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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Nas Ruas do Brás Autor(a): Amilcare Poezi - Conheça esse autor
História publicada em 10/03/2010
Ao ler o livro do médico infectologista Dr. Dráusio Varella, "Nas Ruas do Brás", e encorajado pelo espaço cedido por esse site extraordinário, atrevo-me a escrever minha história, “Nas ruas do bairro do Brás”.

Chegando a casa dos 70 anos inicio agora a escrever textos na internet, minha esposa me orienta, digita alguns dos meus textos, e muitas vezes, quando estou exercitando me repreende: - Milca, abaixe a "Caps Look". Finjo que não é comigo e vou seguindo, crescendo, progredindo, como sempre foi minha vida, cheia de vitórias e sucessos, mesmo que minha religiosidade me diz que o futuro a Deus pertence.

Meus tempos de criança vivi no bairro do Brás, mais exatamente na Rua Flora. Passei a identificar o bairro nesse magnífico site, através de autores mais antigos, pois a superfície do bairro sempre foi extensa, e limitei-me a passar a infância na rua onde nasci.

A molecada se divertia no meio da rua, não na frente de computadores (o qual estou apreendendo a utilizá-lo agora) ou vídeo games, mas brincávamos de pegas-pegas, jogo de botão, polícia e ladrão, futebol de rua, mocinho e bandido. No futebol de rua fui pretenso centro-avante, e costumava ser ladrão e bandido nessas brincadeiras.

Nas peladas meus amigos diziam, Milca caia pelos dois lados, eu teimosamente caia pela direita, como um bom filho de calabrês. Acabei, pelo jeito truculento de ser nas laterais do campo, fui ser torcedor e segurar a barra do lado de fora.

Outra brincadeira que adorava era equilibrar o aro de uma velha bicicleta através de um arame. Rodava até a Rua Campos Sales, sem deixar cair. Lá meus amigos rodeavam meu brinquedo e cada um fazia a sua tentativa. Distraiamos, nos jogos infantis de guerra, representando papéis fictícios, era aliado aos meus amigos japoneses: Kuni, Kenti e Tsuruki, e um loirinho, o Hugo, formávamos o 3º Eixo ficcional.

Meu "nonno" possuía uma vitrola antiga. Ela ficava em cima da cristaleira, gostava de ouvir "La Strada Del Bosco", com Gino Becchi. Desligava a vitrola e em seguida ligava o rádio de galena, adorava ouvir os discursos de Mussolini na época da guerra.

Dessa época apreendi que devemos sonhar e vencer, sendo a violência um dos atributos que devemos utilizar para produzir, os efeitos que pretendemos de nossos sonhos. Da cadeira de balanço, lia o "Fanfulla", um jornal que serviu a colônia italiana com o objetivo de resgatar a unidade do povo de origem peninsular em São Paulo.

Estudar, não estudei, era um rebelde, sem uma causa justa, fui expulso cinco vezes das escolas, mas recordo dos 70 professores que tive. A família tentou o bairro do Brás, Belém e Mooca, não vinguei nos estudos, então fui trabalhar cedo. Aos dezessete anos tive meu primeiro emprego, na Rua Direita, caminho que me persegue. Caminhava a pé da Praça da Sé ao local de trabalho.

Na hora do almoço percorria o centro da cidade, e quando chovia não me molhava, conhecia todos os caminhos e, outras vezes abria o guarda-chuva. Vocês devem estar se perguntando, e daí? Daí eu explico: com tudo isso que relatei, e ainda com a incrível volta que fazia pelos trilhos, junto às porteiras do Brás em plena noite, um só breu, nunca me aconteceu nada.

Nunca fui assaltado, nunca fui parado por alguém, nunca soube que alguém tivesse sido vitima de alguma violência. Pouco alfabetizado, não lia os jornais, evidentemente. Eu sim, fui flagrado por diversas vezes com maus elementos e roubava marias-moles da sapataria do Sr. Mário. Quando digo que antigamente era quase tudo diferente, “mato a cobra e mostro o pau”.

Alguém dirá: - mas hoje a população é maior, - eu respondo: tudo é relativo, e proporcionalmente era igual. As pessoas que eram diferentes, nossa preocupação era trabalhar, estudar (eu não, fui expulso) e se divertir. Não era ter mais do que era necessário, dávamos mais valor para o que tínhamos e não para o que não tínhamos (exceto maria-mole), éramos sonhadores. Sonhávamos em sermos bem sucedidos mesmo sabendo que o futuro a Deus pertencia.

Nos atuais dias eu sou (do verbo ser) diferente, caridoso, dou o que tenho, se me pedirem. Nas eleições passadas, doei oito caminhões de papéis, para os candidatos fazerem santinhos de propaganda, salientando... Nós somos responsáveis por nós mesmos, não precisamos de nenhuma tutela de nenhum governo corrupto, tirano e cruel, mesmo sabendo que o futuro a Deus pertence.

