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Categoria - São Paulo do século XXI As belezas no caminho do trem Autor(a): Alaíde Silva Santos - Conheça esse autor
História publicada em 16/03/2010
Trem é fantástico. Não sei bem a razão, nem tão pouco tenho explicação, porém, quando vejo um trem em movimento tenho a sensação que ele vai em direção ao paraíso, a um lugar encantado. Minha primeira viagem de trem foi no mês de janeiro em meados da década de 60. Fui com minha mãe visitar uma comadre em Jaú. Esse trem tinha primeira classe com um luxuoso restaurante, mas nós fomos de segunda mesmo e foi inesquecível.

Partimos da Estação da Luz por volta das 22h, sobre a luz do luar viajamos a noite inteira e chegamos ao amanhecer, no cantar do galo. Da estação se ouvia toda a cantoria e minha mãe disse que eles davam as boas vindas para quem vinha de longe e na casa da comadre, mais, boas vindas. A família toda acordada, o fogão à lenha estava aceso de velho, pão de queijo assando, bolo cheirando, o cafezinho tinha acabado de ser passado, e então tivemos dias de muita alegria.

Em janeiro, no início da década de 70, fui conhecer o mar, em companhia das amigas do meu primeiro emprego no Apsen Laboratório Farmacêutico, localizado à Rua João Ramalho, esquina com a Rua Barão do Rio Branco, no amado bairro de Santo Amaro. Fomos de trem, bem cedinho partimos da Estação João Dias em Santo Amaro. Minha mãe tinha feito um "rosário" de recomendação, para eu não andar de um vagão para o outro no trem, (a passagem entre um vagão e outro era aberta e ficar na beiradinha da água). Coisas de mãe.

Não me recordo bem o percurso, mas é nítida na lembrança a paisagem belíssima da natureza. E enquanto nosso trem descia, outro subia no cabo de aço. É o que diziam. Depois de um dia de tremenda aventura, a volta foi salgada, não tinha água doce para o banho. Já se passaram tantos Janeiros! Início de 2009, ao ficar horas após horas no carro ou no ônibus no trânsito da Marginal vendo nosso trem da linha Esmeralda passar eu resolvi mudar.

Decidi ir de trem! E numa manhã ensolarada, na estação Interlagos: Lá vem o trem, imponente, faceiro e vem ligeiro. Não é o trem das 11 é o trem das 10. Não é nenhum dos doze trens novos, este é velhinho, mas era bem cuidado, conservado, limpinho, cheio de energia e muuuita experiência, faz bonito a qualquer novinho. Está um pouco lotado, não vai dar para ir sentado, mas ele não pega trânsito, então vamos apreciando a viagem.

Logo depois de contornar o ex-aterro sanitário, que agora está todo gramado e com várias moitas de bambu verdinho onde está sendo feito à ciclovia, nós vamos encontrar o Rio Pinheiros. Alguém de bom coração está cuidando das margens do Pinheiros, isto está atraindo pássaros de várias espécies, dentre eles tem um amarelo quase dourado que assim como os demais veio tirar o alimento da grama que está bem aparada.

Um pouco mais adiante uma numerosa família de capivara, felizes, tem até um filhote tomando sol de barriga pro ar, e eu consigo notar a alegria no olhar daquele pequeno, então me encho de fé e esperança de ver nosso Pinheiros limpo um dia. Chegando à estação Santo Amaro, na margem oposta, aos fundos da empresa Bayer, tem uma árvore “chorão” com seus longos galhos quase tocando a água, repleta de pontos brancos e em um espetáculo mágico, as brancas garças partem em revoada.

Os passageiros ficam abismados. Quem vai de carro, moto ou ônibus não conseguem ver essas belezas, mas quem vai de trem vê muito bem. O Pomar Urbano (ex-Projeto Pomar) está florindo num colorido exuberante. E vamos prosseguindo, juntinho do Pinheiros, e de tudo já foi feito com ele, até o rumo dele foi mudado. Ele é o único rio que sobe. Tem o sistema de flotação, tem a barcaça numa limpeza constante e incessante, retirando do leito do rio toneladas de lixo, mas tem sido quase tudo em vão, falta consciência e colaboração da população.

Centenas de arranha-céus estão sendo construídos a cada dia, e próximo à Ponte Octavio Frias, (Cartão Postal da nossa Cidade) tem um prédio diferente, um pouco mais baixo que os demais, com a fachada arredondada todo espelhado, acabou de ficar pronto. E nesta região, em uma das mais caras de São Paulo, entre o luxo e o lixo, segue ele, singelo, judiado, sofrido, mas resistindo.

Do trem eu me ponho a pensar: São milhões de pessoas que vivem na região, outros por esses prédios transitam, tantos outros milhões pela Marginal vem e vão. Quantos vêem o Rio Pinheiros? Quantos ao menos notam sua presença? Quantos o ignoram ou tem por ele indiferença? Quem saberá? E assim vai, vai o trem, entre as belezas e tristezas, vai o trem...


