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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Décadas de 40 e 50 na Vila Leopoldina Autor(a): Antonio Tondin - Conheça esse autor
História publicada em 13/11/2009
As pessoas se preparam para mais um dia de trabalho. Existiam nas redondezas várias empresas para onde elas se dirigiam: O Frigorífico Armour; A Manufatura de Artigos de Borracha e Plásticos Pager, na "borracha" como era chamada; na "maizena" Refinações de Milho Brasil; Sabonete Lever; Laboratório Farmacêutico Lorenzini, entre muitas outras.

Na descida do abacateiro, início da Rua Aliança Liberal, já se escutava o sino do carroção de leite (Vigor) entregando o leite de porta em porta. A carroça do padeiro entregava os pães, logo pela manhã, e marcava a conta em caderneta, para receber no final do mês. E o freguês ainda ganhava um pão doce como brinde. As cadernetas também eram utilizadas nas compras nos armazéns de "secos e molhados", e ao pagar ganhava uma lata de marmelada da marca Peixe como brinde.

Em cada esquina da Rua do Corredor, atual Rua Guaipá, tinha uma dessas “Vendas”, onde se vendiam arroz e feijão a granel. Como a venda do Totó, do Roque, do Cardoso, do Camilo, do Martinho e a do Porfírio, que em frente tinha uma bomba de gasolina do Sr. Nicola, que abastecia os poucos carros daquela época.

Desde aquela época já existe a loja Armarinhos do Sr. Anelo que permanece lá até hoje. Tinha o Sr. Natalino barbeiro de grande clientela. Os primeiros médicos da Vila Leopoldina foram: o Dr. João Neder, na Rua Corredor e o Doutor Lafayete na Rua Curupaiti. Havia a Sociedade Beneficente Bandeirante, onde os sócios pagavam uma mensalidade e tinham direito a assistência médica e odontológica. Hoje o seu salão é alugado para eventos, casamentos, aniversários, etc.

Na esquina das Ruas Aliança Liberal e Cel. Botelho, havia o bar do Sr. Tinho, onde as pessoas se reuniam para jogar Bilhar. Havia também várias escolas particulares, uma delas a do Sr. José Joaquim (Zé Careca) com bons trabalhos prestados aos moradores. Ensinando os primeiros passos para a alfabetização. No início da Rua Aliança Liberal tinha uma sala de aula, onde lecionava a Dna. Maria, que ensinava as crianças a ler e a escrever.

Tinham vários vendedores de porta em porta. Como um casal que vendia batatinhas em uma carroça, um senhor com uma sacola nas costas vendia sementes, uma mulher vendia fígado, outros vendiam alho, o Sr. Pascoal era o peixeiro. O Zé das Cabras ia pelas ruas com várias cabras, uma amarrada às outras, passando pelas casas vendendo o leite tirado na hora. Um turco vendia roupas com uma charrete. Tudo marcado em caderneta e pago no fim do mês.

Os garotos se preparam para ir à escola, Grupo Escolar de Vila Leopoldina que ficava entre a venda do Sr. Martinho e o açougue do Sr. Gino, a diretora era a Dna. Nina. Dna. Ana, Rafaela, Bruna, Celina e Sara, eram algumas das professoras daquela época. As classes eram divididas em três horários: das 8h00 às 11h00, das 11h00 às 14h00 e das 14h00 às 17h00. Com o fechamento desta escola os alunos foram transferidos para a Escola Professor José Monteiro Boanova, no Alto da Lapa.

Os garotos que não iam à escola naquele período jogavam futebol no Campo do A.P. Vasco da Gama, o Vasquinho, na Rua Montevidéu com a Rua Aliança Liberal, ali eram realizados torneios da turma de cima, Açougue do Rivetti, contra a turma do meio, Padaria Sr. Genaro, e contra a turma de baixo, da Fábrica de Borracha Pager.

Alguns garotos que jogavam futebol: Salim, Dorobel, Tuto, Henrique, Irineu, Luis (Zupa), Fausto, Adilson, Zéca, Adelino, Haroldo, Rodolfo e Abel (triste lembrança, o Abel espetou um prego enferrujado no pé e acabou morrendo de tétano). Outros garotos pescavam e nadavam nas lagoas Tanque Azul e Prainha, onde é hoje o Ceasa. Outros iam pegar passarinhos e jabuticabas na chácara Aliança. Outros empurravam pneus usados pelas ruas.

