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Categoria - Outras histórias As revoluções e as lembranças de minha avó Autor(a): Alexandre Rossi - Conheça esse autor
História publicada em 19/05/2009
Pra quem tem família em São Paulo há mais de oitenta anos, certamente já teve, ou pelo menos ouviu alguma boa estória que envolvesse parentes ou amigos de familiares com a revolução de 1932, ou a de 1924, menos comentada.

Desde minha infância sempre gostei muito de história e feitos militares. Minha avó, falecida em 2004, com seus noventa anos, vez ou outra me contava passagens de nossa família com esses eventos, que tanto marcaram os paulistas e paulistanos em suas épocas.

Contava ela que a revolução de 1932 envolveu demais os paulistas. Seu irmão mais velho, então com vinte anos e primogênito de uma extensa família de outros oito irmãos, engajou-se nas forças revolucionárias de São Paulo a fim de lutar pela constituição... isso naturalmente contra a vontade de minha italiana bisavó. Na possibilidade de ver morto seu primeiro filho e em completo desespero, insistentemente pedia a meu bisavô que tomasse alguma providência. Bem, o fato interessante é que meu bisavô resolveu ir conversar com o General Klinger, chefe supremo das forças revolucionárias, e pediu ao General que trouxesse seu filho de volta. Surpreendentemente assim foi feito! General Klinger mandou que procurasse o jovem Antonio na frente de batalha e, dias depois, para conforto de minha bisavó, seu filho era trazido (contra sua vontade, diga-se), de volta a sua presença.

No dia seguinte ao feliz encontro, o jovem foge de casa, e volta ao campo de batalha, envolvido que estava pelo espírito da revolução. Felizmente, e para tranquilidade de toda família, ele nada sofreu, retornando a sua casa meses depois, são e salvo.

Outro evento muito marcante na vida dos paulistas, em especial dos paulistanos, foi a revolução de 1924. Nessa época, minha avó, com dez anos de idade, morava com seus pais e irmãos no bairro do Brás. Como boa parte dos combates entre as forças revolucionárias e legalistas ocorreram dentro da cidade, muitos bairros, como, por exemplo, a Mooca, o Brás ou Santana, ficaram em meio ao fogo cruzado. Contava minha avó que no quintal de sua casa ouviam-se zunidos de balas que por ali passavam.

Em um desses dias, meu bisavô, descansando em casa, recebe a visita de um desesperado amigo, dizendo que seu taxi, estacionado em manutenção em uma oficina nas imediações da Praça da Sé, estava sendo requisitado para uso pelas forças revolucionárias. Desesperado, meu bisavô vai até lá e, com surpresa e tranquilidade, descobre que o dono da oficina negara a entrega do automóvel, dizendo que o mesmo não tinha qualquer condição de transitar, pois tinha o motor gravemente avariado. Na verdade era um problema pequeno, rotineiro, mas o dono da oficina era amigo de meu bisavô e sabia que aquele era seu único bem e única forma de sustentar sua numerosa família.

Bem, meu bisavô decide que não era nada seguro permanecer na cidade com seus, naquele momento, seis filhos pequenos. Como seria um risco muito grande transitar com o automóvel pelas ruas, arruma uma carroça, coloca alguns pertences e seus filhos nela, tranca sua casa e vai se abrigar na casa de um irmão na cidade de Jundiaí! Fico imaginando, naqueles distantes anos, como foi chegar em Jundiaí de carroça com aquelas crianças...

Passados alguns dias e findos os combates, volta a sua casa. Para sua tristeza, percebe que a porta está arrombada. Ao entrar, vê a mesa de jantar elegantemente arrumada, como se alguém os esperasse para o almoço. Um detalhe chama sua atenção: os pratos estão todos cobertos por outros pratos, como se faz quando não se quer que a comida esfrie.

Infelizmente, não era comida que havia nos pratos, mas... excrementos humanos! Nas paredes, todas pichadas e sujas também com excrementos, mensagens pouco educadas de soldados das forças legalistas, que por ali haviam passado e saqueado seus poucos bens.

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Publicado em 28/07/2009 Alexandre, parabéns.São acontecimentos que hoje fazem parte da historia e que muito também ouvia de sua avó, minha mãe, e do meu tio Antonio.É gratificante saber que pessoas como você não deixam que esses acontecimentos se apaguem, pois apesar de se tratar de algo que queremos manter distancia, vale a pena refletirmos para deles extrairmos ensinamentos.Hoje convivemos não mais com uma revolução mas sim com uma guerra, onde os soldados permanecem nos quarteis e os civis são covardemente mortos! Enviado por Marcos Antonio Rossi - [email protected]
Publicado em 23/05/2009 caro Alexandre, gostei muito da sua história. Outras semelhantes já ouvi de outras pessoas, mas somadas a sua, em nada desmerece a importancia, ao contrário, só acresce nossa História. E, melhor, contadas por pessoas que tiveram em suas famílias personagens diretos. Agora, essa do seu tio de voltar ao campo de batalha, é maravilhoso saber que quanto se tem ideal, tudo vale a pena, mesmo (e entendo sua avó)colocando a própria vida em perigo. Obrigado pelo belo texto Enviado por silvio lima - [email protected]
Publicado em 22/05/2009 Amigos,
Agradeço muito os comentários de todos!
Gostaria somente de fazer uma correção de um problema que talvez tenha ocorrido na edição junto ao SPMC e pedir-lhes que se possível corrijam.
No penúltimo parágrafo deve-se ler:

