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Categoria - Outras histórias Velhos tempos, novos dias... Autor(a): Alaíde Silva Santos - Conheça esse autor
História publicada em 21/01/2010
É do início da década de 60, que vêm as primeiras lembranças da minha infância. Eu morava numa casinha pequenina, bem na beira da estrada. Naquele pedaço de chão meu pai plantava e cuidava. Abaixo da minha casa, tinha a olaria do seu Aroldo, ao lado tinha um caminho que ia até o seminário, onde mais abaixo tinha a chácara das Rosas, ao longo desse caminho muitos pés de Pinheiro que dava pinhão a "rodo", e o João de Barro gostava de fazer suas engenhosas casas no mais alto galho dessas árvores.

Próximo à Olaria passava um rio, onde vez em quando um peixinho era pescado para ser servido fresquinho no almoço. Do outro lado da estrada havia o sítio do seu Guerino, era muito interessante como se tirava água do poço deste sítio. Tinha uma bomba manual que levantando e a abaixando uma alavanca a água cristalina ia jorrando. Tipo aqueles de filme antigo americano que não precisava de energia elétrica. Também nem tinha, a luz era da lamparina de querosene.

Em casa era diferente, minha mãe tirava água do poço com o balde, na manivela. Na casa deste sítio eu presenciei a vizinha cortando o pescoço de uma galinha e esta correu quintal a fora sem cabeça. Ao redor da minha casa meu pai plantou muitos pés de Lima da Pérsia, dava Lima o ano inteiro, e todos os dias meu pai descascava muitas frutas para chuparmos logo pela manhã. Ele dizia: - fruta de manhã é ouro, meio dia é prata e de noite mata.

Nunca soube o porquê, mas era ditado do meu pai. Tinha um abacateiro, um pé de gabiroba, e muitas laranjeiras. Certa vez minha mãe e eu buscando lenha no mato encontramos uma orquídea (hoje eu sei que era Catleya, orquídea nossa), minha mãe trouxe a planta no galho e juntou ao pé da laranjeira que ficava bem na porta de casa. A orquídea gostou do lugar, abraçou a laranjeira, cresceu e floriu muito. De cor rosa bem forte ela encantava a entrada da nossa casa.

A mais linda árvore de Araticum, também estava lá, e diariamente recebíamos a visita do amigo “Serelepe”. O bichinho chegava rapidinho, cumprimentava com o olhar, subia na árvore, pegava uma fruta, comia lá mesmo. Lá das alturas ele inspecionava toda a região, e satisfeito enchia o peito, pois tudo sempre estava na mais perfeita ordem, descia feito um foguete, se despedia para voltar religiosamente no outro dia. Mas, a triste hora chegou, o lugar foi vendido para ser construído o Convento.

Não deu nem para respirar, e o trator chegou derrubando tudo. Os pés de Lima, todos caíram, o abacateiro carregado de frutas também. A laranjeira repleta de flor preparando os frutos, com a orquídea também florida abraçada a ela foi para o chão. Só a casa ficou de pé. Décadas já se passaram e ainda dói meu coração... Quando eu vi no alto do barranco nosso amigo “Serelepe” com os olhinhos miudinhos, piscando freneticamente tentando segurar as lágrimas, presenciava tamanha tristeza.

Nas garras do trator o observatório dele lentamente caiu. Ele me deu um último olhar, se despediu para nunca mais voltar. Hoje naquele lugar só o Convento ainda existe. A Olaria há muito se acabou, o rio que passava embaixo da ponte da estrada, sumiu. A lagoa onde eu passeava de canoa secou. As coloridas Rosas cheirosas, só minha memória guarda o retrato com a beleza e o perfume delas. O sítio onde eu vi a galinha correndo sem cabeça, não existe mais. Os Pinheiros que davam pinhão para ser assado na fogueira de São João, não têm nem para remédio.

E o João de Barro onde andará? Não restou um para contar se é verdadeira a história sobre a esposa infiel. O progresso chegou nada nem ninguém ele perdoou. Na missa de domingo o padre falou: - As irmãs também vão para outro lugar. Temos notado famílias inteiras de bichinhos com seus filhotinhos, percorrendo léguas ao relento, sob sol, chuva e vento, desesperados, desvalidos, se achegando nas casas procurando abrigo.

