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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Memórias de minha infância Autor(a): Dulcinéa Ramon - Conheça esse autor
História publicada em 29/10/2009
Mamãe era costureira e morávamos na Vila Galvão, Município de Guarulhos, ela costumava comprar os aviamentos na 25 de Março, não existia o metrô, mas ainda tinha o trem das 11:00, aliás andei nele. Quando ela podia me levava para a compra de aviamentos, na loja de um sírio libanês que o gerente era um vizinho nosso. Como eram cativantes no estilo de negociação, na simpatia e bom atendimento, quando não tinha uma mercadoria indicava a loja de outro "patrício" (sotaque para patrício).

Como o ônibus que tomávamos fazia ponto na Praça do Correio, a caminho do ponto, ela me levava para comer um pastel e tomar um guaraná antártica (caçulinha) era o maior presente que eu podia receber, e o que mais me encantava era o pasteleiro, chinês, que penteava o cabelo num rabo de cavalo fino e cumprido, saindo da nuca, bem no estilo oriental.

Mudamos para a Vila Nilo, encostada ao bairro do Jaçanã, em 1964, ano em que desativaram o trem. Minha escola primária pertencia ao bairro do Jaçanã, o fundo da escola dava para um jardim imenso do asilo onde as freiras cultivavam bocas de leão para vender. Do outro lado da linha do trem tinha uma plantação enorme de eucalipto com um santuário ao fundo.

Existia também na região a fábrica da Kiker (produzia as mais finas e lindas botinhas e sapatinhos infantis que as mães após muito economizar compravam, as vezes um número ou dois maior que os pezinhos, pois eram para serem usados apenas em datas especiais) e a fábrica da Arco-Flex (produzia utilidades domésticas e brinquedos em plástico).

Certa noite chega um primo em casa e comenta que estava tendo uma festa na Praça do Jaçanã para uma tal de Dona Ira Barbosa, o que virou uma piada familiar, pois o homenageado era o Adoniran Barbosa pela música Trem das 11.

Devido ao fervor político da época (papai era agente do DOPS)a mamãe já não aguentava mais passar tanto nervoso, nos mudamos no início de 1965 para Ribeirão Preto. Lembro também que estavam construindo a 23 de Maio, como nós morávamos na Vila Galvão e minha tia em São Judas Tadeu, levávamos o dia inteiro para atravessar a cidade.

Um dia quando voltávamos da casa da titia, lembro de ter visto policiais com metralhadoras na ponte próxima do Clube Tietê com um homem com os braços levantados e as mãos amarradas no portão de ferro trabalhado, da Penitenciária do Estado, no Carandiru.

Nesta época como ainda predominava a cultura no estilo europeu, os homens e as mulheres vestiam se muito bem. A parte "chic" da cidade ficava ao redor do Teatro Municipal, com cinemas fabulosos, com suas escadarias e pisos em mármore. O Mappin era uma das lojas mais elegantes e tinha até mesmo um salão de chá.

Além do ônibus existia também o carro lotação (a van de hoje). Época da romiseta, do sinca chambor, das lambretas, do gordini e do dophine. Os homens ainda eram cavalheiros. Quando passava um enterro, em sinal de respeito os homens tiravam o chapéu e as casas comerciais fecham as portas. O ensino público tinha poucas vagas, mas era de excelente qualidade, e as crianças aprendiam a cantar todos os hinos das datas cívicas; o patriotismo era cultivado. Época de dar ouro para o bem do Brasil.

Os melhores programas eram da TV Tupi e quem podia comprar televisão convidava os vizinhos para assistir (o famoso televizinho). Depois veio a época de ouro da TV Record, com seu maravilhoso teatro na Brigadeiro Luis Antonio. O sofá da Hebe já existia e o programa era aos domingos no horário nobre.

O costureiro mais famoso em alta costura era o Denner, e a Hebe lamentava porque a TV não era a cores, para que as mulheres pudessem apreciar melhor as obras de arte em tecido. O Clodovil era jovem, mas existia uma pequena rivalidade entre ele e o Denner. Logo a baixo da alta costura vinha o pret-a-porte, mas o que predominava mesmo no bairro eram as costureiras, os tecidos de puro algodão da Bangu, com estampas maravilhosas para o verão e os tecidos em lã, muitas vezes importados, para o inverso, os sapatos das mulheres eram saltos Luiz XV (sete e meio) as meias eram de seda com o arremate atrás, que não podia ficar torto, pois era sinal de deselegância.

