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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Non Ducor, Duco Autor(a): Alceu Natali - Conheça esse autor
História publicada em 20/07/2009
Em 1959, Vinicius de Moraes disse ao seu amigo Johnny Alf que São Paulo era o túmulo do samba e recomendou que ele voltasse para o Rio. Ele tinha razão e nós, jovens paulistanos, muita sorte. A São Paulo dos gloriosos anos 60 que Vinicius não viu e nem viveu jamais teve cara de samba, nem de carnaval, nem de bossa nova, nem de tropicália e nem mesmo de jovem guarda. A Sampa que me deu a adolescência sempre teve som de primeiro mundo. Sempre esteve mais para um uma Tintarella di Luna à la Beatles dos Mutantes do que o imortalizado trem das onze de Adoniran Barbosa, um talentoso gozador do samba, o Arnesto que o diga. Se o paulistano tivesse alguma inveja, seria somente da única música brasileira que arrebata, o baião de Gonzaga e Dominguinhos, mas a música destes dois grandes artistas, ao invés de causar ciúmes, tem a simpatia dos paulistanos, pois, na verdade, ela sempre fez parte da cidade. Ela veio juntamente com os milhões de nordestinos que derramaram sangue, suor e lágrimas para ajudar os imigrantes a construir esta megalópole, essa Nova Iorque da América Latina, o único lugar onde John Lennon moraria se ele se exilasse no terceiro mundo.

Sampa não recebeu nada de graça da natureza. A cidade é bonita por todas as obras construídas pelos homens que aqui fizeram morada. O Parque Ibirapuera só perde do Central Park de Nova Iorque e do Hyde Park de Londres em tamanho. Fora isso, ele dá um show de qualidade nos dois. Além de muito verde, muita área de lazer e lindos lagos artificiais, tem planetário, ginásio poliesportivo, museus, pavilhões de exposições, auditórios, monumentos e restaurantes. Sampa nunca implorou pela benção de Deus e nunca dependeu de favores federais. Sua beleza é fruto do esforço humano de sua gente e de seus próprios recursos, e está espalhada em dezenas de lugares. A lista de suas maravilhas e encantos é tão grande quanto a própria cidade e seria demasiado enumerá-los todos nesta curta narrativa.

Os fluminenses nos aporrinham de tanto dizer que o Rio é o coração do Brasil. Mesmo que isso fosse verdade, um coração pode ser transplantado sem causar dano algum, mas um cérebro jamais pode ser substituído por outro. Sampa é o cérebro do Brasil, o centro econômico, financeiro, cultural e intelectual do país. Tire Sampa do mapa e o Brasil desce do quinto para o último dos infernos.

Encontra-se em Sampa tudo o que há de melhor em quantidade e qualidade: cinemas, teatros, parques de lazer e ecológicos, estádios, hospitais, escolas, universidades, institutos e centros de pesquisas científicas, museus, casas de espetáculos, festas populares, pinacotecas, centros de convenções, shows, restaurantes, cozinhas, orquidários, redes de transportes, frotas de carros, jatos e helicópteros, planetários, bibliotecas, discotecas, filmotecas, centros culturais, zoológicos, parques de diversão, livrarias, igrejas, ginásios poliesportivos, autódromos, clubes, feiras de artesanato e de antiguidades, galerias, shopping centers, lojas, vias e logradouros públicos..., enfim, haja espaço para descrever tantas diversidades com qualidade elevada a enésima potência!

Mas, apesar de tudo isso, dizem os forasteiros caiçaras que Sampa perde muito por não ter praia. Bem, Sampa poderia ter sido uma cidade litorânea como São Vicente, a primeira do Brasil, mas os obstinados jesuítas, em busca de índios para catequização, e depois os ambiciosos bandeirantes, atraídos pelo ouro, resolveram deixar o nível do mar e subir a serra na raça e lá em cima, no planalto, fizeram os alicerces do novo eldorado. Se São Paulo fosse uma cidade à beira do mar talvez hoje ela fosse preguiçosa e não tão grandiosa. Da mesma forma, se a corte real portuguesa não tivesse se mudado para o Rio, talvez esta cidade não passasse hoje de um simples município portuário como Santos, sem perder a malandragem que a diferencia do resto do país. Mas Sampa tem praias, e muitas. Para o paulistano, praia não é um estilo de vida, mas apenas um lugar para descansar nos fins de semana, um lugar para onde se pode ir e voltar no mesmo dia, e a praia fica logo ali na esquina. Em dias normais é muito mais rápido descer a serra até o mar do que cruzar Sampa de norte a sul. Para muitos paulistanos, a praia está mais perto do que bairros no outro extremo da cidade. Para uma cidade tão grande como São Paulo a principal avenida, definitivamente, não é a Beira-Mar.

