Leia as Histórias

Categoria - Personagens Gunter do Prado da Riviera Autor(a): Ana Lucia Simúes Salgado Treccalli - Conheça esse autor
História publicada em 20/06/2011
Este era o nome do cão mais especial de todos que tive - e foram vários: a Tuca - uma vira-latas, o Falcão - um dobermann, o Rocky I e o Rocky II - dois outros vira-latas. Todos muito queridos e espertos, mas, repito, o Gunter foi o mais especial deles. Vou contar o porquê.

Passávamos por muitos problemas: a saúde de meu marido e também financeiros por causa da crise "collorida" que afetou todo o país. Quando as coisas começaram a entrar nos eixos, eu caí em depressão - da grande, avassaladora. Estava me tratando e quando a médica percebeu uma pequena melhora, me sugeriu uma viagem (que, diga-se de passagem, eu não poderia fazer por causa das finanças!).

Desde já vou avisando que não acredito em coincidências, mas sim em providência divina e, por tudo que vivi, passei e superei, tenho certeza que a minha vida segue um plano de Deus que me sustenta, orienta e faz seguir adiante. Vejamos...

Em um sábado, fui passear com meus filhos no Parque do Ibirapuera e não conseguíamos vaga para estacionar. Rodamos, rodamos e "por milagre" achamos uma vaga bem do outro lado da rua, em frente ao portão do parque, onde fica a Sociedade Paulista de Cães Pastores Alemães.

Ao atravessar a rua para entrar, passamos atrás de uma dessas peruas de cabine dupla, com a caçamba cheia de filhotinhos de pastor alemão, um mais lindo que o outro, os quais tinha ido ali para tatuar o número do pedigree na orelha. Parei fascinada.

O dono dos filhotes se aproximou, viu que eu gostava de cães e veio conversar comigo. Contou que era dono do canil, mas foi logo avisando que não vendia os animais, pois os criava como passatempo, trocava com outros criadores e com eles participava de exposições.

Conversa vai, conversa vem, depois de quase uma hora, consegui convencê-lo (isso foi o que eu achei) a me vender um filhote. Mas - novo problema - eu não tinha dinheiro para isso e, depois de mais de uma hora de conversa, ele acabou me vendendo um filhote para que eu pagasse em três cheques. Inacreditável!

O Gunter estava em um canto da caçamba da perua, nos olhando com os olhos compridos, no meio de seus irmãos - todos com nomes iniciados pela letra G. E ele nos escolheu!

Voltei para casa com aquela bolinha de pelos de três meses, linda de morrer! Eu tinha insônias terríveis e não raro passava a noite inteira sem dormir. Quando isso acontecia, durante as longas madrugadas, eu me sentava na porta que dava para a garagem e o Gunter vinha correndo, me enchia de lambidas, mordidas, carinhos.

Com todo esse amor gratuito e desinteressado, cuidando dessa criatura levada e traquinas que crescia cada vez mais linda, fui me curando da depressão até que a médica se surpreendeu com a rapidez da minha recuperação e perguntou:
- "Você viajou como eu recomendei?".
E eu respondi:
- "Não, comprei um cachorro".
A médica riu muito e disse que se soubesse que eu gostava de animais, teria recomendado antes a compra de um!

O Gunter cresceu lindo, alegre, levado, amoroso, companheiro... Foi treinado pelo Leonardo na Sociedade Paulista, mas nunca quis aprender o comando de ataque e quando o instrutor chefe o incitava a atacar, ele brincava com ele. Não insisti, pois não queria um cão feroz, e já tinha visto que, por instinto natural, quando alguém ameaçava o seu território, o Gunter ficava com os pelos do pescoço eriçados e, alerta, rosnava avisando o possível "invasor" de que aquele território tinha dono.

O principal é que ele aprendeu os comandos de obediência e quando saía comigo, na rua todos se admiravam de como uma pessoa tão pequena como eu era capaz de manter um cão tão grande naquela atitude pacífica.

O Gunter era realmente grande. A cabeça dele alcançava a altura da minha cintura (o que não é grande vantagem) e, quando caminhávamos, ele diminuía suas passadas para me acompanhar, porque percebia que se andasse normalmente eu não seria capaz de acompanhá-lo!

Andamos muito pela Hípica Paulista, pela Berrini e as pessoas nos olhavam admiradas, por causa de sua beleza e o seu modo sereno e tranqüilo. Com o Mariano - meu marido - era o contrário, pois o passeio era quase uma correria porque o Gunter o "arrastava" e não obedecia aos seus comandos.

Sabia impor respeito quando necessário e, nestes 14 anos, mordeu apenas uma pessoa que, embriagada, enfiou o braço por entre as grades do portão de nossa casa para bater nele. Aliás, essa pessoa provocava diariamente o Gunter e o Rolf (um pastor belga de meu vizinho) e já tinha sido avisada verbalmente e pela placa pregada no portão, do risco de provocar um cão grande!

O Gunter adorava passear a pé e também de carro, com a cabeça para fora da janela, tomando vento. Gostava de ir para a praia e passeava vaidoso, se mostrando pela avenida costeira. Tinha uma paciência incrível com o Sansão - o Yorkshire de minha filha que o perturbava e mordia nas patas traseiras e no focinho. O Gunter olhava, baixava as orelhas e brincava com ele, talvez não acreditando que algo tão pequeno (o Sansão inteiro é menor que a cabeça do Gunter) pudesse ser tão atrevido!

Adorava uvas tipo Itália que roubava das mãos da Daniela e também pular nos meus ombros e desmanchar meu cabelo quando eu estava no quintal pendurando roupas no varal. Quando o Marco Antonio tinha seu Fusca, o Gunter viajava com ele para a praia, "enchendo" o banco traseiro e se divertiam muito porque não era preciso nem mesmo trancar o carro, pois o tamanho do "guardião" afastava qualquer pessoa mal intencionada.

