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Categoria - Paisagens e lugares Ser criança na São Paulo dos anos 60 Autor(a): Alceu Natali - Conheça esse autor
História publicada em 12/08/2009
Que bom estar protegido dentro do campo, enquanto as nuvens fecham o céu com um tampo e minha alegria está só começando. Ontem minha mãe encerou o assoalho e meus botões estão deslizando. Eles ocupam todos os espaços como o carrossel Holandês, como o mundaréu de barcos que entopem o cais do porto Marselhês. Com ouvidos de esguelho, eles jogam ao som dessa música alta que sai do rádio perto da penteadeira e do espelho. Ela não incomoda o adulto de casa e nem o da vizinhança que sempre se põe a correr como criança, ora sob a sombra para enxugar a testa, bebericar limonada e do calor se esconder, ora sob jornal dobrado para cobrir a cabeça e para da chuva não sair molhado.

Que bom ser jovem demais, não saber interpretar sinais, não ter coração rasgado que precisa ser remendado, e nem sofrimento que precise de tempo para ser curado. Hoje meu pai me comprou um monte de bolinhas e meus olhos estão cintilando. Eles fosforeiam toda a escuridão, como o relâmpago de neon que ouve o grito de acusado e com um trovão responde, como os pirilampos no mato que se juntam à garotada no esconde-esconde. Com asas de dragão eles alcançam as pipas nos céus de São Paulo que saem das linhas dos carretéis que os meninos soltam durante todas as férias de verão. Elas dividem as cores com o arco-íris da palheta e da bonança que sempre se abre como um leque de esperança, ora de não crescer e de não amadurecer, ora de prosperar e estrelar, mas não querendo ver o tempo andar.

Que bom ter um açougueiro que me paga em dinheiro o que sobra da leitura que meu pai recebe do jornaleiro. Amanhã vou pegar um ônibus até a Praça do Correio e meu coração está retumbando. Ele pode ser ouvido de longe, desde o Vale do Anhangabaú até o Largo Paissandu. Com mãos ligeiras, ele folheia todas as capas de vinil que as galerias da São João ostentam em suas disputadas prateleiras. Elas dão ao precioso acetato sonoro um encantador abrigo e aumentam a coleção que monto com meu melhor amigo que nunca tem pressa e não usa relógios, nem para marcar o tempo de bola, da aula na escola ou do disco na vitrola, nem para não perder o que passa na televisão, quem será o último a sair da cela do pião e a que horas soltarão o balão.

Que bom ser menor de idade, não dormir preocupado com o dia que está por vir, fazer de cada encontro uma nova amizade, não ter necessidade de fingir ou de mentir. Ontem meu irmão rapelou todas as figurinhas no jogo do abafa e minha boca está aguando. Elas preenchem todos os retângulos vazios no meu álbum do Rin-Tin-Tin e comemoram com rá-tim-bum e cristais fazendo plim-plim. Com faro de labrador, elas sentem de longe a aproximação de um invasor. Ele não vem desafiar os locais e nem desertar o lugar de onde veio; só está fazendo incursões diplomáticas em território alheio, ora como um pacificador entre grupos que estão tão próximos um do outro e se rivalizam por tão pouco, ora como um conciliador de diferença individual para o benefício geral.

Que bom ser pequeno e já ter uma renda que cresce com o que economizo dos trocados para a merenda e com o que meus padrinhos me dão como oferenda. Hoje vou assistir à matinê no Cine Vera e minha alma está suspirando. Ela transpira nas mãos de minha namorada e fica vermelha de vergonha a cada entreolhada. Com um corpo astral, ela se transporta para a tela e encena seu turno na sentinela da cabana de escoteiro no matagal. Ela revela tudo o que a maioridade não mostra, amigos do peito e nenhum inimigo pelas costas, juramentos por tudo o que é sagrado e nenhuma decepção por algo que não foi honrado, dedos mindinhos cruzados para ficar de bem e nenhum ressentimento negado nas palavras, mas que o coração ainda retém.

Que bom que as nuvens no céu estão se dissipando, os raios que saem do sol estão se infiltrando e a minha alegria está aumentando. Amanhã vou ao Acre Clube no Jardim França e meu fôlego está tinindo. Ele esconde o ar da água doce e clorada, estufa os pulmões e libera energia vitalizada. Com braços finos, mergulha bem fundo para apanhar uma moeda solitária e ganhar o mundo. Ela substitui os membros superiores pelas pernas grossas que se empenham para manter uma taça que já é nossa, ora nos esportes dando um salto sobre o varal e fazendo gols na peladinha de quintal, ora nas divagações sobre a ingenuidade desse mundo mágico criado por deus e sobre a felicidade perdida por aqueles que não tiveram sonhos como os meus.