Na baixada do Glicério tinha o Parque Xangai, a coisa mais linda que já vi colorida e iluminada. O parque da Luz não era cercado, era lugar de passeio para as famílias e muito bem cuidado. Hoje onde é a Pinacoteca do Estado era o Liceu de Arte e Ofício (excelente escola). Na Avenida Tiradentes tinha um monumento que hoje está na USP, o quartel que hoje é da PM era da Guarda Civil, com seus uniformes maravilhosos.

A Rua São Caetano já era a rua das noivas. Entre a Rua São Caetano e o Quartel, predominavam alfaiatarias especializadas em uniformes para a Força Pública, com suas vitrines expondo uma infinidade de botões dourados, também tinham várias padarias especializadas em bolos decorados com flores de açúcar, que eram verdadeiras obras de arte. Era também um tempo que o policial era tremendamente respeitado e chamado de Seu Guarda.

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Publicado em 07/12/2010 Alguém poderia me informar o nome de uma padaria que existia na esquina da rua de São Caetano com a avenida Tiradentes, esquina oposta ao Seminário Episcopal. Ouvi dizer que existiu nos anos 70. Grata. Enviado por Sra. Eli Mendes de Moraes - [email protected]
Publicado em 06/11/2009 Parabéns Dulcinéia,Seu texto ou melhor, seu passeio por São Paulo foi admirável...Me vi criança encantada com tudo que via.
Um grande abraço.
Deus te ilumine a cada dia.
Enviado por mary clair - [email protected]
Publicado em 01/11/2009 Dulcineia, seu texto , muito bem escrito, nos transportou ao passado. Abraços, Enviado por lygia - [email protected]
Publicado em 30/10/2009 Puxa, Dulcineia! Que passeio e tanto pelo Jaçanã, pela Z.Norte, pela São Paulo doa anos 60 e 70.Valeu, sou fanático pelo Jaçanã. Fale mais sobra o Jaçanã, Vila Galvão, seus locais e personagens...abraços Marco Antonio (Marcolino) Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - [email protected]
Publicado em 30/10/2009 Dulcinéia. Debutastes com honra neste site. Suas lembranças da São Paulo romântica, do trenzinho da Cantareira (viajei muitas vezes nele até o Tucuruvi) e os seus passeios por ruas e lugares tão saudosos. Parabéns. Saudades com qualidade. Nelson. Enviado por nelson de assis - [email protected]
Publicado em 30/10/2009 Sra.Ramón, um grande passeio por S.P. que nos traz inúmeras recordações. Parabéns pela história e escreva mais. Abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]
Publicado em 30/10/2009 POR SUA MEMÓRIA EXTRAORDINÁRIA, ALIADA A UMA PERCEPÇÃO INVEJÁVEL, SABOREAMOS UM PASSEIO PELA CIDADE DE QUATRO DÉCADAS ATRÁS, NUMA DESCRIÇÃO CRISTALINA, NUM ROTEIRO IMPECÁVEL. SUA ESTREIA NO SPMC FOI MUITO FELIZ. PARABÉNS, DULCINÉA.
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 30/10/2009 Sra. Ducinéia, seu belo passeio pela cidade me trouxe boas recordações de infância, entre elas o carinho e gentileza do pessoal da loja “Ao Líder do Armarinho”, que ficava ao lado da rua 25 de março, da qual minha mãe foi cliente por muitos anos. Abraços, Abílio. Enviado por Abilio Macêdo - [email protected]
Publicado em 29/10/2009 Dulcinéia. Ao lado do quartel da policia já tinha a igreja de Santo expedito Enviado por Mário Lopomo - [email protected]
Publicado em 29/10/2009 Dulcineia, que poder de observação, que memória! Você pintou um panorama absolutamente perfeito de seu (nosso) tempo e da cidade em função de sua vida. Ah, o trenzinho da Cantareira que muitos só conhecem através da música de Adoniran Barbosa (e Oswaldo Molles?), a 25 de março dos árabes, sírios e libaneses! Continue com seus passeios pelo tempo que vc será acompanhada por Quijotes e Panzas, seus leitores.
Ignacio
Enviado por joaquim ignacio de souza netto - [email protected]
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