Várias brincadeiras eram praticadas por estes garotos naquela época. Farão tudo que o mestre mandar, faremos com muito gosto, quem não cumpria a tarefa ficava de castigo. Uma na mula, onde uma pessoa ficava agachada, as outras vinham e pulavam em cima. Carrinho de carretel, pois naquele tempo não existia carrinho de plástico, somente de Baquelite. Brincavam também de boca de forno.

Havia vários álbuns de figurinhas, de futebol vinha enrolada em uma bala, e tinha também as carimbadas que eram mais difíceis de sair. Os álbuns "Balas seleções" tinham vários assuntos de conhecimentos gerais. Havia muitos temas para os álbuns de figurinhas, "Ídolos da tela", "Gata borralheira", "Marcelino pão e vinho", "Branca de neve e os sete anões", essas já começaram a ser vendidas em envelopes. Havia também figurinhas que vinham dentro do pacote de café Jardim. Quem conseguia preencher o álbum ganhava prêmios.

Antes as bolas tinham uma câmara de ar com um “bigolim” que era colocado para dentro. Havia uma brincadeira com bolinhas de vidro (de Gude) que se chamava "Bolinha a Box". Alguns garotos empinavam quadrado o mesmo que Pipa, outros jogavam pião. Outros faziam Balões, pião, caixa, almofada, barrica, careca de padre, charuto, bola, etc. Alguns garotos gostavam de ler Gibis, histórias em quadrinhos, entre eles o do Mandrak, o Fantasma, Capitão América, Capitão Marvel e muitos outros.

Outro jogo que os garotos gostavam era a Caixeta, colocava-se uma moeda em cima de uma caixa de fósforos em pé, uma outra moeda de 400 Reis era jogada contra a caixa, a certa distância. Quando derrubada, a moeda que ficasse mais perto da caixa ia ganhando as mesmas.

As meninas pulavam amarelinhas, ciranda de roda, pula-corda, esconde-esconde. Na Rua do Corredor eram montados vários Circos que aos domingos de matinê passava o seriado o Homem-aranha e o Escorpião. Também se apresentavam os artistas Alvarenga e Ranchinho, Arminda Falcão, os palhaços Fuzarca e Torresmo, etc.

Também eram montados vários parques de diversão. No mês de Junho começavam as festas Juninas, com quermesse em várias Igrejas da região, entre elas a da Igreja N.S. Fátima, na Rua Barão da Passagem, Alto da Lapa. Depois chegou a era do Cinema, onde vários foram construídos na região. O Cine Bagdá na Rua do Corredor passava dois filmes à noite, e aos domingos matinê com dois filmes e um seriado. Flash-Gordon, Perigos de Nyoka, os Tambores de Fumanchú, Jim das Selvas, com Jonny-Weismuller.
Outro era o Cine Brasília, na Rua Brigadeiro Gavião Peixoto, onde até pouco tempo era o Supermercado Pão de Açúcar, e o Cine Santo Estevão, na Vila Anastácio, do lado da Igreja. Naquela época, com o surgimento da televisão, onde poucas pessoas tinham condições de comprar uma, a saída era ir aos bares da redondeza onde tinha o aparelho.

No fim da Rua do Corredor, lado esquerdo, onde é hoje um posto de gasolina era o bar do Gama. Antes de ir para a escola, íamos assistir o desenho do Pica-pau. Tinha outra em um bar na Rua Aliança Liberal, esquina com a Rua Cel. Botelho, bar do Português, que aos domingos, lotava quando passava o jogo de futebol entre o Palmeiras e o Corinthians. Bar de triste recordação, pois ali foi assassinado o soldado do exército Geraldo, filho do Delegado, Sr. Garcia.

Aos domingos tínhamos poucas opções de lazer, uma delas era assistir aos jogos de futebol no campo do A.P. Vasco da Gama (Vasquinho). Vários jogos aconteciam ali: Vasco x Bela Aliança; Vasco x Serrote; Vasco x Continental; Vasco x 11 Irmãos Patriotas. Alguns jogadores do Vasquinho; Batatais, Coque, Miolo, Paco, Fausto, Jaguaré. O Sr. Martinho (Alfaiate) morava na sede do Vasco, na esquina da Rua Aliança Liberal com a Caromandel. Ali eram guardadas as taças, troféus, bolas e camisas do clube.