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Publicado em 11/01/2012 Caro Alceu, como velho jornalista e paulistano que sou, fiquei encantado com tua crônica!
Aproveito para perguntar se sabes alguma coisa sobre uma velha canção de serenata, de cujo nome não me lembro, que ouvi ainda nos tempos da escola primária, em 1958, e ouvi nomambneet em 1967, e depopis, nunca mais. Tem uma fras que diz "Dona querida ds cabelos pretos, quantos sonetos me inspirate tu", e depois, fala "dos pirilampos do Anhangabaú". Se possível, manda-me resposta por meu e-mail. Grato.
Enviado por Clovis Pacheco Filho - [email protected]
Publicado em 06/09/2009 LINDO, POÉTICO, MARAVILHOSO, GRACIOSO, ESPETACULAR, ESCRITO COM CABEÇA DE ADULTO MAS COM CORAÇÃO DE CRIANÇA. NELLY Enviado por Nelly - [email protected]
Publicado em 06/09/2009 Alceu, não sei o que aconteceu com o site que parou. Eu e o Tadeu adoramos sua história sobre a infância. Um abraço. Camila Baldotto Enviado por Camila e Tadeu - [email protected]
Publicado em 04/09/2009 Lindos Tempos! Que não voltam mais! Eu com doze anos
"batia pernas"... desde do Jabaquara...(pegava o "12") até o centro da cidade (Pça. João Mendes)... não havia perigo algum.. lindas lembranças Natali.
Enviado por Benedito - [email protected]
Publicado em 03/09/2009 Lindos versos Natali, como sempre nos reportamos ao passado.Linda época.Fui criança em 60 no Brás.Inesquecível.Um abraço...Yvete Enviado por yvete - [email protected]
Publicado em 28/08/2009 Nossa!! lendo essa história passou um filme pela minha cabeça também fui cça nos anos 60 no interior de Minas gerais,apesar de estar em outro espaço os sentimentos são os mesmos, comigo foi acho q cça é feliz em qqer tempo e espaço embora hj muitas mudanças ocorram acompanhando o desenvolvimento tecnologico, mudanças de sociedade, mas a felicidade de poder sonhar brincar sem se preocupar com nada é o que faz a diferencia... Enviado por maria José - [email protected]
Publicado em 21/08/2009 0la Natali, que maravilha de texto cara...A velhice será eterna, a juventude foi curta, mas a infancia é imorredoura, as lembranças dela nos acompanharão para sempre...Enquanto houver um único neuronio em nosso cerebro , nele certamente estará gravado o nome do grande amor e as brincadeiras de criança.........
parabens... e muito obrigado pelas lembranças...
um abraço
Luiz Garcia
Enviado por Luiz Gonzaga Simoes Garcia - [email protected]
Publicado em 20/08/2009 Poesia Pura. Eh tao bom ler um texto assim: magico. O conteudo nos faz viajar e reviver aqueles momentos da nossa infancia.Suas escritas chegam ao coracao. Enviado por Etel - [email protected]
Publicado em 17/08/2009 Prezado Alceu


A palavra "congólio", não se acha em nenhum dicionário,talvez em algum bem antigo. Era um quadrado do mesmo material da "passadeira" (linóleo, ou lona) aquela espécie de tapete que protegia a escada e o caminho que se quisesse demarcar. Cobria quase que todo o assoalho do comodo,(protegia) a vantagem é que os botões não deslocavam muito. e o jogador mantinha um melhor controle no deslize do botão,evitava falta desnecessária(rsrs).
Gratos
Rubens
Enviado por Rubens Ramon Romero - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 Lindo e mágico o seu texto! Quanto a Deus, ou existe ou não existe. Se eu acreditar que existe e não existir, o que perco? Nada,concorda. Mas, se ele existir e eu acreditar que não existe, a perda será imensa. Melhor acreditar, não acha?
Então eu acredito e penso que nós temos uma casa eterna, nossa, nos céus, a nossa casa,a casa do nosso Pai.Acredito que retornaremos ao final desta jornada e quero chegar agradecida por tudo o que a viagem me proporcionou. Somos viajantes desta espaçonave Terra.
Enviado por trini pantiga - [email protected]