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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Um país chamado Jaçanã Autor(a): Armando Gonçalves - Conheça esse autor
História publicada em 12/04/2011
Lembro-me de perguntar a minha mãe o que era aquela ponta alta que avistávamos através da janela do ônibus. Ela me disse: “É bem perto da nova casa em que vamos morar”. Aquela era a torre da Igreja Nossa Senhora Aparecida. Estávamos descendo a Avenida Guapira em direção ao Jaçanã e, não entendo porque, aquela visão marcou minha vida inteira.

Estávamos no ano de 1959. Finalmente chegamos à nova casa na Rua Gonçalves Aranha nº. 96; era uma travessa em "S" da própria Avenida Guapira. Em frente a minha casa havia um córrego imundo e entupido de lixo, e para entrar em casa era necessário atravessar por cima de algumas pinguelas de madeira. Quando chovia muito nem pensar em sair de casa, pois dependendo da época do ano, a casa inundava e dava até para nadar entre o quarto e a sala.

Isso não era nenhum problema, pois em dias de chuva a molecada pulava naquele córrego, agora riacho, para nadar e jogar barro uns nos outros. Era pura diversão! Mais tarde viria a tubulação e o asfalto para resolver de vez a situação.

Na Rua de trás - Rua Tanque Velho, havia um grande muro com altas árvores e um dos meninos, acho que era o Anselmo, me disse: “Lá dentro é o Seminário de Padres e se o seu maranhão (pipa com rabo de papel) cair lá nem pense em buscar, porque os padres não deixam entrar”.

Com o passar do tempo e com a amizade já expandida, conseguimos uma brecha no muro ao lado de uma capela de pedra. Era nossa passagem secreta. Evidentemente, tínhamos os horários certos para pular o muro; geralmente era quando os padres estavam recolhidos para seus cultos.

Lá no gramado, em frente à capela, aprendemos golpes, tesouras e voadoras que víamos na Luta Livre pela televisão. Nosso ídolo era o Ted Boy Marino. Nessa época já tinha uns 8 ou 9 anos. Jogávamos bola, subíamos nas árvores, amarrávamos cordas para brincar de balanço, enfim era nosso Jardim do Éden; nossa verdadeira escola de molecagem.

Nas férias, nossa diversão eram as pipas e cortantes. Passava aquela meleca com vidro em uns dois carretéis de linha. Usávamos todos os postes da rua para esticar a linha que se tornava uma faca. As batalhas aéreas nestas épocas eram geniais! Era pipa lutando contra pipa pela “sobrevivência”; quem não era cortado virava herói.

O maior prazer era cortar a Pipa de um tal de Gambá, sujeito temido pelos socos certeiros nos olhos alheios. Vira e mexe um moleque chegava em casa com aquele olhão esbugalhado, quase preto. Lembro-me que um dia, para defender um tal de Dedé dele, assumi a briga e, num momento de pura sorte, consegui dar um tombo no cara, que meteu a cuca no farol de um Aero Wllys 66 do vizinho. Conclusão: Não meteu mais a cara comigo. Sorte minha, pois tinha pavor daquele cara.

Fui estudar na Escola Santa Terezinha, que para mim era um terror, pois levei cada "pau" da moçada, que marcaram minha vida literalmente. Uma cicatriz no joelho ainda está no meu corpão para provar o massacre. Depois de ser expulso no último ano, por jogar uma bomba caseira feita com tubo de plástico e pólvora, dentro da área de recreio, aprendi que brincar com pólvora é fogo.

Naquela época meus amigos moravam, no máximo, a duas esquinas, caso contrário seriam inimigos de outro bairro. A família Salgueiro morava na esquina de casa e tinha vários caminhões com caçambas, que transportavam pedras para uma pedreira no Tremembé. Todos daquela família eram da minha turma, o Alan, o Elias, o Samuel, o Chiquinho e o Pitoco (João Milton Salgueiro).

Aprendi a gostar de Volvo, FNM e F750. Se alguém queria me dar uns sopapos, lá ia eu pedir ajuda para os Salgueiros, que eram todos uns “bruta montes devoradores de moleques fracos”. Em briga não tinha para ninguém, eles eram os reis da rua. O Elias tinha um soco mais potente que uma bigorna jogada do quinto andar.

Mas tinham outros na turma. Tinha o meu amigão Nivaldo Tadeu Barbosa (que perdi o contato), o Mauricio Rodrigues de Souza, o Rogério Felizardo que virou coronel, o Dedé, o Anselmo, o Toninho dos Taxis, o Luis Antonio da Rural Willys, e outros que não lembro mais. Esta era a minha turma de todos os dias.