No entanto, os inconformados com a grandiosidade de Sampa se gabam do fato de Sampa não ter uma garota de Ipanema. Bem, aqui em Sampa não tem mulher de corpo dourado e bronzeado do sol. Em Sampa tem o que o mundo chama de mulheres mais bonitas do planeta. Sampa tem um mulheril estonteante e resultante da combinação de mais de setenta nacionalidades diferentes. Branquelas européias cheias de graça que não precisam vestir biquíni para mostrar sua beleza; negras, mulatas e morenas, africanas e caucasianas, de corpos esculturais; asiáticas de charme enigmático; muçulmanas sem véu e rostos lindos (só seus maridos e Alá sabem que corpos magníficos se escondem debaixo daqueles comportados vestidos).

Na sua narrativa sob o título Déja Vu, publicada neste espaço, Caetano Veloso escreveu que foi um tal de Guilherme Araújo, um carioca, quem começou, em 1966, a dizer que São Paulo continha as potencialidades brasileiras. O amigo do Caetano estava bem certo quanto à condição de São Paulo de abrir aos artistas as portas da percepção do mundo e livrá-los do provincianismo metropolitano (sic) do Rio. No entanto, ele estava atrasado quanto à potencialidade paulistana. Se, no início dos anos 60, ele perguntasse ao meu pai onde ficava o Rio de Janeiro ele receberia a seguinte resposta: 'Lá sei eu. Acho que é o lugar onde fica o tal do pão de açúcar, a casa do presidente, não é?' E o tal Guilherme teria corrigido: 'Não, o presidente mora agora em Brasília'. E o meu pai teria dito: 'Brasília? Se vão trocar o nome do Brasil por outro por que já não colocam São Paulo de uma vez?'

Belo, já nas décadas de 40 e 50 o Brasil só tinha um lugar para meu pai e seus contemporâneos: São Paulo. O resto eram notícias que vinham da Europa. Belo, as potencialidades paulistanas são bem anteriores aos anos sessenta. No final do século 19 e início do século 20, italianos e japoneses e gente de várias nacionalidades viram em Sampa a terra prometida. Em poucas décadas, ingleses e alemães, dentre outros estrangeiros, foram contratados para fazer vários projetos de infra-estrutura. Finalmente, na década de 50, os países mais ricos da Europa e da América do Norte escolherem Sampa para construir o maior parque industrial da América Latina. Por que Sampa? Porque era nesta cidade onde se encontrava gente disposta a trabalhar. Esta era a única cidade que oferecia oportunidades, que tinha um enorme potencial e um futuro promissor. Estas previsões não eram feitas com base em belezas naturais ou marketing barato e maquiado, mas com base na índole, seriedade, dinamismo e arrojo do povo. E os gringos acertaram em cheio! Hoje Sampa é para o Brasil o que Nova Iorque é para os EUA. É em Sampa onde tudo acontece primeiro. Ela é a capital de tudo: da cultura, da arte, dos negócios, da ciência, do turismo urbano e da vanguarda.

