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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Tuuuuummmmm... Duuuuummmmm... Autor(a): Arnaldo Martinez Capel - Conheça esse autor
História publicada em 29/06/2010
Aos poucos, as poltronas das salas, em geral grandes naquela época, iam sendo ocupadas. Mas, até que não chegasse o momento determinado, pessoas caminhavam lentamente por entre os corredores que separavam as alas de poltronas. Casais, grupos de amigos ou solitários. Uns à procura de um lugar para se acomodarem, outros, caminhando aleatoriamente, lançando olhares furtivos para alguém de quem pretendiam se aproximar no momento que considerassem oportuno.

Algumas salas, grandes e com teto alto, tinham mezaninos, denominados "pulman", cujas poltronas mais confortáveis do que as da platéia comum, e com uma visão privilegiada, justificavam seu preço um pouco mais alto. Carpetes ou tapetes impecavelmente limpos, luminárias modernas que produziam uma luz suave, decoração com pinturas modernas ou mosaicos e ar condicionado nas laterais e no teto, conferiam ao ambiente um toque de sofisticação e proporcionavam bem estar.

Nas salas simples a decoração era bem modesta, ou não havia. Tacos ou antigos assoalhos no lugar de carpetes, poltronas de madeira, com assentos retráteis, que às vezes faziam crianças bem miúdas ficarem entaladas, provocando risos de quem presenciasse a cena. Nestas, raramente havia ar condicionado e, se houvesse, nem sempre funcionavam. Ventiladores enormes procuravam dar conta do recado. Música ambiente havia em todas.

Antes de entrar na sala, uma passada na bomboniere para comprar um ‘dulcora’, alguns chicletes, uma caixinha de ‘mentex’ ou qualquer outra guloseima, era quase inevitável. No ar, o aroma apetitoso de pipoca estourada na manteiga. O público variava conforme o período do dia. Às tardes, nas matinês, predominavam os adolescentes e crianças. Por conta disso, o vozeiro, as andanças -e os corre-corres- na sala davam a impressão de se estar num páteo de recreio escolar. À noite, as sessões refinadamente chamadas de "soirées" eram permitidas somente aos maiores de dezoito anos.

Em determinado momento ‘Tuuuuummmmm... Duuuuummmmm...’ Era o sinal sonoro que se fazia ouvir, anunciando que dali a alguns minutos a sessão começaria. Não era um som seco. Assemelhava-se às notas baixas de piano, não era isso. Eu gostava muito de ouvi-lo e, por não saber como era produzido aquele sinal sonoro, era para mim, criança ainda, como um toque mágico. Mas o meu fascínio se prolongava com o apagar paulatino das luzes, como um crepúsculo, e com o abrir lento, como em câmera lenta, das cortinas.

Apressavam-se então, a se acomodarem, aqueles que ainda circulavam e, aos poucos, o silêncio era presente.
Nas horas que se seguiam, as imagens projetadas da tela eram capazes de provocar na platéia as mais diversas reações: gargalhadas, lágrimas, gritos de espanto, suspiros românticos, suspiros de alívio após momentos de suspense e, não raro, sono. Tudo dependia da trama. Nas matinês, o desempenho heróico de um personagem, derrotando implacavelmente o vilão, levava a platéia adolescente ao delírio, traduzido em gritos, assobios e aplausos.

Este era o clima das salas de cinema na minha infância e adolescência. Certa vez, tomei um jornal e fui direto "na parte de cinema", como chamávamos, para ver quantos cinemas havia em São Paulo. E surpreendi-me quando contei algo em torno de cinquenta. Todos de rua, nos bairros e no centro, pois ainda não tínhamos shoppings na cidade.

Fosse uma sala do centro ou no bairro, luxuosa ou simples, ir ao cinema era um evento; um ‘programão’. Os preços dos ingressos, inclusive com as meia-entradas para estudantes, faziam do cinema um lazer acessível a todos.
O cinema podia ser o prêmio por boas notas obtidas na escola, ou por uma semana de bom comportamento em casa, ou ainda, como não podia deixar de ser, um meio para encontros secretos.

