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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Festa Baresa Di San Vito Mártir em São Paulo Autor(a): Ana Maria Lisbôa Mortari - Conheça esse autor
História publicada em 11/11/2008

Existem duas grandes e tradicionais festas italianas no Brás nos meses de maio e junho de cada ano: a Festa Baresa de San Vito Mártir e a Festa Napolitana de Nossa Senhora de Casaluce.

A Festa de São Vito Mártir, a mais tradicional, é sempre iniciada com uma procissão, acompanhada pelas "mammas" da Associação São Vito Mártir, cantando o hino em homenagem ao santo, e por jovens freqüentadores da festa do santo padroeiro e protetor de Polignano a Mare, cidade de origem de muitos dos imigrantes e descendentes italianos radicados nessa região do Brás. Começa assim, em 2008, a 90º Festa de São Vito, que ocorre anualmente desde a primeira, realizada em 1918, com a colaboração da comunidade local, para homenagear o santo.

Nenhum deles imaginava que a despretensiosa festa iniciada na rua, com lanternas que proviam a iluminação, alcançasse tal extensão de sucesso, tornando-se um marco das tradições polignanesas, uma autêntica manifestação cultural com a participação de pessoas dos mais diferentes bairros da Paulicéia!

Os festejos acontecem durante todos os finais de semana, até o dia 6 de julho à noite, das 19h00 até a 01h00 da manhã, com o consumo das delícias culinárias italianas preparadas pelas "mammas", como: richitelle, ficazza e ficazzella, além da tradicional guimirelle, preparada atualmente pelo Pascoal, sob a atenta orientação do seu pai, senhor Luca Enriquez, que aparece comigo na foto!

Antigamente se utilizava apenas a parte que segura a barrigada, chamada "rendão", do cervo ou do cabrito, no preparo da guimirela, mas, devido à dificuldade para encontrar esse tipo de carne, utilizam atualmente o rendão suíno, comprado diretamente do matadouro ou do mercado, conta o Sr. Luca.

A Associação Beneficente São Vito Mártir, responsável pelo sucesso da festa e pela manutenção das tradições polignanesas, foi fundada no ano seguinte à realização da 1ª Festa di São Vito, em 1919, mas a devoção ao santo é muito mais antiga. Conta-se que ele nasceu no final do século III, exatamente no ano de 288 d.C., e que morreu martirizado no ano de 303 d.C. com apenas quinze anos. Filho de um nobre do império de Diocleciano, foi amamentado pela serva Crescência, após a morte de sua mãe, e criado pelo casal cristão: Modesto e Crescência.

Depois de crescido, seu pai queria que ele entrasse para o exército de Roma, mas Vito dizia que era soldado de Cristo e não de Roma. Daí decorre toda a sua estória, em que fez uma série de milagres ainda em vida, como salvar a filha do próprio Diocleciano - o que não o salvou das torturas.

Conta-se, por meio da história oral desse povo, passada através das gerações, que atirado no óleo quente, não morreu; atirado na jaula dos leões, conseguiu conter a raiva desses animais; morreu tragicamente, contudo, dilacerado, depois de ser jogado numa roda cheia de pregos. Seu dia oficial em toda a Itália é 15 de junho de cada ano.

Na foto de sua imagem, aparecem dois cães ao seu lado, porque na Idade Média foi reconhecido como o santo protetor contra a raiva e as doenças do sistema nervoso.

Parte de seus ossos estão em Polignano a Mare, e a outra parte guardada como relíquia na Catedral de São Vito, em Praga, na República Tcheca, apesar dele haver nascido na Sicília ou na Lucânia, na Basilicata, pois era conhecido como Vito Lucano!

A primeira imagem do santo, feita de "papier machè", uma elaborada técnica artística de moldagem com papel prensado, foi trazida em 1885 por Modesto de Luca, para que o patrono de sua cidade natal continuasse a proteger os imigrantes de Polignano a Mare, que começavam a emigrar para São Paulo, segundo documentos arquivados na Hospedaria dos Imigrantes, atual Museu da Imigração, segundo os quais os primeiros polignaneses teriam chegado em São Paulo entre os anos de 1882 e 1900.