Foram expulsos daquele verde tão lindo que o nosso criador preparou para eles e que o homem resolveu derrubar e cimentar para abrir alas para o Progresso. A que preço tamanha judiação? Porém, tem muita gente gostando, a Rodovia vai movimentar muuuuitos milhões e vai valorizar a região. É custoso para o homem entender que não existe um único ser que consiga viver sem o ar, sem a água e sem o solo fértil para tirar o alimento.

Então, consciente ecologicamente ou não, nem adianta chorar, já está tudo no concreto, é fato consumado, concretizado está...


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Publicado em 31/05/2011 Alaide, ao ler a sua mensagem, não foi uma simples mensagem, mas sim uma historia vivida que você pode expressar os melhores sentimentos e lembranças.
Que a sociedade possa ver o quanto a natureza está sendo prejudicada com o progresso.
Parabéns... bjs
Enviado por Ana - [email protected]
Publicado em 08/07/2010 MAeeeee,tenho muito orgulho da senhora,pq para fazer essas historias tem que ser bom. Daqui a pouco ja pode pensar em livro...rs
e esses tempos so voltaram qdo o mundo acabar denovo.
te amuuuuu (Robson S.S.)
Enviado por Robson Silva Santos - [email protected]
Publicado em 21/03/2010 Alaide parabens ´;gostei muito ,estamos descobrindo que na familia temos uma escritora,que saudades dos velhos tempos,um forte abraço, de sua admiradora hoje e sempre VLS. Enviado por vera luzia rodrigues da silva - [email protected]
Publicado em 07/03/2010 Alaide, quanta sensibilidade!!O sentimento que existe no texto e em seu coração é tão belo como um jardim encantado. Que prazer dar parabéns por aqui também, foi um prazer conhecê-la nas redondas. Um grande beijo. Enviado por margarida p peramezza - [email protected]
Publicado em 22/02/2010 Lindo, Lindo, Lindo o seu texto, faz bem para a alma, viajar na sua narrativa, sentir o cheiro das flores, das matas, das frutas e da agua do poço. Parabens - Hermes Enviado por Hermes C. Figueiredo - [email protected]
Publicado em 18/02/2010 Lindo o seu depoimento e faço minhas as suas palavras. Demolições, devastações, progresso. Será? Enviado por roseli t. nabarrete - [email protected]
Publicado em 07/02/2010 Maravilhoso! Adorei seu texto: nostálgico, comovente, ecológicamente correto!
Parabéns Alaíde. Abração.
Enviado por Doris Day - [email protected]
Publicado em 29/01/2010 Alaide, parabéns pelo seu debut, e, principalmente pelo seu texto maravilhoso, romântico e bucólico, retratando perfeitamente a periferia de Santo Amaro da década de 60. Um abraço, Rossi.

o
Enviado por antonio rossi dos santos - [email protected]
Publicado em 29/01/2010 Quanta ternura, quanta bondade, quanto amor vc. transfere ao apreciador de boas leituras, Alaide. O assunto poderiamos relega-lo a um plano secundário mas, ele é riquíssimo em poesia e lirismo. É nesse particular que reside a grande atração de sua crônica, Santos. Vc. sabe, como poucos, manter a leitura agradável, do princípio ao fim. A transformação de uma paisagem bucólica em "monstros" de concreto, é corriqueiro aqui em nossa cidade. Tudo em nome do progresso. Fim da poesia lírica. Parabéns. Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 23/01/2010 Alaide, saudades imensa da velha Estrada de Itapecerica. Na década de 60 por lá andei, naquela mata rodeada de árvores, de sábias larajeira, curiós, Bem te Vis voando pelo espaço ilimitado, numa sinfônia magistral enchendo o ar de felicidades no seu doce trinar. O "progresso" mais uma vez, em nome do dinheiro, tudo destroi. A NATUREZA NÃO SE DEFENDE, ELA SIMPLESMENTE SE VINGA. Hoje, estamos assistindo a destruição por toda parte do planeta. Gostei muito de seu singelo texto. Abraço Grass Enviado por J. Grassi - [email protected]