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Categoria - Paisagens e lugares Mirante de Santana Autor(a): Alceu Natali - Conheça esse autor
História publicada em 31/07/2009
Era uma tarde de inverno em 2005. Da janela via-se o céu azulado, mas lá fora estava gelado. Oras, pensei, aqui não cai neve, as mãos sem luvas não congelam e do estacionamento a qualquer estabelecimento o vento frio que aumenta a sensação térmica não é tão torturante como o que sopra na região dos grandes lagos em janeiro. Eu e minha esposa nos agasalhamos bem e resolvemos ir ao Center Norte, na Vila Guilherme, e assistir ao excelente filme 'Reino dos Céus', que aqui no Brasil saiu como 'Cruzada'.

Depois da sessão de cinema, pensei em começar a noite lá no Sargento Garcia, o requintado bar-restaurante do meu amigo João que fica lá na fronteira da Água Fria com o Jardim França. Liguei o som do carro e selecionei a gloriosa versão do Chandeen da canção 'In Power We Entrust The Love Adocated', do Dead Can Dance. Foi estranho como essa canção me levou, imediatamente, de volta ao filme que eu acabara de assistir e, mais estranho ainda, foi o que me veio à mente:

- Eu sempre vejo a cultura como uma mulher indefesa à mercê dos machistas. Às vezes sou cristão, às vezes não. Às vezes simplesmente ignoro um ataque dos misóginos, ou, então, me limito a retribuir suas agressões ao sexo frágil com uma homenagem à transcendência humana. Porém, às vezes, eu também atiro minhas pérolas aos porcos e aos cães.

- Por que você está me dizendo essas coisas?, perguntou-me minha esposa.

- Não sei, acho que é por causa do filme e desta música. A tradução que as pessoas dão ao seu nome é 'Com Força Acreditamos No Amor Protegido'. Pode parecer pretensão minha, mas quando eu a ouço eu gosto de chamá-la de 'Pelo poder que minha alma me confere, eu declaro o amor inocente'. Que tal a gente ir até o mirante antes do jantar?

Lá de cima se tem uma vista de quase 180 graus da magnífica São Paulo. E como ela é linda no entardecer com os últimos raios de sol se despedindo do luar! Sua silhueta de edifícios iluminados é portentosa. Tanta beleza me fez pensar, com indignação, sobre aquelas atrocidades que eu vira no filme serem praticadas na terra santa em nome de deus em tempos longínquos. Eu perguntei a minha esposa: 'O que está faltando no Reino dos Céus?' Minha esposa limitou-se a esperar pela minha resposta. Então, imaginei que estávamos no topo de um farol e que todos aqueles pontos luminosos e distantes fossem navios na linha do horizonte que marcam a curvatura da terra. Procurei esquecer-se de mim e dos homens, e tentei extrair daquela brutalidade mostrada no filme alguma beleza inata àquela deslumbrante visão de São Paulo e ao ser humano quando este cavalga completamente nu e sem nenhum estandarte ideológico. Então, disse à minha esposa:

A beleza se avista onde o oceano se confunde com o firmamento,
De longe, vozes humanas a saúdam com brados efusivos,
O som lhe chega aos delicados ouvidos,
E ela o acolhe com ternura,
Suaviza sua avidez e seu tom,
E o sopra de volta com a brisa que o trouxe com brandura,
As vozes humanas retumbam em coro e com mais ardor,
A beleza cerra seus olhos,
Relaxa a sua fronte,
Descontrai seu sorriso,
E se deixa embalar pelo som mundano e eufórico,
As vozes assomassem-se,
E a elas se juntam mais graves e agudos,
Mais êxtase e clamor,
A beleza se mantém impassível e atenta,
Ouve e se acalenta,
As vozes humanas se exaltam,
Vão além dos limites da linha do horizonte,
A beleza as traz de volta ao mirante,
E graciosamente se move em suas direções como uma nuvem entregue às monções,
As vozes sentem suas gentis pulsações,
Percebem que ela emana meiguice à distância,
É mais bela do que aparentava lá no fundo do céu,
É o seu olhar que carrega sorrisos contagiantes,
São seus lábios que sussurram como meninas dos olhos irradiantes,
São as maçãs de seu rosto que exalam fragrância etérea,
São seus cabelos que dão contornos à sua feição singela,
É o seu semblante plácido que dá expressão à sua beleza,
As vozes humanas emudecem,
E se arrebatam com tão doce criatura,
A beleza contagiada pelo calor humano,
Baila ao redor das vozes,
As envolve com afagos que chegam à alma,
Seu olhar resplandece,
E infunde mais luz tênue ao sol poente,
Seus gestos delicados encantam as águas do mar.
E se elevam até a lua crescente,
Sua boca toca as vozes humanas,
E as enche de carinho jamais recebido antes,
Seus cabelos se desfraldam ao relento do entardecer,
Sua leveza se esgueira suavemente até o novo amanhecer,
E as vozes humanas embargadas,
Soluçam e balbuciam,
A beleza lhes toca os lábios com dedos singelos,
E deixa seu silêncio comovente penetrar em suas entranhas,
Até que elas descubram seu reino interior,
Até que ela exteriorize toda sua celestial subserviência ao amor.

É assim que eu vejo São Paulo lá do Mirante de Santana e a beleza da mulher paulistana. É isso que eu acho que falta no Reino dos Céus.

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Publicado em 15/08/2009 MARA, obrigado pelos seus comentários; o que escrevo está muito longe de ser uma obra; prima, nem pensar; um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 ANDERSON, a versão correta é esta do site; obrigado pelos seus comentários e um grande abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 JAIME, muito obrigado; um abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 FERNANDA, muito obrigado e um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 NELLY, você acertou, sou cabeça de homem, coração de mulher; um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 PETER KLAUS, obrigado pelas suas observações; seu português é muito melhor do o português de muita gente que escreve neste site; um abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 MODESTO LARUCCIA, muito obrigado pelos seus comentários; nossa cidade merece muito mais do que minha pobre poesia; um grande abraço, Alceu (também não é jornalista) Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 DENISE ALCANTARA, obrigado e um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 GERALDINE SCHOEL, na próxima vez que você enviar mensagens com nome e e-mail falsos, você deveria, pelo menos, aprender a escrever o nome do servidor corretamente; procure não dar bandeira como o Alan Conway Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 15/08/2009 RAUL, obrigado e um abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]