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Categoria - Paisagens e lugares Julgamento sem provas Autor(a): Aclibes Burgarelli - Conheça esse autor
História publicada em 14/09/2010

Pensamento: Julgamento do próximo é ato que ultrapassa os limites da matéria e impõe o recurso à espiritualidade.


Ano de 1981. Pontal do Paranapanema. Pequeno Município, mas com categoria de Comarca, era conhecido por reduto dos plantadores de soja, em substituição à cultura do cultivo de algodão. Algumas famílias abastadas; outras, a maioria, pobres convivendo próximas às paupérrimas.

A cor da cidade foi obra da natureza. Região da apelidada terra "rossa", matiz buscada no idioma italiano, segundo o qual "rosso" é cor de sangue, cor púrpura. Terra roxa, assim como se fala, não é de tom roxo, mas avermelhado. Terra avermelhada, porque há a presença de óxido de ferro. Ferro e sangue.

Assim parecia ter sido moldada a cidade. Os veículos de cor clara identificavam-se na coloração ocre, nas partes inferiores, sem possibilidade de limpeza total. Bastava um pouco de atenção para se afirmar que o veículo era de Taquarituba. Sim, fala-se de Taquarituba, cidade próxima à divisa com o Norte do Paraná, vizinha de Fartura, Itaí e Itaporanga.

O Fórum, naquela época, era o edifício que mais se destacava na cidade, tendo ao fundo grande área de pastagem, onde o gado caminhava devagar, para lá e para cá, às vezes com quebra do silêncio nos mugidos melancólicos.

Às 18 horas, o sino da igreja Matriz balançava e o badalo agredia o bronze, com produção de sonoras marteladas. Quase que concomitantemente o alto-falante da praça central era ligado e ouvia-se, ora próximo, ora distante, por causa da direção do vento, a suave melodia da Ave Maria. Era o aviso para se deixar o trabalho, cobrir-se a máquina de escrever, apanhar o paletó e a pasta e distribuir os “até amanhã” para os funcionários solidários, em cujo comportamento revelavam a causa da consideração que se devotava a eles.

Terminava o expediente, mas, no dia seguinte, iniciava-se outro, sucedendo-se os processos e as audiências. Comarca com um só magistrado, competente para todas as lides, sem distinção de matéria: civil, criminal, família, menores, eleitoral, júri, natureza estadual ou federal e assim por diante.

A rotina, às vezes, era quebrada por um ou outro acontecimento marcante. Podia ser um crime hediondo, briga coletiva ao término do forró, ou dolorosos casos de família. Às vezes, cabia a indagação acerca das causas que levavam certas pessoas a agir de forma tão dolorosa, no relacionamento familiar. Se a dor ou a tristeza encaminhavam ao último estágio de um processo de família, o Fórum, ou mesmo a pessoa do magistrado, era algo muito estranho para essas pessoas que não entendiam as palavras ou a ritualística legal. Para eles era um mundo diferente e irreal; mostravam-se incomodados com a prestação jurisdicional, como se fosse algo surrealista.

Um caso, entretanto, quebrou a rotina, mexeu com a sensibilidade de julgar e arrancou do âmago do órgão judicante, reflexão de muita preocupação. Alguém queria ouvir do magistrado um pronunciamento que seria aceito, sem recurso. Não era um caso comum, que uma sentença fria pudesse solucionar. Não era algo que impunha, tão somente, a aplicação da lei, após a ouvida as partes. Era algo que envolvia o amor espiritual.

Uma jovem, de mais ou menos, 17 anos, humilde, ingênua e muito bem criada no lar de uma família que a amparou. Família de princípios morais exemplares e obedientes às regras divinas. A jovem, apesar de servir de empregada, era tratada como filha no convívio da casa e até mesmo no estudo noturno disponível na cidade. Por força do destino, apaixonou-se por um rapaz, com quem fez gerar um filho. Não percebeu que não era correspondida. O desespero abateu o espírito da jovem, que não sabia a reação de seus pais, os quais, embora residissem em outra cidade, por certo não a perdoariam; afinal, era menor de idade. Desesperada pela maternidade precoce, sem conhecimento da vida e das responsabilidades, resolveu fugir. Fugir, abandonar tudo; o próprio pai, o rapaz, que, com o nascimento do filho, a abandonou covardemente. O rapaz se encerrou sob a proteção familiar, cujos membros eram pessoas de certa posse e não aceitavam a situação criada pelo impetuoso filho. Bastaria dizer que a jovem era desregrada e todos elevariam virtudes do rapaz. A jovem, ante esse quadro social, confiou o filho à família que se comprometeu a proporcionar amor, carinho, subsistência, educação e criação esmerada.

