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Categoria - Paisagens e lugares CMTC - Tempos românticos Autor(a): Dejair Tadeu Urbina - Conheça esse autor
História publicada em 27/10/2010
Consultando o site, deparei-me com a história do Rubens Cano de Medeiros, meu contemporâneo (hoje estou perto de completar 58 anos), sobre a CMTC. Na verdade, a história da CMTC se confunde com a evolução de São Paulo, em todos os sentidos.

Tempos Românticos... Não quer dizer que a vida era difícil ou mais fácil; na verdade, sobre muitos aspectos, era mais difícil. Quem poderia imaginar há 50 anos o celular, o iPod, o computador? Televisão, nossa, era um luxo que poucos tinham... Enfim, voltemos ao tema principal.

Meu pai, Bolivar Orbina, falecido em fevereiro de 2008 aos 82 anos, trabalhou durante 15 anos na CMTC; primeiro como motorista, chapa 8893, e depois como Inspetor, chapa 187. Dirigiu os Twuin Coach, Scania, Alfa Romeo, CMC e também microônibus, aqueles que cabiam 21 ou 22 passageiros sentados. Saia do bairro da Cidade Dutra e só podia parar a partir do bairro Alto da Boa Vista. Meu pai fazia a linha Cidade Dutra - Anhangabaú, com o ônibus de número 270 (não me recordo o número da Linha), além da linha Largo São Sebastião (hoje Bonaville) - Anhangabaú, linha de número 79 (perdoem-me se estiver enganado); o ônibus era o de número 1048, entre outras.

O curioso era que ele sempre chegava na Garagem de Santo Amaro com bastante antecedência (a garagem ocupava um quarteirão da Alameda Santo Amaro), pois pessoalmente lavava o ônibus por dentro e por fora e, sempre com uma lata de cera Parquetina branca, encerava todo o cofre do motor e o painel, limpava bancos, volante e alavanca de câmbio, para, aí sim, encostar o ônibus no ponto e dar início à sua jornada.

Na década de 50, minha irmã, então, com três anos de idade, precisou ser operada dos dois olhos, pois praticamente havia perdido a visão. Tal operação só podia ser realizada no centro de referência Instituto Penido Bournier, em Campinas, praticamente o único e melhor da época. Porém (sempre há um porém), a operação era particular. Meu pai, enquanto ela foi operada e depois, aguardando a recuperação, e ainda depois que ela teve alta do hospital, chegou a trabalhar por mais de 600 horas no mês, dirigindo ônibus (evidentemente fazendo hora extra), para poder pagar a operação, a qual não foi nem um pouco barata na época. Meu pai chegou muitas e muitas vezes a dormir no banco traseiro de ônibus por no máximo duas horas, entre um expediente e outro. Homem de fibra!

Quando meu pai fazia a linha Santo Amaro - Anhangabaú, várias figuras importantes na época tomavam seu ônibus para irem ao trabalho. Entre essas pessoas, destaco o saudoso Dr. Waldemar Sacramento, médico e professor do Hospital das Clínicas, que fazia questão de pegar o ônibus de meu pai sempre no mesmo horário. Descia no Túnel 9 de Julho e caminhava até o Hospital das Clínicas, para sua jornada. Profissional competente e ser humano fora de série.

Havia ainda um grupo de professoras que dava aula no Grupo Escolar de Interlagos (Prédio Nôvo). Elas faziam questão de, diariamente, pegar o ônibus de meu pai, sempre no mesmo horário. Lembro-me que ele contava que, se estivesse muito adiantado, vinha mais devagar para não deixá-las a pé; se estivesse atrasado, acelerava um pouquinho.

Para vocês terem uma idéia, quando ele completou seus 34 anos, esse grupo de professoras, juntamente com seus maridos e/ou namorados, reuniram-se em nossa casa na Cidade Dutra, para comemorar seu aniversário, tal era a consideração que nutriam por ele.

Na Garagem de Santo Amaro, algumas curiosidades.

1) Sr. Artilheiro, colega de meu pai: fazia peripécias subindo as paredes da garagem qual um gato;

2) Sr. Serafim Gonzales, também colega de meu pai: durante o tempo em que aguardava o início de sua jornada, aproveitava o tempo para estudar. Formou-se em Direito e seguiu sua carreira como Delegado da Polícia Civil, passando por vários setores.

3)Alvarenga, outro colega de meu pai; cumprimentava a todos com o indefectível “É UAI!”, com o gostoso sotaque de Caxambú - MG.

4)Sr. Brito: muito respeitado entre os colegas; em sua folga, passava o dia na garagem, acompanhando a revisão de seu veículo passo a passo.

5) Orlandinho: teve um acidente trágico, logo após ter atravessado o Túnel 9 de Julho; perdeu o freio do seu ônibus e foi batendo em todas as árvores, até parar na Praça 14 Bis. Tragédia. Houve morte e muitos feridos. Tragédia.

6)Arthur, colega de meu pai como motorista e depois como inspetor. Vive hoje no litoral de São Paulo.

7) Jeriquinho: Cobrador que trabalhou muito tempo com meu pai. Grande amigo.

8) Pedro Dias, amigo, colega de trabalho e vizinho de meu pai; trabalhava na Martins Fontes. Saudoso.

9) Jonas Sgarbi: talvez o maior amigo de meu pai (estou escrevendo tudo isso, buscando pela minha memória e através de fatos). Saudoso Jonas; partiu aos 39 anos de idade. Muito jovem! Trabalhou com meu pai na CMTC e após alguns anos no Frigor Eder. O Jonas dirigia Papa-Fila; em uma ocasião, em que fazia a curva da Rua Barão de Duprat para acessar a Herculano de Freitas em Santo Amaro, o seu banco simplesmente quebrou e ele caiu, mas mesmo assim com habilidade, conseguiu com as mãos, frear o enorme veículo.