Quem não se lembra da Farmácia do Sr. Domingos, também na Rua do Corredor, que era o pavor da garotada, pois quem ali entrava na certa tomava uma injeção. Outra pessoa muito conhecida era Dna. Maria Mineira, benzedeira, que dizia ter sido escrava. Em sua casa, benzia contra várias doenças. Dna. Arminda aplicava injeção à Domicílio.

Mais um conhecido, Sr. Joaquim das Botas, tinha esse nome porque as solas das botas iam se gastando e ele não queria gastar dinheiro ia pregando um couro em cima do outro. No tempo das podas das árvores da City Lapa, os galhos eram transportados por carroções puxados a cavalos, e os garotos aproveitavam para chocarem (pedir carona).

Naquele tempo não havia banca de jornal no bairro, quando acontecia um roubo ou assassinato, o jornaleiro Giovanni vinha gritando pela rua o acontecido. Como o trágico assassinato da menina Wilma. Quando não tínhamos médicos, e alguém ficava doente tinha que ser chamado um médico da Lapa, como o Dr. Mario Rego Valença, Dr. Orwille, Dr. Vaz do Amaral, Dr. Efraim ou o Dr. Pomponet. O mesmo problema acontecia com os dentistas, pois quando a dor nos incomodava, tínhamos que ir até a Lapa.

Também não havia agência dos Correios, carteiros, nem agências Bancárias. Ponto de Táxi só na Lapa. Havia duas linhas de Ônibus, uma ligava Vila Leopoldina a Lapa, e a outra ligava a Vila Hamburguesa a Lapa, com a construção da ponte dos Remédios foi inaugurada a linha Vila Remédios a Lapa, pois antes só era possível atravessar o rio Tietê de balsa ou bote. Outro meio de Transporte da época era o bonde, que ligava a Vila Anastácio à Lapa, tendo como ponto final na Rua João Tibiriçá, onde era o restaurante Recanto Anhanguera.

Quando começou o calçamento da Rua do Corredor com paralelepípedos (Macacos), os ônibus começaram a circular pela Rua Aliança Liberal, que era de terra. Quando chovia, os ônibus encalhavam, onde é hoje o Supermercado Mambo. Na Rua Carneiro da Silva, esquina com a Rua Carlos Weber, onde era a Fábrica de Violões Gianinni, tinha uma grande cocheira de vacas. Ali era tirado leite, que era vendido nas imediações. Uma das famílias que comercializava esse leite, era a do João Bom e sua esposa Dna. Mafalda.

A Vila Leopoldina era chamada de Barro Preto, pois quando chovia era impossível atravessar de carro ou a pé. Na Rua Passo da Pátria perto da torre da Ligth tinha um túnel, e quando chovia as águas pluviais se acumulavam e se transformava em um tanque, a garotada tirava a roupa e pulava na água. Lugar de triste recordação, pois me lembro do acidente com o garoto Basílio, da Família Cardoso, que em 1944 aos 12 anos, morreu eletrocutado na Torre de alta-tensão da Light.

Tinha também onde hoje é o posto Médico, um tanque cheio de água que chamavam de banheira das vacas. Onde hoje é o Clube Pelé, havia vários campos de futebol e em volta tinha uma pista de ciclismo, que era usada também para corrida de motocicletas. As motocicletas mais conhecidas eram da marca Norton, Jawa, BMW, Panther, Triunf, etc. Em 1955 começaram a ser importadas as primeiras Motos Lambretas. Na Vila Anastácio foi aberta uma fábrica com o nome de Lambreta do Brasil.

Depois vieram as Motos Vespas da Piaggio Italiana, que todos os garotos queriam possuir para fazer charme para as meninas. Nesse mesmo período começaram a chegar os primeiros rádios portáteis movidos à pilha. Quando tinha algum aniversário ou casamento, toda vizinhança era convidada. Não podia faltar o sanfoneiro, esse era o tal. A sanfona tinha vários nomes, como Harmônica ou Acordeon.

Em frente à Igreja entre as Ruas Marquês de Paraná e Barão da Passagem havia a Rádio Piratininga, que tomava todo quarteirão e era bem arborizada. O administrador da rádio era o Sr. Oscar. O Sr. Aldemiro Tondin, meu pai, também chamado de Valdemar Encanador pelos seus clientes e “vô Miro” pelos seus netos, saia de bicicleta da Rua Aliança Liberal, onde morava, até a Rua Albion, na Lapa para trabalhar na fábrica de Calhas do Sr. João Finoti.

