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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Onde houver um artista nunca existirá um vazio Autor(a): Ana Maria Lisbôa Mortari - Conheça esse autor
História publicada em 18/12/2008

A iluminada manhã de primavera brindou os paulistanos que visitaram o Parque Ibirapuera neste primeiro sábado de dezembro. Apesar de nossa querida São Paulo haver se transformado numa das maiores metrópoles do mundo, e a beleza e extensão deste parque (que alguns de nós vimos nascer durante as comemorações do quarto centenário desta cidade) nos fazer pensar que aqui só existem flores e belos jardins, nem sempre tudo são flores...

Foi o que pudemos constatar neste ano com as ocorrências que antecederam e precederam a inauguração desta malfadada "28ª Bienal do vazio!". Sim, o título é com letra minúscula porque vazio é nada.

O que será que isso quer dizer? Onde está o vazio? Que vazio é esse? Vazio, para mim, e apoiada pelo Aurélio, significa: "Que não contém nada, ou só contém ar; desocupado; despovoado; desabitado; frívolo, fútil; pessoa vazia; falto ou destituído de inteligência; cabeça vazia; pensamentos vazios.".

Portanto nenhum destes significados podem ser encaixados como símbolo ou título de uma bienal de arte.

Achei tudo isso tão grotesco que pela primeira vez não fui ao evento, pois não tenho tempo a perder para ver o nada, executado por pessoas vazias, de cabeças e pensamentos vazios.

Oh! Por favor, não desejo magoar ninguém em especial, porque essas frases são do Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, da Academia Brasileira de Letras e Filologia...

Com esse espírito fui convidada por um grupo de artistas, liderado por Antonio Peticov, para uma manifestação puramente intelectual em frente a Bienal, hoje (07/12), às 10h00, onde estava sendo organizada uma grande festa carnavalesca para o encerramento do "Circo do Vazio", logo mais tarde.

Nós, artistas plásticos, estivemos lá. A curadoria e a presidência da Bienal, embora convidadas, não compareceram a nossa pacífica manifestação contra a desrespeitosa citação de "Vazio na Arte", apoiada pela Uol, Viva SP, Blog do Mário Lopomo, Grupo São Paulo Minha Cidade, Rádio Eldorado, GNT, Jornal Estadão, Agência de Notícias da Internet, dentre outras, mas nós entendemos... Afinal, tratava-se de uma manifestação intelectual, de intelectuais, estudiosos e profissionais da arte paulista.

Num momento em que lamentamos profundamente o fechamento de grandes e honradas galerias, a ausência de competentes marchands que desistiram ou saíram do mercado, dos grandes colecionadores e apreciadores que apoiavam os artistas em suas exposições e leilões de arte, dos clientes de arte, cuja crise os afastou do mercado que tanto apreciam e conhecem...

É lamentável assistirmos alguém que ocupa uma posição de comando num espaço público que pertence ao povo, como é o saguão da Bienal e outros do Ibirapuera, dedicar uma Bienal - outra aberração, visto bienal significar dois anos - com todo aquele espaço homenageando o que carregam em suas cabeças: NADA! Tantos artistas sem conseguirem locais para expor suas obras, ou sem capacidade financeira para custear exposição em galerias, para assistirmos a essa "Apoteose do NADA"?

É um acinte à classe artística. É um desrespeito a nós como profissionais da arte.

Aliás, acredito que esse tipo de presidência e curadoria deveria ter pessoas do meio artístico, para garantir a sensibilidade e a criatividade para organizar bienais como já existiram no passado, e não acontecer mais outra em homenagem ao NADA, que, para acontecer algo, precisaram mandar prender alguém que, incomodado, quis colocar algo lá dentro...

Como diria Lair Ribeiro o filósofo das massas: "O pior incompetente é aquele que não tem competência para perceber o quanto é incompetente!".