10) Hélio Mosca: meu saudoso tio, cunhado de meu pai; eram, além de parentes e colegas de CMTC, muito amigos. Em 1960, foi encaminhado à CMTC um abaixo assinado de moradores da Cidade Dutra e usuários dos ônibus para que fosse incluído em sua ficha de serviço um elogio, à sua conduta, educação, trato com as pessoas, cuidado com o bem público do qual era responsável; a exemplo de meu pai, era bastante cuidadoso com o veículo que dirigia.

11) Saraiva; outro colega de meu pai. Cheguei a estudar em uma escola de sua propriedade.

Enfim, eu sei que são poucos os contemporâneos de meu pai; muitos já partiram. Aos que ficaram, meus respeitos e meus agradecimentos por terem feito parte da vida de meu pai e meu tio. Afinal, se não fossem por vocês, nós não estaríamos aqui hoje, rendendo de certa forma uma pequena homenagem. Tenho certeza que, da mesma forma que a CMTC foi importante para meu pai, também o foi para vocês, em uma época importante de suas vidas. Muito obrigado.

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Publicado em 02/06/2012 Olá primo,sou filha do Hélio Môsca, adorei a sua historia e afinal de contas fazemos parte dela.Saudades de vcs um abraço a todos Enviado por Rosana Marques - [email protected]
Publicado em 26/02/2011 pois e seu djair , as pessoas nessa epoca eram antes de tudo cidadaos ! hoje cidadania e uma palavra que consta apenas em dicionarios e poucos conhecem o seu real significado.sua historia me fez lembrar de meu pai , seus amigos e conhecidos. se eu fosse escrever sobre isso minha historia seria muito semelhante . abracos ! Enviado por claudio gonzales - [email protected]
Publicado em 04/12/2010 Caro Dejair,mais uma vez quero cumprimenta-lo por gratas lembranças, as quais eu mantenho em meu coração, ate o presente, tendo em vista ser amigo
de sua Familia de longa data.
Enviado por Ary Quintas - [email protected]
Publicado em 05/11/2010 Caro dejair/bela asua estoria ainda mais quando se conhece os personagens!eu sou o Gerson amigo do Mimi ha 44 anos ...aqui da vila Olimpia...abracos! vc ta morando no interior? Enviado por Gerson Gloucester Cordeiro Ferreira - [email protected]
Publicado em 30/10/2010 Belo texto dejair,nos remete a um tempo em que como vc diz as coisas eram mais dificil sem os avanços da tecnologia de hoje,mas era um tempo maravilhoso ,de respeito as pessoas de educaçao,de respeito ao patrimonio publico.
parabens pelo pai de fibra,educado e gentil que voçe teve e que com certeza passou a vc todo este legado de moral e conduta.
hoje infelizmente com rarissimas ocasioes podemos dar um depoimento deste de nossos servidores publicos.

abraços
Enviado por benedito da gloria - [email protected]
Publicado em 29/10/2010 Dejair, coincidentemente o médico que você citou, Dr.Sacramento, "cuidava" da família de minha espôsa. Um filho dele é meu vizinho. Parabéns pelas lembranças tão bem descritas. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 28/10/2010 Relato de uma vida que tem a CMTC como cenário que o Medeiros também detalhou alguns dias atraz. Parabéns, Urbina.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 28/10/2010 Dejair, meu cumprimentos pelo belo texto e memória invejável ao lembrar e mencionar cada amigo do senhor seu progenitor que com ele ali desempenharam suas funções nesta grande companhia que eu também orgulhosamente fiz parte nos anos 56 ou 57 mais ou menos.Parabéns. Enviado por sergio luiz rodrigues - [email protected]
Publicado em 28/10/2010 Djair. Eu nos anos 1954-55 e 56, morando no Brooklin e, estudando no Brás. Pegava sempre o ônibus da linha 79 Santo Amaro, na Avenida Santo Amaro próximo a Rua Alvorada na Vila Olímpia, que fazia divisa com o Brooklin. Quem sabe peguei por varias ônibus dirigido por seu pai. O motorista estava sempre bem vestido com aquele uniforme azul e bem barbeado. Não conversava com os passageiros, mas não se recusava a dizer onde o passageiro tinha que descer quando de alguma duvida. Era um tempo que não existia catraca, e o cobrador percorria o veiculo cobrando a passagem e dando um bilhete ao passageiro. Quando a gente ia descer puxava uma cordinha e soava a campainha alertando o motorista que alguém ia descer. E pela porta de frente que tinha uma urna onde os passageiros depositavam o bilhete, da passagem, muitos apressados deixavam cair o bilhete ao chão. Sempre tinha alguém que antes do veiculo para ele descer catava os bilhetes e colocava na urna. Era um tempo diferente de hoje, que não tem mais a cordinha e sim um botão que acionado acende uma luz vermelha. Tambem não tem mais aquele cobrador que estava em contato com todos os passageiros. Hoje a maioria na paga, e sim passa um cartão magnético que contem uma carga de passagens. Novos tempos, mais comodidades, mas daqueles tempos ficou uma saudade, pois todas aquelas operações faziam com que o ser humano conversasse mais. Adorei seu texto. Enviado por Mário Lopomo - [email protected]
Publicado em 27/10/2010 Caro Dejair.
Meu pai, chapa 19283, trabalhou na CMTC até se aposentar, primeiro como cobrador de bonde, depois de ônibus e finalmente no escritório das garagens Cambuci e Catumbi. Ele fazia as escalas.
Ele se aposentou, creio que em 1972 e faleceu em 2006, com 99 anos.
Enviado por Tony Silva - [email protected]
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