Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Um Grande Sonho Autor(a): Alaíde Silva Santos - Conheça esse autor
História publicada em 07/07/2010
A Natureza é fascinante e tudo nela me encanta. Da pequenina e colorida flor à mais frondosa árvore, os animais, as águas. Como é lindo o voo do beija-flor com aquela espetacular paradinha no ar. Quão gratificante é encontrar o olhar de um animal de estimação nos transmitindo mensagem de puro amor, sem exigência alguma. Só quem já se deparou com um ninho cheio de ovos, ou mesmo com alguma ave rodeada pela ninhada, é que pode avaliar tamanha felicidade.

Que saudade do orvalho na relva do campo, naquelas longínquas manhãs de inverno. O murmurinho das águas vindo das pedras, no riacho que atravessava o caminho e ia de encontro aos lírios do brejo, com suas flores brancas de perfume inconfundível, que ficarão eternamente na memória. Por voltas dos anos 62/63, apareceu no Bairro do Valo Velho, Km 27 da Estrada de Itapecerica da Serra, o “Seu Bento”, com seu pequeno caminhão.

Ele fazia a alegria da criançada, então logo passamos a chamá-lo por “seu Bentinho”; ele trazia maçã do amor e pintinhos da granja para serem trocados por "ferro-velho" (alumínio, garrafas de vidro e latas). Quase não tinha alumínio e garrafas, mas latinhas, dessas fizemos uma montanha, não escapava uma. Quando “seu Bentinho” passou, levou vários sacos de estopa cheios de latas. E assim ficaram, lá em casa, dúzias de pintinhos da granja.

Nessa época, meu pai José, mineiro vindo de Guaxupé, construía casas na Olaria. Eram casas feitas com muito esmero, para moradia e alegria dos operários, com seus numerosos filhos. Em casa, minha mãe Ana, criava alguns animais, tinha de tudo um pouco: coelho, porco, galinha, marreco, ganso, pato e peru. Naquela tarde, levei meu pai para ver os pintinhos e ele ficou bravo, disse que pintinho de granja são fraquinhos, morrem todos. E que a carne de frango da granja não tem sabor e, além de tudo, naquela troca foram as latinhas, que normalmente eram entregues ao “seu Canecão”, que fazia canecas e lamparina a querosene, de onde tirava o sustento da família.

Meu pai zangou-se, mas minha mãe aprovou. Então combinamos que as franguinhas ficariam para botar. Realmente, poucos sobreviveram e dentre eles somente uma franguinha, a qual eu dei o nome de Branca. Muitas galinhas gostavam de botar no mato. Às vezes minha mãe seguia a galinha e voltava com a cesta cheia de ovos, deixando um ovo no ninho, "indês", para a galinha não deixar de botar. Outras vezes deixava prá lá e a galinha chocava no mato e aparecia rodeada de pintinhos.

A Branca cresceu, tinha a face rosada, o corpo branquinho feito algodão, e logo começou a botar. Eu não queria que ela chocasse no mato, então, minha mãe e eu fizemos uma aconchegante "maternidade" para a Branca e as demais. Aquele galinheiro ficou o máximo.

Fizemos de bambu verdinho partido ao meio e amarrado com cipó, a cobertura de sapé colhidos no campo e os ninhos de capim também retirados do campo. Minha mãe pôs a Branca para chocar. Contente, levei meu pai para ver e ele acenou a cabeça e, reprovando, disse: - “sua mãe não tem o que inventar por galinha de granja para chocar.” O que ele e nem eu sabíamos, foi que minha mãe teve uma boa idéia.

Passados os dias certos, na mudança da lua, minha mãe disse: - “hoje os pintinhos da Branca vão PICAR.” E picaram todos, não gorou nem um. Levei meu pai para ver, tinha pintinho amarelo, pretinho, pintado, pescoço pelado e até patinhos. Meu pai sorriu. Finalmente aprovou. A Branca era mãe zelosa e estava sempre ao redor de casa acompanhada dos filhos. Certo dia ela reuniu a turminha e arriscou um passeio mais longo; desceu a ladeira onde tinha um pequeno lago.