Como em Sampa há muito mais calor do que garoa e nela sobram riquezas e grandezas, ela é a única no Brasil que pode ser chamada de paraíso tropical. E, como todos sabem, ela é um paraíso que não para: tem um evento a cada 5 minutos, quase 100.000 por ano, mas não vive só do trabalho. Se diverte também. Com esportes, música, teatro, literatura, cinema e outras formas de lazer. Foi Sampa que inventou a televisão no Brasil. Foi Sampa que inventou os festivais de música no Brasil. E para a desgraça dos habitantes da antiga capital federal, foi Sampa que inventou o futebol brasileiro, o melhor do mundo, quando um filho de ingleses trouxe do Reino Unido a primeira bola de capotão para a paulicéia desvairada. O futebol de Sampa é o que tem mais títulos em todo o Brasil. Templo do futebol é a Praça Charles Miller e o Estádio do Pacaembu. O maracanã é o túmulo do futebol, pois foi lá, em 1950, onde os cariocas protagonizaram o maior fiasco da história do esporte Brasileiro e, desde então, aquele estádio só tem servido de recreio para os bandeirantes, que o diga Pelé e Cia. Mas o futebol não foi o único esporte que nasceu em Sampa. Tudo o que somos hoje no vôlei, no basquete, no futsal, no tênis de quadra e mesa, no boxe, no judô, no automobilismo, no atletismo e em várias modalidades olímpicas se deve a Sampa, onde tudo começou.

São Paulo nunca foi conduzida por ninguém. É ela quem conduz o país. Mas ainda tem gente que tem bronca e inveja de Sampa e não fala outra coisa a não ser mal dela.

Sampa é uma terra que não tem lugar para gente mole.
Quem vem para cá para vagabundear cedo morre.
Enquanto os outros seguram a lanterna, Sampa é sempre pole.
Quem não gosta de Sampa desenvolvido não é.
É retardado da cabeça.
Ou tem a cabeça no lugar do pé.
Eu nasci em Sampa, em Sampa me criei.
E da danada da Sampa eu nunca me separei.

Quem vem de fora para morar em Sampa a odeia nas primeiras semanas, começa a acostumar-se a ela depois de vários meses e em poucos anos vai ao cemitério comprar túmulos para toda a família e para as futuras gerações. Por falar em túmulo, vai aqui um recado ao Vinicius que deve estar lá no céu tocando samba e bossa nova com harpa: A juventude da São Paulo dos anos 60 não enterrava samba, mas cremava-o para não desperdiçar espaço!

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Publicado em 08/06/2010 Alceu, é um bom texto, embora totalmente ultrapassado. O caso já foi encerrado, há muitos anos. Como há muitos anos atrás eu vi esse texto na internet, muito antes de voce enviá-lo. E sem seu nome. Enviado por Geraldo Kalili - [email protected]
Publicado em 28/08/2009 Alceu, vou mais longe ainda. Não acredito que SP seja visualmente "feia". Este mito foi inventado por invejosos e então muitos paulistanos que não conhecem o Brasil acreditaram... Nossa área nobre tem quase o tamanho de BH, some nossas áreas naturais (Cantareira, Jaraguá, Guarapiranga-Billings, Serra do Mar) e some também dezenas de distritos de classe média super agradáveis, o que dá quase 70% da cidade. Quem acha isto tudo "feio", então 90% das cidades brasileiras, incluindo o Rio, também são. Enviado por Paulo - [email protected]
Publicado em 18/08/2009 Olá Alceu,voçe lembra de mim? Sou a Deirdre, irmã do Vivaldo e do Paim, que te vendia óleo de peroba. Um beijão. Parabéns. Enviado por Deirdre de Olira Peirobi - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 DENISE ALCANTARA, obrigado pelos seus comentários e um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 TEO, obrigado por suas palavras e um abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 LUIZA, obrigado pelos seus belos versos; um beijo Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 MARA, pois é, mara, é bom gozar de um certo ar de liberdade de expressão, falar o que pensa, inclusive do próprio lado sombrio e podre que ninguém tem coragem de expor, mesmo sabendo que isso vá provocar discórdias e revoltas: ninguém gosta de falar de seu lado mal e nem ouvir o lado mal dos outros; todos gostam de falar e ouvir do lado bom enquanto nossa podridão fica reservada aos nossos pensamentos perversos e atitudes escusas atrás dos bastidores; um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 ROMILDA DE VIERA GOMES, tenho muita dó de um adulto como você que se expõe ao ridículo de usar nomes e e-mails falsos para se manifestar e ofender os outros; torço para que você não tenha filhos para que eles não sintam vergonha da falsidade sob a qual você vive Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 MANUEL PEIXOTO, são paulo foi construída por migrantes e imigrantes e os portugueses foram os primeiros; um abraço, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 16/08/2009 PAULA, obrigado pelos seus comentários e um beijo, Alceu Enviado por Alceu Natali - [email protected]