A vida, e os sacrifícios nas ruas do bairro me tornaram caridoso e vencedor. Ajudo meu irmão, fazendo bico de vendedor na sua indústria de embalagens e alguns colegas no trabalho me dizem: - Milca, você é muito conservador. Eu respondo: - Sempre fui assim. O que me fez lembrar dos tempos em que comecei a namorar. Sou do tempo em que se pedia a menina para namorar. Iniciei aos treze anos.

Era mais ou menos assim: - Você esta comprometida? Quer se comprometer comigo? A minha namorada, esposa atual respondeu: - Comprometida? Não quando sair da escola, irei direto para casa, não tenho outro compromisso. Eu disse: - quero namorar com você!

Aos 18 anos falei com o pai dela e ele me autorizou a pegar na mão dela, porém não podia chegar após as dez horas da noite, e namorar somente as terças, quintas, sábados e domingos. Nosso primeiro contato bilabial foi após o casamento. Fomos no 16º Cartório de Registro Civil, na época na Rua Piratininga, e na presença de duas testemunhas firmamos o compromisso.

Não por acaso estou casado há 35 anos, e convivemos juntos 45 anos. Na lua de mel tive algumas dificuldades, era inexperiente, mas meu irmão mais velho havia me presenteado no casamento com "O Kama Sutra", e após seis meses nos entendemos. Para nós que somos daquela época, não há novidade nenhuma nisto, mas nestas poucas linhas dá para perceber que tínhamos e dávamos muito valor à moral.

Éramos pobres e humildes, não "problemas sociais", e ajudamos a criar uma sociedade digna. Quando alguém diz que antigamente todo o lugar era assim, pode até ser, mas o Brás e a minha rua eram diferentes. Tão diferentes que até um dialeto próprio, nós descendentes de italianos tínhamos.

Misturávamos português mal falado com napolitano e com outros dialetos italianos, que ao se "fundirem" criavam palavras somente entendidas por quem vivia no mundo mágico e utópico do nosso velho e querido Brás.


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Publicado em 15/03/2011 super legal minha amiga dis o mesmo cada historia tem suas lembranças Enviado por camile e tassiane - [email protected]
Publicado em 10/02/2011 gostei muito do seu relato,parecido com a minha historia,pois fui espulso de tres colegios.sou neto de Italo della Rovere e bisneto de Mario della Rovere e gostaria de saber se vc pode me ajudar a descobrir a provincia que nasceu meu avô, pois pretendo ir a Italia. Enviado por Nelson della Rovere - [email protected]
Publicado em 26/03/2010 E viva o Braz, viva os italianos, mas nada de violência e nada de Mussolini, que odiava as liberdades civis, odiava as lutas dos trabalhadores. O fascismo pregava tudo para o Estado, nada acima do Estado. Puxa que sufoco. Enviado por Clarice Anunciata Lombardi - [email protected]
Publicado em 22/03/2010 Ah! Braz... Sempre lembrado por aqueles que ali passaram. Quem bebeu desta água, não esquece jamais.
Abraços..Pedro Nastri
Enviado por Pedro Nastri - [email protected]
Publicado em 20/03/2010 Sim, Sr. Poezi, ele é meu sobrinho. Já o Gen. Nicastro, emérito cidadão do Brás é, parece, parente do Generale Della Rovere, personagem de um filme de Vittorio de Sica. Gente finíssima ! Enviado por Carlos di Franco - [email protected]
Publicado em 19/03/2010 Sr.Carlos, ele é meu pai. Muito amigo do Gal. Carmona, irmã da dna Dolores, ex-secretária do município em 82. Obrigado pela lembrança. Enviado por Amilcare Poezi - [email protected]
Publicado em 19/03/2010 Caro Sr.Carlos Di Franco houve um erro de identificação, pelos arquivos Gal.Tadeu Nicastro é residente em Sta.catarina, e esteve em São Paulo nas imediações da Rua Alvarenga, também conhecida e esclarecida por um estouvado autor, como Viaduto Alvarenga.Pela informação do General, el envia e-mail de seu sobrinho, residente em Sampa para chegar mais rápido.A proposito o senhor e parente do Dr.Di Franco, dá Escola de Caligrafia Di Franco? Enviado por Amilcare Poezi - [email protected]
Publicado em 18/03/2010 Senhor Poezi, por acaso seria parente do General Tadeu Nicastro, também cidadão do Brás? Abraços. Enviado por Carlos di Franco - [email protected]
Publicado em 16/03/2010 Muito belo, voce não se alfabetizou direito, mas nasceu escritor. Parabens e um beijo na alma. Enviado por Eider Castor da Nobrega Filho - [email protected]
Publicado em 16/03/2010 Com o sobrenome Poezi, só poderia ser um poeta.Em certos momentos cheguei a achar que você usou nome fantasia mas vamos ao que interessa- o relato é magnífico, e tirando as licenças poéticas era desse jeitinho mesmo. Tenho 70 anos, era da Rua Paraná, Meu avô napolitano tinha fábrica de móveis na Piratininga ( na esquina do Cine Ideal) isto no ano zéro.E, por esse fato, aquele pedaço que você descreveu é exatamente uma cópia fiel daqueles saudosos idos. Meu lado espanhol era oficinas e ferrovelho Enviado por trini pantiga - [email protected]