Então, rodeada dos filhos, explicou, orientou e acreditou. E lá foram os patinhos, sozinhos, para o primeiro nado. A Branca na beirada da água, orgulhosa, admirava os filhos adotivos; e eu, no topo da ladeira, orgulhosa, admirava a Branca, minha galinha da granja. E pensar que pela troca dos recicláveis, para proteção do meio ambiente, recebi aquele lindo presente, tão frágil e tão valente. Tenho sonhado com uma estrada infinita de "Caminhão do seu Bentinho", passando pelas cidades, bairros, vilas, ruas, retirando o que pode ser reciclado e nosso “Recurso Natural” preservado, diminuindo assim o volume de resíduos nos aterros sanitários.

Tudo que fica misturado nas caçambas, em enormes sacos amarelos ou pretos, encontrados nos postes, em sacolinhas plásticas, em caixas de papelão ou espalhados pelo chão, entupindo os bueiros, judiando e poluindo nossos rios.
Tudo sendo retirado e trocado por amor, mais amor do que a “Mãe Natureza” já nos dá pelo ar, pela água, pelo solo, por esse nosso Brasil tão rico. Tenho sonhado... Como tenho sonhado...

Muito agradecida por me permitirem partilhar, com todos, essa modesta vivência e esse “Grande Sonho”.

E-mail: [email protected]
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 31/05/2011 Alaíde, como foi bom eu ler suas historia maravailhosas!
Parabéns... um grande bj
Enviado por Ana - [email protected]
Publicado em 03/08/2010 Alaide parabens por voce manter viva sua memoria com essa bela historia, me fazendo me lembrar do seu querido pai sempre bravo... este é o avo Sr. Jose...... que saudades que tenho dele....... Enviado por luzia andrade - [email protected]
Publicado em 17/07/2010 Que lindo,relembrar dona Ana e seu Ze Pinto, pessoas que fizeram parte da minha vida no passado
e que inspiraram tâo belo texto.Parabèns Alaide
Enviado por Edileuza - [email protected]
Publicado em 13/07/2010 Sim. É um sonho! é sempre um grande sonho ler aquilo que você escreve! Principalmente, por estar tão longe da minha realidade! Parabéns. Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - [email protected]
Publicado em 10/07/2010 Mamãe lembro da branca,nao foi o filhinho dela que coloquei no copo e...rs.Acho que vou investir na senhora, isso sao paginas da vida maravilhosa que existia antes e que infelizmente nunca mais voltara!! Os leitores nao fazem ideia das historias ainda por vir...rs
te amuuu ( Robson S. Santos)
Enviado por Robson Silva Santos - [email protected]
Publicado em 09/07/2010 Nada como um bocólico e encantador momento de nossa existência pra desfrutarmos eventos de inesquecíveis valor. Como é lindo esse pequeno recorte de sua infância, guarde pra toda vida essa recordação, Alaide. Parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 09/07/2010 Alaide,

Parabens pela historia..Talvez se as pessoas olhassem o mundo dessa sua mesma forma, morariamos com muito mais fartura e conforto, fazendo da natureza nossos aliados!!É um sonho que ainda não acabou!
Enviado por Rodrigo Santos - [email protected]
Publicado em 09/07/2010 Alaíde,só quem tem sonhos como você pode transformar e torna-los em realidade. Linda sua historia, meus parabéns e um grande beijo. Enviado por margarida p peramezza - [email protected]
Publicado em 09/07/2010 Linda essa sua descrição, poética até. Você é muito talentosa. Parabéns!. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 09/07/2010 Alaíde...linda sua historia!É por pessoas como vc , que são poucas , é que ainda temos este pequeno grão de natureza , de ar puro , de Pinheiros e Garças em plena margem do Rio Pinheiro...Muitissimo obrigado por deixar aqui a oportunidade das outras pessoas que não tem o mesmo privilégio que eu , de estar ao seu lado , de ouvir e aprender um pouco com suas histórias.Beijos Juliana Valente Enviado por Juliana Valente - [email protected]
« Anterior 1 2 Próxima »