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Categoria - Personagens Minha passagem por Jaçanã Autor(a): Alceu Natali - Conheça esse autor
História publicada em 29/05/2009
Jaçanã me tirou o pouco de paz e segurança que meu pequeno mundo, certinho e previsível, me proporcionava todos os dias fáceis de serem vividos, sem cobranças, sem mudanças, sem surpresas. Me deu alívio a algumas pequenas dores e espalhou pela minha alma outras tantas, tão inimagináveis, tão passageiras e tão curáveis pelo tempo que eu acabei não atinando para todos os momentos felizes que eu vivi e que fizeram todos os lugares por onde passei parecerem mágicos.

Não foi preciso esperar pela maioridade para estragar toda aquela magia. Enquanto jovem, eu fiz a felicidade desaparecer na frente de muita gente e a fiz reaparecer nos recônditos da minha solidão.

O meu purgatório ficava numa saleta apertada num andar de prédio no centro velho, onde um senhor masoquista e inculpável tirava as medidas do aterrorizante uniforme cinza, largo como a breguice da música brasileira, e marcado com uma faixa lateral vermelha da boca à cintura, para me alertar que à frente daquele muquifo expiatório só se avistava o inferno. Mas um dia não fora aquele lugar a porta de entrada do paraíso, ladeada por duas pilastras babilônicas que exibiam, majestosamente, todas as novidades britânicas, e por ela adentro se podia desfilar pelas galerias à procura das disputadas calças Lee apertadas, das Topekas, das Cibatas e dos cinturões?

Caminhar com aquela indumentária Maoísta pelo asfalto quente do meio dia era menos perigoso do que humilhante. Minha vergonha era atenuada pela companhia hilária do meu primo Garfão. Para ele, tudo era lucro. Chegar ao ponto e subir no ônibus não era menos torturante. Chegar ao Gepef em Jaçanã era descobrir o que, afinal, vem depois da morte.

Os recém chegados eram recepcionados com raspadinha de groselha. Eu gostava mais da de abacaxi. No ginásio não havia trote, mas eu recebi o meu primeiro no Gepef quando o diretor, conhecido como dez para as duas, me barrou na entrada e me fez voltar no dia seguinte com um corte americano curto, como o meu pai gostava.

Eu logo descobri minha vocação. O futebol que eu jogava no meu mundinho não era fruto de minhas fantasias e logo caiu no gosto e respeito dos Gepefianos. Vencer os campeonatos internos era fácil, mas vencer a timidez era impossível.

A Célia queria namorar comigo, ou alguém queria que eu namorasse com ela. Ela tinha um belo rosto redondo, enquanto o meu era fino e roubado pela minha bela e protuberante napa. Ela não sabia que eu não sabia namorar. Eu a acompanhava até uma travessa na Vila Paulicéia e lá a deixava por sua própria conta. Eu perdi a Célia e muito tempo. O professor Almerindo convocou meu pai e disse a ele que se eu continuasse daquele jeito eu iria repetir. E eu repeti mesmo. Eu ia mal quase em tudo, menos em inglês que eu nunca precisei estudar para passar.

Os espíritas dizem que isso é coisa de vidas passadas, mas os espíritas até hoje não sabem o que é criptomnésia. Chico Xavier foi o maior criptomaníaco que eu conheci.

Todo mundo tem manias. O Totó, o Bimbo, o Pica-Pau, o Kuriak, o Joaquim, o Artur, o Cremonese, o Saad, o Pepino, o Aparício, o Ucraniano... E eu tenho mania de ter saudades de toda essa gente boa. Mania de tocar guitarra. Mas nas aulas obrigatórias de canto orfeônico e música eu tinha que tocar bumbo, corneta ou marchar. Eu não marchava, eu corria, e ninguém me pegava. O professor de educação física fazia a gente correr em volta do Gepef, rua abaixo, rua acima. Este professor era um transgressor dos costumes. Em pleno país do futebol, ele fazia a gente jogar basebol, o único esporte que permite tirar uma soneca enquanto é praticado. O jogo de taco no asfalto exigia mais talento.

Fora das linhas demarcatórias da escola, eu tenho vagas lembranças de alguns bailinhos regados a meia de seda, um jogo contra os Seminaristas que deixavam a santidade de lado e sentavam o pau em todo mundo e da sorveteria em frente ao ponto de ônibus que me levava de volta para a Água Fria.