O tempo foi passando e, com muito custo, consegui estudar lá no Lobinho (Escola Comercial Nossa Senhora de Aparecida) perto da antiga estação ferroviária. Nessa época já aprontava muito: fumava, aprontava com as meninas donzelas, pegava o carro do meu falecido pai Doclydes, tirava racha com um grupo de doidos lá da Padaria, na Nova Cantareira, e fazia som nos bailinhos. Conheci nesta época um monte de meninas e "namorava" muito.

A “cambada” resolveu, nesta época, montar um quarto de som no fundo da casa do Rogério Felizardo e lá íamos nós toda a noite curtir um som. Éramos os maiores conhecedores de Rock de todos os tempos. Só comprávamos discos importados no Museu do Disco.

Era uma loucura, pois as outras “tribos” não conheciam a sonzeira e muito vagamente ouviram falar em Woodstock. Nós sabíamos tudo! Criamos uma equipe de som chamada APRET que significava TERPA ao contrário (era a empresa que colhia o lixo do bairro).

Com a equipe começamos a fazer bailes e divulgar para a moçada o rock durante os intervalos em que as bandas paravam de tocar nos clubes. Fizemos bailes no Jumbo, Mansão do Jardim São Paulo, Acre Clube, na Água Fria, no Tremembé e outros tantos lugares que já não me lembro mais. Vendíamos fitas para o Álvaro do Porão 99 para eles aprenderem as música e tocar nas festas.

O Jaçanã era mais que um país, era uma fraternidade, um clã, um mundo cheio de desafios e escolhas. Nossa turma tinha crescido muito nos últimos 10 anos. Tínhamos roqueiro, escritor, político, indiano, beduíno, sambistas, filosofo, socialista, esquerdista, macumbeiro, argentino, espanhóis loucos, pilotos, artistas de circo, etc.

Nosso time era polivalente e discutíamos tudo: desde Lobisang Rampa, Jethro Tull, Wishbone Ash, Hermann Hesse, democracia, prisioneiros políticos, sumiços, esquadrões da morte, massa de pizza, melhor churrasco na Moravia, a cor do jeans, etc. Esses papos aconteciam quase que todas as noites na calçada da fábrica de pára-brisas Djalma de Oliveira, na Av. Guapira. Sentíamos-nos os donos da avenida, pois todos passavam e davam uma “buzinadinha” para nós.

Éramos populares, pois nosso grupo só tinha gente boa. Nada de drogas e um pouco de álcool. Muita filosofia, salvamos o mundo por diversas vezes, resolvemos as crises internacionais da CIA e da KGB, planejamos derrubar o muro de Berlin, etc. Fizemos muitos planos, desenhamos o nosso futuro, e juramos que não iríamos nos separar mais.

Só não sabíamos que a vida preparava novos caminhos para todos nós. Cada um recebeu sua missão e sua responsabilidade, cada um teve o dedo apontado para onde deveria seguir; cada um procurou colocar em pratica tudo aquilo que havia aprendido nestes anos todos. Mas todos olharam para trás, procurando uns pelos outros, tentando entender porque deveria ser assim. Na minha imaginação continuo tendo os encontros na calçada da fábrica...

Aqueles que foram meus amigos um dia continuam na minha vida como fantasmas do bem. Tenho muita saudade de tudo e de todos. Só não tenho coragem de encará-los para dizer que tudo foi um grande sonho.

Tivemos a oportunidade de aprender tudo sobre sonhos, em um país que oferecia todos os elementos necessários para tal. Um país chamado Jaçanã!



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Publicado em 13/04/2011 Armando, muito bem, voce viveu, fez o que muitos fizeram, naquelas decadas, fui meio parecido com voce e essa atividade intensa, infantil e juvenil, fez de voce e sua turma, tornasse pessoas de bem, tenho percebido que, quem teve a infância muito retraida e calma, quando adulto descobre que não fez nada, e quer fazer,aí ja é tarde, se for fazer pode ser dar mal pela maioridade, melhor seguir normalmente, parabéns,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - [email protected]
Publicado em 12/04/2011 Linda sua história de vida! Iniciando pensei no trem das onze de Adoniran Barbosa. Fui seguinte e achei que você era um sobrevivente e temi pela sua sorte ( expulso por bomba, fazia cerol, racha, etc). Depois fui achando que você era um guerreiro. No final deparei-me com um vencedor, um sentimental e um bom amigo. Parabéns! Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 12/04/2011 Legal, Armando. Isto mesmo, o Jaçanã foi nosso pais dentro da mesma cidade. Fico com o antepenultimo paragrafo. Como diz Benil Santos:"eu devia sorrir, eu devia, para o meu padecer ocultar.Mas, diante de tantas lembranças, me ponho a chorar"Abraços, Marcolino Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - [email protected]
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