Esclareço que a primeira leva da imigração italiana em massa ocorreu em 1880, e em 1897 a proporção era de dois italianos para cada brasileiro na cidade!

Vindos de Polignano a Mare, a pequena cidadezinha retratada nas fotos, situada a pouco mais de trinta quilômetros ao sul da Província de Bari, capital da região de Puglia, na Costa Adriática, no sudeste da Itália, incrustada em uma formação de rocha calcária imersa no mar Mediterrâneo, antigamente chamada Neápolis Polignano, com cerca de 16 mil habitantes.

A grande característica de Polignano a Mare são as grutas, dentre as quais a mais famosa é a Grota Palazzese, na qual se entra por uma escada interna, além das Grutas Ardito, Stalattitica e a da Foca, sendo que nessas grutas foram encontradas sinais de presença humana da Era Paleolítica!

Os primeiros imigrantes polignaneses juntaram-se primeiramente na Rua do Carmo, porque no Brás ainda não existia nada além da várzea do Rio Tamanduateí, e foram trabalhar diretamente na lavoura, em fazendas do interior paulista, com subsídio do governo brasileiro. Porém, a partir de 1890, começaram a chegar os chamados imigrantes "espontâneos", que se estabeleceram, em sua maior parte, na capital, e diferentemente dos primeiros, eram carpinteiros, sapateiros, dentre outras categorias profissionais tipicamente urbanas.

Devido à tradição agrícola e comercial dos polignaneses, em pouco tempo, predominavam na zona cerealista e em outros ramos do comércio paulista, fixando-se, em segunda instância, numa região não longe do centro, onde pela chegada das indústrias, a partir de 1900, estava se iniciando um novo e promissor pólo residencial para eles: o bairro do Brás, que ficava próximo aos seus núcleos de trabalho (as fábricas, a ferrovia e o mercado).

No trabalho, havia cooperação recíproca entre homens e mulheres, pois, acostumadas a trabalhar em Polignano, as mulheres estavam habituadas a ajudar os homens, ganhando salário pelo trabalho que realizavam na colheita de amêndoas e azeitonas, das grandes propriedades rurais de Polignano.

Elas também buscavam trabalhos remunerados, tecendo redinhas para cabelo e redes de pesca, costurando sacos de café para os espanhóis da Rua Santa Rosa ou trabalhando nas fábricas, enquanto os homens, rapidamente tornavam-se entregadores de jornais. Aproveitando-se dessa situação, aprendiam o idioma e juntavam os primeiros investimentos, tornando-se, com o passar do tempo, donos de bancas de venda de jornal, sendo esta a origem de grandes redes de bancas e livrarias, como a Editora La Selva, fundada pelo polignanes Vito Antonio La Selva (1900-1968).

Outras profissões exercidas por polignaneses foram a de peixeiro, de cerealista no Mercado Municipal, e a de garrafeiro, que, simultaneamente à urbanização da cidade de São Paulo, deram origem às primeiras indústrias, como a Companhia Antártica Paulista.

O grupo dos italianos, coeso na intenção partilhada com a maioria de retornar à sua cidade natal logo que constituíssem patrimônio, não impedia a realização de casamentos entre os polignaneses, mantendo suas manifestações culturais que reforçavam e mantinham os seus laços de origem, dando início às chamadas "festas típicas italianas".

Como primeiro gesto, cuidaram da perpetuação da memória de seu padroeiro em São Paulo, com a edificação da Igreja de São Vito Mártir, obra exclusiva de polignaneses, e da associação surgida em 1919, responsável pela construção da capela inicial, transformada em paróquia em 1940. Em 1944, ocorre a construção da igreja atual e, na década de 80, do Centro Social São Vito, onde colocaram a imagem original de São Vito trazida da Itália.