Eu passava mais tempo fora do que dentro do Gepef, e por isso fui jubilado e transferido para a Extensão, uma nova ala do mesmo Gepef. A Extensão parecia ficar no anus da periferia. A rua longa, escura e barrenta até a Avenida Guapira parecia uma interminável via crucis para alunos e professores. O horário das 15:30 às 19:30 horas era tão exótico quanto a fauna da Extensão que rivalizava com a Amazônica.

O Américo obtinha permissão para manter o cabelo longo por exigência do seu papel numa novela que só existia em sua mente e, para aparecer diante das garotas, ele pedia camisas emprestadas aos amigos para não repetir a mesma roupa todos os dias. Ele era uma exceção ao uniforme oficial que lentamente começou a ser abolido, assim como o cabelo curto, por isso, em menos de dois anos, a Extensão ganhou um ar de liberdade que a diferenciava muito do Gepef.

Peru, outro expulso do Gepef, era meu favorito. Carismático, debochado e entendedor das preciosidades Britânicas e Americanas. Costumava trazer, escondido sob seu capote, capas do Rolling Stones e do Lovin' Spoonful, só para me deixar com água na boca. Tinha uma namorada, Raquel, mas era tímido demais para ficar sozinho com ela, tanto no recreio como no ônibus de volta para casa.

Eu virei segurador de vela e continuava sem saber namorar. Assim como a Célia, a Silvia tentou, mas não conseguiu. Logo veio sua lindíssima prima, Sonia. E eu falhei de novo. Meu deus, como me arrependi por não saber namorar!

Aí, finalmente, veio a eterna Marcia que me ensinou a beijar, mas me deixou por causa do irmão pegando no seu pé e depois se arrependeu e chorou durante um porre e me fez sentir muito medo porque eu não sabia o que fazer numa situação destas.

Mas eu nunca terei medo de dizer quanta saudade eu sinto dessa gente como o Ferrugem, o Vassoura, o Sócio, o Odilon, o Ligabuia, a Regina, a Rosa, o Borghi, a Ana, o Agope, a Salete, a Elizete...

A Extensão não tinha quadra própria. As aulas de educação física eram realizadas no Gepef e foi na quadra do Gepef que a Extensão se tornou campeã intercolegial de futsal da zona norte, batendo em todos, Cedom, Albino Cesar, São Marcos, e muitos outros. E na final, bateu o temido Aparecida, conhecido como Lobinho, com aqueles dois neguinhos endiabrados no ataque. Mas a Extensão tinha Mané, Luisinho e Amadeu.

A jovem diretora da Extensão, presente à quadra do Gepef naquela grande final, toda orgulhosa, fez questão de receber o primeiro troféu de campeão da Extensão logo no seu primeiro ano de existência.

E após jogo, o Mané me disse que havia uma garota do Gepef, chamada Tania, que morria de amores por mim, esteve lá o tempo todo torcendo por mim e agora estava chorando de emoção e querendo me ver. Eu nunca correspondi às expectativas da Tania do Gepef, mas ela me fez esquecer a Tania da Água Fria por quem eu sempre fui gamado.

A minha turma se conheceu na Extensão do Jaçanã, mas morava nos bairros do Tucuruvi e da Água Fria, e nestes bairros foram realizados muitos bailes ao som dos Beatles, Rolling Stones, Dave Clark Five, The Troggs... Num destes bailes, o Vassoura me trouxe para fora da casa para conversar e me disse: 'Não sei se é impressão minha, mas tudo isso parece um sonho'. Era um sonho e, assim como os Beatles, ele acabou.

A Extensão não tinha o curso colegial, só o ginasial, e, assim, eu tive que voltar para Tucuruvi para completar meus estudos. Mas se não fosse Jaçanã, eu jamais teria conhecido estes seres humanos incomparáveis e jamais teria visto mágica no ar. Talvez outros, mas não iguais.