"Passados alguns dias e findos os combates, volta a sua casa.
Para sua tristeza, percebe que a porta está arrombada. Ao entrar, vê a mesa de jantar elegantemente arrumada..."
Enviado por Alexandre Rossi - [email protected]
Publicado em 21/05/2009 Amigo Alexandre, meu pai, nascido no Bom Retiro em 1904, viveu e sempre relatava fatos de todas as revoluções, 24,30 e 32, só coisas horriveis. Meu avô materno, no Paraná, teve seu Fiat e o caminhão International sequestrado pelas forças do getúlio em 1930. Nunca mais se levantou na vida e acabou morrendo em 1936 aos 48 anos de idade.Revolução, portanto é sinônimo de violência, morte, desgraça, traição, covardia, etc.etc. Um abraço, Rossi. Enviado por antonio rossi dos santos - [email protected]
Publicado em 21/05/2009 Rossi, realmente a revolução de 1924 foi mais curta e menos expressiva do que a de 32 porém, muito mais sangrenta. Se vc. tiver a curiosidade e, sem sair do nosso site, ir até o dia 14\09\07, no texto "Vítima da arrogância", onde conto o ocorrido com minha tia Carmela, vítima da intransigência do xenófobo e arrogante pres. Artur Bernardes que mandou bombardear o Braz, Moóca, Cambuci, e adjacências porque odiava estrangeiros. Seu texto, brilhante sofreu um "bombardeio" no penultimo parágrafo.
Mo
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 21/05/2009 Suas lembranças coincidem com as minhas que me foram contadas por meu pai e primos mais velhos.Tambem fugiram para Jundiai e a casa de meus pais recem casados foi saqueada e o seu cão pastor morto com requintes de cueldade. Ocorreu tambem um fato que sempre era lembrado por minha mãe a respeito de um par de brincos que ela costumava portar sempre por se tratar de uma pequena jóia de familia e que dada a necessidade da fuga urgente foi deixada e vista depois nas orelhas de uma vizinha...... Enviado por Vera Bertolucci - [email protected]
Publicado em 21/05/2009 Caro Professor, Mario Lopomo.

Eu não tenho nomes de Generais que participaram da revolução de 1932, mesmo porque não tive a felicidade identica à sua, em participar de todos esses eventos, além de ter estado no sindicato com Lula, com Adhemar de Barros, comunista, depois democrata. Janio Quadros honesto, além de ter assistido a extraordinária performace socialista do Bradesco. No comentário, faço uma ironia ao relato do Alexandre Rossi, em detrimento aos militares, mencionado, Gal.Klinger, os quais abomino todos, os mortos e os vivos. Sugiro, que o estouvado e confusionista “blogueiro”, procure o “Dr.Castanho”, da novela “Caminho das Índias” , antes de comentar o que não foi lido.Dois Abraços.
Enviado por Rubens Ramon Romero - [email protected]
Publicado em 20/05/2009 Sr. Rossi, seu relato é comovente e educativo, para que todos vejam que em certos momentos alguns homens em nome de justiça, liberdade, do bem ou da religião se tornam mais animais do que gente e obrigam a matar e morrer em nome destas bandeiras virtuais. Desde 32 só veio a ditadura em 64, com uma guerra subterrânea mas dolorosa para muitas famílias. Espero sempre que sejamos um país de paz e trabalho, sem salvadores da pátria que colocam terceiros na linha de fogo. Parabéns. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - [email protected]
Publicado em 20/05/2009 Ola Alexandre.......um bom dia para voce.
Eu como filho de um soldado constitucionalista fico orgulhoso e feliz em saber que outros paulistas e paulistano ainda falam e recordam da revolução de 1.932. Meu pai Leandro Garcia foi um soldado em defesa deste São Paulo querido e na época ultrajado, ele sempre comentava que serviu no Batalhão Borba Gato no Vale do Parahiba, foi ferido na perna por uma bala de fuzil, mas graças a Deus não lhe causou nenhuma sequela.....
Parabens Alexandre,...
Enviado por Luiz Gonzaga Simoes Garcia - [email protected]
Publicado em 20/05/2009 Alexandre. Na Caetano Pinto, minha mãe (*1913-†2004) residiu, quando solteira e comentava que havia vivenciado a revolução de 1924, a cidade presenciou dias de bombardeio, tiros de metralhadoras, barricadas e saques. Sempre quando qualquer assunto referente à revolução surgisse, comentava: — na residência próxima à sua, um sobrado (no 58), uma granada atravessara o telhado e havia feito um enorme rombo, caindo dentro da balde com água, que a vizinha usava para lavar o assoalho.Depois de anos encontrei a foto do sobrado, na Internet.
Hoje se sabe que revolta demorou 23(vinte e três) dias e deixou como saldos, na sua maioria civis,503(mortos) 4846(feridos). O bairro do Braz foi um dos primeiros a sofrer as conseqüências cruéis dessa guerra. Foi atingido por um canhoneiro tão pesado que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os cadáveres, o que levou muitas famílias a enterrar seus mortos nos quintais de suas próprias casas. Deus perdoe General Klinger, eu não posso!Rubens
Enviado por Rubens Ramon Romero - [email protected]