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Publicado em 31/12/2011 Amei essa historia e viajei com você,assim como viajo todos os dias desde que nasci no trem da cptm linha 7- rubi;Você tem razão quando diz que o trem é fantástico,nos faz sonhar enquanto vagueia pelos vales, leito dos rios,tuneis, arranhacéus,nasci praticamente dentro de um trem,trem de madeira,me lembro como se fosse hoje, pequena,aguardando e vendo passar na porta de casa o trem que no inicio um por dia,varios ao dia,grandes e pequenos interva-los sofrido pra quem só tem ele como tranporte... Enviado por Elisia Teodoro Nunes - [email protected]
Publicado em 16/12/2011 linda historia alaide, me fez voltar no tempo em que eu era muito criança ainda, com os meus 7 ou talvez 9 anos de idade nos maravilhosos e inesqueciveis anos dourados na decada de 50 e 60 qdo meu querido e saudoso pai nos levava para passearmos de são paulo até rio claro, pegava-mos o trem na luz, e subia-mos aqueles degraus com uma emoção tão grande, parecia que era tão distante e hoje vejo que é tão perto, vagões de madeira, as saudosas porteiras nas fazendas, ruas de terra batidas, meu Deus como eu era feliz, velhos tempos belos dias tudo passou infelizmente porem ficou a lembrança de um tempo que não se apagará jamis da minha memoria....... Enviado por sergio - [email protected]
Publicado em 18/04/2010 Que linda historia!!! me lembrei quando viajava de trem pra paraguaçu paulista com minha vó ,mãe e irmaos,nos eramos muito felizes.as viagens eram incriveis,eu tinha apenas 7anos mas nunca me esqueço como é maravilhoso viajar de trem!!pena q o governo não investe mais nas ferrovias.viajar de trem é como se encontrar.parabens pelo seu texto!! Enviado por dionéia toledo - [email protected]
Publicado em 29/03/2010 ALAIDE - Explêndida esta sua linda historia. Infelizmente o Governo desinteressou pela ferrovia, sem poluição e de custo mais barato. E por falar em trem. E por falar de trem, foi a minha mais longa viagem de trem que já fiz. Sai de Pedrinha, Municipio de Sergipe, no dia 23/10/1950, chegando em São Paulo dia 01/11/1950. 9 dias de trem. Posteriormente contarei a minha historia sobre esta viagem. Abraços Farias Enviado por A. Farias - [email protected]
Publicado em 28/03/2010 Alaide parabens pelo texto, que bom que conseque ver beleza durante a sua viagem todos os dias isto é muito bom , a maioria so conseguem ver um transito horrivel que tem enfrentars todos os dias; sua histora me fez lembrar "quando eramos todos jovens e faziamos a viagem para Santos no trem que descia a seera por cabo de aço que saudades...... que pena que nossos governantes não se interessam pelas linhas de trem , bem que poderiam voltar a funcionar em todo o Brasil seria maravilhoso. Enviado por luzia andrade - [email protected]
Publicado em 26/03/2010 Alaide, lindo texto! Parece historinha de ninar, escrito com muita naturalidade e precisão. Viajei muito de trem de São Paulo a Bauru, região onde nasci, e também fiz essa viagem de trem até Santos. Deveríamos ter trens de passageiros interligando São Paulo às grandes cidades que estão num raio de 100km.
Aroldo Ramos
Enviado por Aroldo Ramos da Silva - [email protected]
Publicado em 25/03/2010 Alaíde, seu jeito de escrever me emociona. Na prática, nunca viajei de trem. Faltou oportunidade, vontade, não sei ... O fato é que ao ler sua tão bem elaborada crônica, tenha certeza que você me levou ao meu primeiro passeio ! E, acredite que foi maravilhoso !!! Espero que você me leve a 'outras viagens' fantásticas. Grande abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - [email protected]
Publicado em 23/03/2010 Alaíde, que trem gostoso de viajar e se deixar levar no tempo e no espaço. As paisagens vão surgindo em nossa memória, qual nuvens em dia claro. Belíssimo texto, um grande abraço e vamos para o próximo, né? Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - [email protected]
Publicado em 19/03/2010 Oi, Alaide o seu outro texto, apesar de não fazer nenhum comentário, mexeu muito comigo por falar de coisas e lugares que não conheci (tão perto e tão longe). Agora você chega com "As belezas no caminho do Trem" , este, um sonho há muito idealizado. Precisamos conversar! Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - [email protected]
Publicado em 19/03/2010 Que bela história, envolvente.
Com esse seu relato, fica claro, o quanto esse meio de transporte é tão importante para todos nós.
Com certeza, faremos uma viagem de trem em breve.
Niderce
Enviado por Niderce Teresa - [email protected]