São tantas as coisas boas que o Gunter nos proporcionou nesses 14 anos que eu ficaria aqui muito tempo escrevendo. Mas, já em sua meia idade, foi diagnosticada uma displasia - problema nas patas traseiras - que era tratada religiosamente. Só que, um belo dia, ele amanheceu sem movimentos nas patas traseiras, arrastando-as. Percebia-se que ele sentia dor, mas não se ouvia um lamento! Estava com um problema sério na coluna e foi feito tudo o que era possível, até que nada mais surtiu efeito e, entre os inúmeros medicamentos que tomava, o analgésico era à base de morfina.
A velhice é implacável com todos os seres vivos! Ia fazer 15 anos dia 15 de junho. Se foi neste sábado, 21 de maio de 2011. Foi meu remédio, meu amigo, meu companheiro, um amor diferente!

Acredito que Deus colocou essa criatura em minha vida para que eu visse, soubesse e sentisse o que é o amor incondicional, a amizade verdadeira e desinteressada, a fidelidade, o companheirismo, a lealdade. E eu vi, soube, entendi, senti!

O Gunter vai fazer muita falta. Uma falta enorme, sem medida. Durma em paz meu querido amigo. Nunca vamos esquecer você.


E-mail: [email protected]
E-mail: [email protected]
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 02/11/2011 Ana: Os detalhes da sua história, honestamente, são comoventes. Uma pessoa discernida igual você percebeu que coisas profundas e maravilhosas existem numa relação entre um ser humano e um animalzinho. Isto é coisa de quem ama Deus...Parabéns Ana ! Enviado por Xico Lemmi - [email protected]
Publicado em 05/08/2011 Obrigada a todos pelos comentários. O conto foi a minha maneira de expressar o sentimento e a gratidão pela criatura tão especial que o Gunter foi! Enviado por Ana Lucia Simões Salgado Treccalli - [email protected]
Publicado em 24/06/2011 Meiga essa sua história de amor, esse é o amor verdadeiro que nada pede em troca...Minhas netinhas têm a "Meg" que eu chamo de "Memé". Mastiga tudo: lápis, caneta esferográfica,controle remoto, pendrive, provas, meias, enfim o que cair no chão é dela. Toma cada bronca! E, em seguida, vem toda dengosa, abanando o rabo.. É minha neta n.04. A preferida. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 24/06/2011 Ana Lúcia, que história linda! Eu gosto muito de pessoas com era o Gunter.Ao ler seu conto fui às lagrimas, pois tenho o Sueco e sofro muito ao saber que posso perde-lo já que eles têm a vida curta. Gunter durma em paz amigão,você é muito amado, garoto amigo. Enviado por carlos heiffig - [email protected]
Publicado em 21/06/2011 Ana Lucia a minha filha ganhou recentemente um cãozinho Yorkshire. Seu nome PIPOCA. Ele está com 3 meses de idade e é terrível, come tudo que encontra pela frente. Mas é um animal leal companheiro e amoroso. Veio para preencher nossa casa de alegria. Por causa dele, felizmente, a depressão aqui não existe. Parabéns! Ana Lucia o seu amor pelos animais reconforta o espírito. Enviado por J Grassi - [email protected]
Publicado em 21/06/2011 Oi Ana Lúcia... que emoção ler sobre o Gunter e tudo de bom que ele proporcionou à sua vida... não me importaria em ficar o dia inteiro ouvindo suas histórias sobre ele. Cheguei as lágrimas ao imaginar seus passeios, as traquinagens, o rabo abanando nas suas madrugadas de insônia... dencanse em paz Gunter, vc me emocionou demais! Enviado por hugo morelli - [email protected]
Publicado em 21/06/2011 Não são muito raros as homenagens aos cães mas, a sua supera as demais em virtude do amor que vc faz transpirar nos parágrafos dedicados ao Gunter. Vc sabe, como poucas, enriquecer um texto dedicatório, sencibilizando quem o lê, sem conhece-la pessoalmente. Parabéns, Trecalli.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 20/06/2011 Oi, cara prima, que grata surpresa vê-la escrevendo neste site, e tão bem. Tb amamos animais, tivemos mais gatos que cães. Estes, embora poucos, tb foram muito queridos, mas qdo nossa última, Laika, tb teve de ser sacrificada, por idade e problemas semelhantes ao de Gunter, resolvemos não tê-los mais. Haja coração! Abraços. Enviado por Luiz Saidenberg - [email protected]
Publicado em 20/06/2011 Ana Lúcia, tenho um amigo dos tempos de infância, que ficou dois anos com depressão e ficava o dia inteiro na cama. Pois bem sua Mãe ganhou um cachorrinho vira-latas, desse bem peludinho e pequeno, e o mesmo ficava com o meu amigo o dia inteiro no quarto/cama, fazendo traquinagens. Acredite, em pouco tempo curou da depressão. O médico disse que foi graças(deduziu) ao convívio com o cãozinho. Não é a toa que é considerado o melhor amigo do homem. Parabéns pela sua narrativa. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 20/06/2011 Ana Lucia, comovente sua história. Também aqui em casa, naquela crítica fase "colloriana" tivemos uma crise financeira e imagino como você se sentiu. Foi dificílimo para nós, superarmos. As finanças jamais voltaram e ser as mesmas. Felizmente a família foi poupada. Fico feliz por você, sua familia e seus amigos cães. Abraços,
Cida
Enviado por Cida Micossi - [email protected]
« Anterior 1 2 Próxima »