as meninas recebiam bonecas.

A vida foi dura, porém se não fosse a garra e a valentia da minha mãe, minha avó, minha tia, meu tio, tudo seria pior. Eles nos deram o melhor que alguém pode dar a crianças que se tornariam no futuro cidadãos de verdade: honestidade, responsabilidade e amor, muito amor.

Aos 13 anos todos nós fomos trabalhar e tive o meu primeiro emprego como office-boy. Trabalhávamos durante o dia e estudávamos a noite – estudei na Escola Estadual Joaquim Silvado. Todos os irmãos fizeram curso superior (em uma época na qual nem se ouvia falar bolsa ou incentivo a educação). Eu tive a honra de fazer dois cursos superiores: Administração de Empresas e Direito.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, se fosse para escolher o passado como foi ou de outra maneira menos difícil, eu escolheria exatamente como foi: o sagrado chão da querida Vila Zatt para nos receber e a honra de sermos criados da maneira em que fomos criados e educados.

Hoje já não temos mais a presença da minha querida avó Eredias, da minha inesquecível tia "Bebé", meu irmão Sergio que também se foi, assim como o meu querido tio e pai Zé Maria. Todos foram muito populares na Vila Zatt, pois sempre foram pessoas muito prestativas - Meu tio Zé Maria era motorista particular, quando ele vinda do trabalho, na época com um Aero-willys branco, fazia questão de passar no Mercado da Lapa, pois ali tinha o ponto final da linha de ônibus “Vila Zatt - Mercado da Lapa” e verificava se podia dar carona a alguém. Enchia o carro e deixava todos diante da igreja de Nossa Senhora Aparecida, no ponto final, diante da padaria.

As pessoas mais antigas na Vila Zatt sabem do que estou falando...

Minha avó Eredias nos dizia que quando veio morar na Vila Zatt, ela contava apenas 40 telhados...

Essas pessoas nos deram, como alguém já disse alguma vez, "régua e compasso" para enfrentarmos a vida, sem aquelas desculpas esfarrapadas que ouvimos todos os dias de pessoas que jamais passaram perto da situação que passamos. Assim, para terminar eu penso: nada é tão difícil que resista ao amor, a honestidade e a perseverança.

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Publicado em 16/02/2012 Eu comecei procurar algo de Vila Zatt ,e li ate o fim morro de saudades ,vive algum tempo hoje moro no interior de são Paulo,tenho alguns parentes na vila zatt perto do ponto final é a familia Belissimo que mora ou morava em frente uma praça,roberto Belissimo,Alcides belissimo e outros se tiver alguma noticia entra em contato comigo abraços e felicidades Enviado por sueli leandri - [email protected]
Publicado em 25/01/2012 Prezado querido amigo Marcelo Chrisostomo , agradeço as palavras, apenas com uma ressalva: Jamais torci praquele time verde, e o amigo sabe da minha incondicional torcida pelo TODO PODEROSO TIMAO. Um forte abraço ao estimado Amigo. Enviado por Aguinaldo Venancio - [email protected]
Publicado em 20/01/2012 Essa é uma verdadeira história de Paulistano e Brasileiro que nunca desiste, Parabéns à Família Venancio.
P.S. - O Aguinaldo só esqueceu de comentar que quando era pequeno torcia pro PALMEIRAS, tinha atá carteirinha de sócio, e depois virou casaca torcendo pro CORINTHIANS.
Enviado por Marcelo Chrysostomo - [email protected]
Publicado em 03/11/2011 Parabens Aguinaldo, bela historia de vida felicidades um abraço Enviado por danilo mazzi - [email protected]
Publicado em 31/10/2011 QUERIDO PRIMO...É COM ALEGRIA IMENSA QUE HOJE POSSO OLHAR PARA O PASSADO E VER QUE APESAR DE TODAS AS DIFICULDADES VC É UM VENCEDOR! COMO TODO SER HUMANO TIVEMOS MUITOS MOMENTOS DE TRISTEZAS MAS COM ELES VIERAM TAMBÉM OUTROS TANTOS DE ALEGRIA E SUPERAÇÃO. E VC SOUBE COMO NINGUÉM USAR AS DIFICULDADES À SEU FAVOR SUPERANDO AS E APRENDENDO COM ELAS TORNANDO ASSIM UM PESSOA MUOT ESPECIAL! . PARABÉNS !! Enviado por Vilma F.V. de Lazari - [email protected],br
Publicado em 29/08/2011 Prezada Niderce, como bem vc destacou, esse texto foi um complemento do texto editado em 03/08 p.p, e portanto nao se trata de um "repeteco" como sugeriu um leitor ai.
Renovo meus votos de saúde , sucesso e felicidades a você e seus entes queridos.
Enviado por Aguinaldo Venancio - [email protected]
Publicado em 29/08/2011 Prezado Sr. Pedro Cardoso, em relação à sua observação quanto ao texto enviado por mim e publicado no dia 26-08 p.p., esclareço que nao se trata de um "repeteco",pois eu tinha escrito o primeiro texto (publicado em 03-08) e, em razao de nao ve-lo publicado, passados acho que uns 20 dias, eu reescrevi com algumas, inclusoes, imaginando que o primeiro nao fosse mais publicado.
Desta forma esclareço que a minha narrativa em momento algum quiz dar alguma conotação de brincaderia, pois se o amigo perceber, tentei ao máximo expor naquelas linhas, algo que traduzisse o mais fiel possível , a experiência que vivemos naquele período.
Assim, esclarecida tal situaçao, desejo ao amigo saúde, felicidades e realizações.
atencisamente.

Aguinaldo Venancio
Enviado por [email protected] - [email protected]
Publicado em 29/08/2011 Enfim Venancio, é uma boa história. Tão marcante que eu li e lembrei dela ter sido publicada, com outro nome Amor.Escreva mais. Enviado por Pedro Cardoso - [email protected]
Publicado em 27/08/2011 Cada vez que ouço falar na Vila Zatt, me lembro de uma bela namorada que tive por lá. Era la pelos lados da Lapa,um lugar alto que dava para ver toda a cidade iluminada.Naquele ano de 1961 devia ser muito gostoso aquele lugar. Enviado por mario lopomo - [email protected]
Publicado em 27/08/2011 retificação:
Em relação à morte do meu pai por conta do atropelamento, jamais soubemos quem o atropoleou.
Enviado por Aguinaldo Venancio - [email protected]
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