‘Tuuuuummmmm... Duuuuummmmm...’ Luzes se apagando, cortinas se abrindo e o inicio de mais uma viagem que o cinema sempre proporcionou. Que saudade da época em que as salas de cinema estavam espalhadas por toda São Paulo!
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Publicado em 04/08/2010 Que texto bom de se ler, Arnaldo! Viajei no tempo com bastante saudade. Abraços. Enviado por Vera Moratta - [email protected]
Publicado em 13/07/2010 Caro Arnaldo. Lembrei-me com muitas saudades dos filmes em série. Cada semana era aguardada com ânsia tentando imaginar o que teria acontecido com o mocinho e com o vilão também, por que não. Tentava me comportar da melhor maneira possível a fim de que meus pais não me mpedissem ,como castigo, de ir ao cinema. Obrigado pelas lembranças causadas pela sua bela história. Enviado por AlvaroGlerean - [email protected]
Publicado em 06/07/2010 Que saudade quando vinha com o meu tio na cidade. Ele me ensinou como entrar sem pagar, pois a gente estava sempre duro. Sr. Arnaldo gostei da sua estória espero que conte mais. Aceite meus parabéns. Enviado por Francisco Del Lopomo Jr. - [email protected]
Publicado em 02/07/2010 Gostei muito desse seu jeito emotivo de levar-nos ao passado e às antigas salas de cinema. Saudades. Enviado por trini pantiga - [email protected]
Publicado em 02/07/2010 Cinema!
Ver uma vida a passar e imaginá-la minha! Por vezes, revólver à mão, lá estava eu a caçar os mais terríveis bandidos do velho Oeste. Em outras, capa esvoaçante às costas, cruzando velozmente os céus, livrava dos mais terríveis inimigos e perigos, minha doce Lois Lane, que neste caso poderia chamar-se Izabel, Neide, Marlene...
Interessante, Arnaldo, “naqueles tempos”, os filmes não acabavam ao acenderem-se as luzes, das salas que Você tão bem descreveu. Continuavam nas telas de nossas mentes, mudado apenas seu mais importante personagem, que, então, passava a ser um de nós.
Ah, Cinema! Quanta magia nessa arte, que me fez personagem virtual, pela nova dimensão que me oferecia o par de óculos de papelão, recebido à porta do República.
Ah, Cinema, que me pôs à margem da Lei - graças a Deus sem consequências - ao me obrigar a falsificar minha carteira de estudante, aumentando uns dois anos na idade, só para ver o “escândalo” dos peitos nus, com que o “Noites do Folies Bergère” (ou algo assim) afrontou a Sociedade de então.
Cinema que me excitou a libido, através de suas inúmeras musas, Brigitte Bardot, Sofia Loren, Gina Lolobrígida, Sônia Braga (ah!, a Dama do lotação!!!)...
Cinema que agora Você, Arnaldo, me traz à lembrança, com a mesma força do estrondo do canhão que, no filme Cameroon, pegou-me desprevenido, quando, num gesto de extrema audácia para a época, pegava na mão de minha acompanhante e só para ela tinha olhos.
Arnaldo, na próxima vez em que Você viajar por suas saudades, leve-me junto. Filme romântico, não, é claro, mas que tal darmos boas e saudáveis risadas?
Pode ser o brasileiro Mazzaropi, como também pode ser o Jerry Lewis, Abbott & Costello, ou até mesmo uma Sessão Zig Zag, no Metro, onde, para mim, tudo começou.
Aguardo. Um abraço e... muito, muito obrigado!
Luiz
Enviado por luiz carlos gusman - [email protected]
Publicado em 01/07/2010 Uma sala de cinema é (ainda) a ante-sala do mundo das mais doces e emocionantes fantasias que o censo humano pode criar. Vc. ilustrou muito bem o que é uma seção de cinema. O início de um filme assemelha-se a uma secção de terapia, onde o assistente torna-se partícipe do enredo, com a vantagem de se ausentar, se não gosta do que está vendo, ignora completanmente enquanto que, se gosta fica tão emocionado que chega as lagrimas. Parabéns, Arnaldo, sua crônica é impecável.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 30/06/2010 Arnaldo, era mágico ir ao cinema nessa época. Hoje, tem-se a impressão que a pipoca é mais importante que o filme. Era um ritual quase sagrado ir assistir a um filme. Tempo bom. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - [email protected]
Publicado em 30/06/2010 Arnaldo, bela descriçãõ das salas de cinemas, do ritual repetido a cada inicio, meio e fim da sessão, os tuuummm...duuumm, depois as luzes se apagando devagarinho, as cortinas se abrindo, o canal 100 até o The End, as cortinas se fechando, luzes se ascendendos até o próximo Tuuuummmm...duuummmm.Abraços, Marco Antonio (Marcolino) Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - [email protected]
Publicado em 30/06/2010 Arnaldo, seu texto levou-me até o "pulman" do cine Júpiter lá na Penha, onde assisti "Quando setembro vier", Candelábro Italiano", "Trapézio" e vários filmes mexicanos com Libertad Lamarque.
Bons tempos, cheios de saudades.
Enviado por Bernadete Pedroso de Souza - [email protected]
Publicado em 30/06/2010 Seu texto é uma instantaneidade luminosa e poderosa que fez do passado presente. Que magia o cinema exercia sobre mim!!! Parabéns. Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - [email protected]
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