Ele trabalhou nesta fábrica por quase trinta anos. Quando a empresa fechou começou a trabalhar por conta própria até se aposentar, sua esposa minha mãe, chamava-se Conceição Sevilha Tondin, chamada de Dna. Concha pelos amigos, e de “vó Mira”, pelos netos. Era uma mulher decidida. Meu pai nunca precisou faltar ao trabalho, pois ela resolvia quase tudo sozinha, levava os filhos na escola, no posto médico, ia pagar a conta de Luz, fazia a lista das compras do Armazém. Quando as crianças tinham uma dor de barriga, já vinha ela com o chá de bico (Clister) para a lavagem intestinal.

Em Outubro de 1954 com 15 anos, entrei no meu primeiro emprego com registro na carteira. Fui trabalhar como arquivista na empresa Sofunge, localizada na Vila Anastásio, trabalhando nesta por quase 10 anos. Em Janeiro de 1958 estava na hora de servir a Pátria, fui convocado para servir no Exército no 4o R. I. (Regimento de Infantaria) na C.C.S.v. (Cia. Comando de Serviços) em Quitaúna.

Eram cinco horas da manhã, e vários recrutas já estavam na estação de trem Domingos de Morais, nas imediações da Vila Anastácio para pegar o Trem Militar que demorava uns quarenta minutos para chegar em Quitaúna. Eu tive muita sorte, e fui trabalhar na SecMob(Serviço de Mobilização). No Serviço de Identificação dos Recrutas, trabalhávamos em quatro soldados. Fazíamos o preenchimento das Carteiras de Identidade, correspondência militar, ofícios reservados e etc., tudo em máquinas de escrever. Tínhamos cursos de topográfia, estatísticas e armamentos.

No Regimento, havia dez companhias, e cada soldado era encaminhado para o pelotão de acordo com sua profissão. Ex. Motorista para o pelotão Transportes, pedreiro para o pelotão de Obras. Quem não tinha profissão, geralmente ia para o pelotão de Fuzileiros. O expediente encerrava as 16h00. Quem não estava de plantão estava dispensado. Nas quartas-feiras, o expediente era até o meio-dia. Só ficava no Quartel quem estava de Serviço. Agosto de 1958 foi o juramento a Bandeira. O campo estava cheio de recrutas, nas arquibancadas os parentes.Minha Mãe Conceição e meu irmão Walter, assistiam as solenidades.

O comandante do 4o R.I., Cel. Euryale de Jesus Zerbine, irmão do Dr. Euriclides de Jesus Zerbine cardiologista pioneiro dos transplantes de Coração do INCOR, começa a discursar sobre a importância do juramento a Bandeira. Terminada a solenidade o recruta passa a ser Soldado. Em Dezembro de 1958 dei baixa e recebi o certificado militar de 1ª. Categoria.

As famílias mais antigas do Bairro era a Pieri, Oliveira, Cardoso, Sevilha, Pacini, Tondin, Braghini, Cabrera, Falova, Merlugo e Giaquinto.

Foi contada aqui neste pequeno resumo, à história das duas melhores décadas de quem viveu em São Paulo neste período. Naquela época havia muito respeito entre as pessoas.


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Publicado em 14/11/2009 Sr Antonio, até o dia de hoje eu não havia lido um relato tão preciso e completo das décadas de 40 e 50 aqui de S.Paulo. O senhor fala do seu bairro mas podemos afirmar, sem margem de erro, que é a história de todos os bairros desta cidade.Impressionante este seu relato. Tudo como foi, nada a ser acrescentado. Mereceria ser publicado por este site pois dificilmente será superado. Seu maravilhoso relato é esplêndido. Enviado por Trini Pantiga - [email protected]
Publicado em 14/11/2009 Que fôlego, Antônio, um "resumo", ou melhor cem páginas de recordações gratificantes, premiando os que lá viveram, nessa época; um refrescante despertar de adormecidas e candentes lembranças. Parabéns, Tondin.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 13/11/2009 Aí está, escrita e assinada, toda a história de Vila Leopoldina. Ótima memória, Tondin. Enviado por Carlos Sampaio - [email protected]
Publicado em 13/11/2009 Sr.Tondin, Uma bonita e substancial história de vinte anos vividos na Leopoldina. Muita riqueza de fatos e de pessoas. Algumas histórias trágicas. Seu relato tem um pouco de tudo com bom equilíbrio. A Vespa da Piaggio me lembrou de um tio que sofreu com ela um grave acidente; era muito curioso andar na lambretinha sempre torta, pois o motor ficava de um lado, onde exercia maior peso. Abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]