Em princípio, a jovem, aos prantos, disse que não mais voltaria, porque sabia que não teria condições de criar e educar o filho como poderia fazê-lo aquela dedicada família. Partiu, mas não sem a confirmação de que, em breve o filho poderia retornar ao seio materno. Bastaria, para tanto, encontrar um caminho seguro de sustentação futura, valendo-se da educação que recebera no lar em que servira. A família dedicou todo afeto, amor, carinho e a criança completou o primeiro aniversário, linda e sadia; o segundo aniversário, mais linda. Tudo indicava que a situação provisória, delineada pela mãe, tornava-se remota e nascia a certeza de que a criança devia passar para a guarda definitiva dos pais postiços e quiçá, com concordância da mãe, única pessoa cujo nome figurava no registro de nascimento, uma adoção.

Nesse exato momento da vida daquela família, a mãe retorna, beija a todos, chora e confessa que seu coração é muito pequeno para guardar toda consideração e agradecimento pela solidariedade humana, dedicação e compreensão da família. Porém, queria o filho de volta, porque havia sedimentado sua vida. Então, com 19 anos de idade, entendia que poderia vir a amar o filho que deixara - e que fora salvo pela digna e bondosa família. Sabia que era triste e até queria voltar a conviver com a família, ao lado do filho, para felicidade de todos. Mas não era possível. A vida da jovem estava acomodada, de boa forma.

A tristeza abateu a todos. O que fazer? O remédio encontrado foi muito amargo: Ouvir, do juiz, o que devia ser feito e, sem se aventar da adoção de qualquer recurso, aceitar-se-ia a decisão, para todos, definitiva. Reunir a todos, em audiência, para oitiva conjunta e separada, nada serviu de base; ao contrário, piorou a situação, visto que todos tinham razão, porque o fundamento da suposta lide era o amor, a solidariedade e a bondade que, nos dias atuais, é de míngua.

Como julgar o amor? Como dizer que se deve amar ou não amar? Dessa ou daquela forma? Como condenar quem ama? Com peso no coração e na busca da decisão, entendeu-se que, naquele momento, melhor seria pedir ajuda Superior, ainda que por meio de pequena pausa, sem que os presentes percebessem, e elevação do pensamento com pedido de luz para se decidir.

A luz veio e foi direcionada à mãe; ponderou-se, por conseguinte, que a mãe revelava - e de fato não ficou dúvida, dado o comportamento humilde da jovem - sinceridade e queria amar o filho. Todos concordaram, mas a sala foi inundada de lágrimas - até do magistrado que se tornou frágil, por ser sensível. A cena terrível e que permanece na retina do julgador até hoje foi o ato de entrega, pela família, da bela criança, um robusto e bem criado menino, à mãe.

Duas cenas ficaram marcadas: uma de profunda tristeza e desesperança; outra, de felicidade e alegria, tal que se observa nos castos olhos de uma criança que recebe um presente.

O tempo passou, sem que se apague a lembrança. Por essa razão indaga-se: Onde estará hoje aquele menino, na condição de moço, com 30 anos de idade? Não sei, mas o tenho na imagem do meu coração.

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Publicado em 24/09/2010 Aclibes, sua narrativa emociona pelos detalhes de carinho e sensibilidade com que o caso foi tratado. Parabéns pelo texto e por tudo. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - [email protected]
Publicado em 19/09/2010 Sr.Burgarelli, seu texto é muito claro, bonito e não cai nas armadilhas comuns dos julgamentos das partes. Muitos são estes casos e a Providência Divina têm se encarregado de proporcionar um bom têrmo. Temos de confiar n'Êle. Os meus parabéns! Abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]
Publicado em 18/09/2010 O que realmente se destaca em sua narrativa, é o desfecho de um caso de delicada decisão judicial
que teve a necessária inspiração da fé cristã e do
bom senso jurídico. Abraços
Enviado por nelson de assis - [email protected]
Publicado em 15/09/2010 Temos caso idêntico na família, porém com final felicíssimo: a mãe se casou com outro depois de 10 anos e o nosso bebe, é uma linda dentista mãe do Rafinha. abs. mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - [email protected]
Publicado em 15/09/2010 O parágrafo final, encerrando essa belíssima e delicada narrativa, não importa muito. O que fica é o cuidado com que foi tratado um caso tão melindroso, em que ambas as partes tinham suas razões, respeitando sempre, a tecitura de que é feita complicadas situações, sem as tentativas de se tomar um partido com base em conceitos duvidosos. Burgarelli, seu propósito era contar um fato verídico e vc o fez com estilo e classe, que trai um conhecimento bem profundo da alma humana. Parabéns, Aclibes. Mo Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
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