E hoje, nos meus 57 anos, eu quero mandar um grande abraço a todos vocês do Gepef e da Extensão dos anos de 1965 a 1968 e agradecê-los pela oportunidade de tê-los conhecido e com vocês ver o tempo parar, e quero prestar a Jaçanã, o palco destas emocionantes representações da vida, uma homenagem com uma tradução livre e modificada da canção 'Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space', do Spiritualized:

'Jaçanã, tudo o que eu sempre quis na vida foi um pouquinho de amor para levar a dor embora, para me deixar forte hoje e dar um passo gigante a cada dia. Me disseram que só os tolos se apressam com bobagens, mas eu não acredito nisso. Eu ainda continuo apaixonado por você e vou te amar até o dia de minha morte e além dela. Eu acho que isso é o mínimo que eu devo a você. Só lhe peço para colocar sua mão suave junto à minha para sairmos por aí flutuando pelo espaço e ficarmos à deriva no tempo. O amor nunca se torna mais estranho do que é. Ele é sempre o que é e o que sempre foi. Não sei para onde todos nós vamos. Só sei que você, Jaçanã, me deu um pouquinho de amor à minha vida suficiente para levar minha dor embora, para me deixar forte hoje e para continuar dando um passo gigante de cada vez e a cada dia'.

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Publicado em 25/06/2009 Fala aí, Alceu, eu também tive minha passagem por Jaçanã e deixou saudades. Você me fez emocionar e olha que eu sou durão. Sem brincadeira, seu relato é bom pra caramba! Vai firme! Wlado. Enviado por Wlado - [email protected]
Publicado em 25/06/2009 DEIRDRE, obrigado e beijos Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 25/06/2009 PAIM, espero que esteja tudo bem aí nos states; pode acreditar que um desses vou adaptar sua faixa favorita para um texto que estou escrevendo sobre o parque edu chaves; abraços Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 19/06/2009 Olá, Alceu! Sé depois de minha volta aos States eu percebi que você escrveu outros textos, tão bons quanto os primeiros e neste, em particular, você fez mais um ótima adaptação de músicas do Spiritualized. Eu não conheci Jaçanã, mas a homenagem que você prestou àquele bairro com a faixa título é incrível. Penso eu, se um dia você vai fazer uma adaptação da minha favorita. Abraços dos States. Paim Enviado por Paim - [email protected]
Publicado em 07/06/2009 Alceu, este é tão lindo quanto aquele da Deusa na Água Fria. Enviado por Deirdre - [email protected]
Publicado em 06/06/2009 CONSOLATA, obrigado pela sua mensagem; eu não morei no Jaçanã, só estudei lá durante quatro inesquecíveis anos e os dos últimos, 1967 e 1968, foram os melhores de minha vida; o bairro sempre teve seu charme e vida própria, independentemente do que se passava no resto da cidade; beijos Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 06/06/2009 MARCO A. (MARCOLINO), meu esquecimento foi um erro imperdoável e indesculpável; não tenho outra justificativa a não ser minha pane mental causada por um certo número de criticas gratuitas que andei recebendo; é claro que, agora, me lembro de ter-lhe dito, anteriormente, que eu li o seu Jaçanã, Alegrias E Tristezas; acho que eu, você e o 'bimbo', autor do Moro Em Jaçanã, fizemos justiça ao bairro do Jaçanã, imortalizado pelo Adoniran Barbosa, mas, talvez, jamais conhecido por ele como nós três o conhecemos; abraços Enviado por Alceu Natali - [email protected]
Publicado em 05/06/2009 Lindo texto Alceu. Tenho muitas lembranças do Jaçanã. Desde as missas na Igreja de Santa Terezinha (Av.Guapira) nas manhãs de domingo e feiras livres e seus pastéis até momentos inesquecíveis com minha família. As coisas mudaram muito mas o charme do Jaçanã irá permanecer sempre pois ali há muito da história da cidade e em muitos rostos que ali transitam percebemos o lado humano e acolhedor da cidade. Enviado por Consolata Panhozzi - [email protected]
Publicado em 03/06/2009 Alceu... meus textos são publicados de 10 em 10 dias, vc. diz. Pois estás redondamente enganado. A equipe do SPMC exige de mim mais textos porque eles querem publicar DIARIAMENTE um trabalho meu. Como vou fazer... não sei, já fiz a equipe saber que o que recebo, por texto (em torno de $5.000 reais), é insuficiente pra sustentar meu harém, incluxive os eunucos, caríssimos, hoje em dia.
(cntinua)
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 03/06/2009 Parabéns, Asciudeme. Você sempre foi digno e correto, e merece todo o apoio. Enviado por Luiz Simões. - [email protected]