Por essas e outras que após mais de 35 anos de carreira, de lecionar, de exposições nacionais e internacionais, de inúmeras premiações e comendas, de haver pintado, dentre outros trabalhos, um altar mor de 42 metros quadrados, uma Via Sacra em Minas Gerais, um cenário, vários painéis e inúmeros quadros, me sinto desanimada frente à carreira, ao mercado atual. Despojada de forças para pintar, com o ímpeto e a criatividade que pulsam dentro de mim, ao ver pessoas, em posições chave, nada fazerem para levarem a arte, a cultura e o conhecimento para a sociedade brasileira.

Disse, digo e não canso de repetir: "A Arte nunca foi vazia. Nem na época da guerra mundial ela deixou de existir, mas se transformou num registro das ocorrências, como em todos os tempos da história mundial".

Assim termino meu texto com o título: "Onde houver um artista, nunca existirá um vazio!”.

e-mail do autor: [email protected]

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Publicado em 26/12/2008 Ana, a mordaça que vc. me colocou, impede qualquer inioiativa minha.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 22/12/2008 Parabéns pelo grito de revolta. Picasso que o diga, que nem a guerra cala o artista, ao contrário, é quando ele mais aparece, para, muitas vezes falar bem alto o que o povo, amordaçado, não pode fazê-lo. Lembremos aqui rapidamente o pintor argentino que pintou as bicicletas nos muros e nas casas onde houve alguém desaparecido e torturado, porque a bicicleta era o meio de transporte dos chamados terroristas, para fugir da polícia. Lembremos de Valtércio Caldas, aqui no Brasil, carimbando nossas cédulas informando sobre o assassinato de W.Herzog. O dinheiro circula na mão de milhares de pessoas e desta forma ficamos sabendo que Herzog fora assassinado. Não havia se suicidado.
Por isso, Ana Maria, use a sua arte para o combate. Não desanime. Um Abraço
Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - [email protected]
Publicado em 20/12/2008 Ana, eu estreei na Bienal de São Paulo aos 09 anos. Como visitante, claro! :) Foi na V Bienal, em 1957. De 57, até os dias de hoje, vi muita coisa, nem sempre agradável ou interessante. Mesmo assim tínhamos a consciência de que haviam tendências, vanguardismo, experimentação. Notava-se, sobretudo, a Arte se manifestando. De uns tempos para cá, a gente olha e duvida do que vê. Mesmo assim, duvidosa ou não é a manifestação do artista. E quanto ao artista, não me importo se ele seja louco, abusado, péssimo. Importa sim, que crie, faça Arte. Abuse das possibilidades de manifestação. Não acredito no vazio da Arte. Acredito sim, no esvaziamento de certos artistas que desistem de fazer ARTE. E acredito no vazio de certos organizadores de exposições, onde a idéia do comercial se sobrepõe à Arte. O vazio está neles, não na Arte. Ela é o Caos a ser ordenado. Ela é como um rio caudaloso, sempre sujeito às enchentes: destrói, constrói, renova-se, reinventa-se. Rio que deságua no mar da Vida, não no vazio. Aceitaria até que falassem em pausa. Pois pausa significa retomada, transição. Mas vazio... É muito para a minha cabeça. Abração, Natale. Enviado por Wilson Natale - [email protected]
Publicado em 19/12/2008 Ja fui em muita exposicao de artes em que as obras nao me diziam muito, algumas pelos materiais utilizados(cabelos, unhas, sangue)outras pelo temas. Mas visitar um espaco vazio nao me diz NADA. Enviado por Etel - [email protected]
Publicado em 18/12/2008 Dizem que a Modéstia é uma virtude e que poucos a tem. E o bom do Ególatra é que eles não falam mal de ninguém. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 18/12/2008 A oração de São Vito é indicada para os neuróticos, mas pode bem servir também aos artistas.
Tenho a oração comigo e é muito bonita Ana Maria.
Enviado por Clesio de Luca - [email protected]
Publicado em 18/12/2008 Parabéns pela coragem! É preciso gritar, indignar-se, protestar contra certas “manifestações artísticas” que agridem nossa inteligência. Ao diabo com o vazio!
Mancini
Enviado por Mancini - [email protected]
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