É nesse espaço, reproduzido na foto, que se localiza a cozinha industrial da festa, a quadra poliesportiva e a Creche São Vito, inaugurada em 1996, mantida com a renda da festa.

Desde 1918, a Associação Beneficente São Vito Mártir, mantendo unidos os descendentes polignaneses às suas origens, marca a sua presença no calendário de eventos anuais da cidade de São Paulo, que, como todos reconhecem, nunca mais foi a mesma depois da chegada dos italianos, com sua alegria contagiante, com sua culinária deliciosa, com suas melodias românticas, com suas emocionadas demonstrações de afeto, com a sua imediata miscigenação com os paulistas - até mesmo por laços de casamento, pois já não pensavam mais "in ritornare", criando na "nostra città di San Paolo", uma nova raça: "os oriundi!"

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Publicado em 06/09/2011 Tenho o problema de distitmia desde 1942 e até hoje tomoa cários medicamentos sera que eu cinsigoa imgem deste santo tão procurado.onde erncontar Nancy Enviado por Nancy Carazza - [email protected]çl.com
Publicado em 16/06/2011 Ana Maria,adorei seu relato sobre Polignano Amare,sou neta de Rosa Enriquez Bavelloni e Arrigo Bavelloni,meu avó tinha restaurante na rua Santa Rosa,e minha Mãe nasceu na rua Americo brasiliense THEREZA(zina)Bavelloni Garrido,meus pais se conheceram na festa de SÃO VITO,MEU bisavo era LUCAS Enriquez e minha bisavô Margarida Stoppa,boas lembranças!Adorei,graças a festa de SÃO VITO estou aqui!VIVA BARE ! Enviado por Rosana Maria Garrido - [email protected]
Publicado em 08/02/2011 Prezada Ana Maria Mortari, parabéns pelo seu artigo, muito bem escrito e sucinto sobre a colônia polignanesa. Como descendente, estou fazendo uma pesquisa visando reagregar filhos, netos, bisnetos e descendentes de polignaneses em São Paulo e no Brasil. Gostaria muito de manter contato com Va. Sa. e saber se tem mais material a respeito deste assunto. Atenciosamente. Estéfano. Enviado por Estéfano Carrieri - [email protected]
Publicado em 15/12/2008 Não nasci na Itália,mas em minhas veias corre sangue italiano.Sou descendente,nasci no Brás,na rua da Alfandega e muito me orgulho por isso.Morei no edifício São Vito,na rua do lucas e frequentei por muitos anos a festa de San Vito Martir.Tenho um tio,que infelizmente,não o vejo a muitos anos.Seu nome Pacoal Di Donato,de Polignano a Mare,saudades...Saudades também dos primos que nem se lembram de mim,Vito,Vitória e Luciana.Saudades também da minha tia "Nega", a Ivani Pereira. Um grande abraço a todos do meu inesquecível Brás,do pessoal da festa,da "mamma" Nena e de seus filhos Eduardo e Margareth.Saudades eternas...Wilsinho... Enviado por wilson roberto pereira barletta - [email protected]
Publicado em 12/11/2008 Vera, como sempre, um texto impecável, muito bem narrado.
Abração, Ivette
Enviado por ivette gomes moreira - [email protected]
Publicado em 12/11/2008 Ana Maria, você tem uma bela redação e é bem consisa e fluente na escrita. Gostaria de ler comentários seus nas histórias de alguns ilustres internautas, pois acredito que com sua sapiciência você enriqueceria ainda mais as narrativas dos mesmos e nos propiciaria mais um deleite. Parabéns. Enviado por asciudeme joubert - [email protected]
Publicado em 11/11/2008 Mortari, muito obrigado pela magnífica matéria que vc., impecavelmente, soube como poucos, explanar nesse nobre texto. Tudo o que vc. disse, atravez do Luca, particular amigo, mecheu de tal forma comigo que, sinto não ter feito antes um trabalho de tal envergadura. Não conseguiria, por não ter a capacidade pra contar da sua maneira, do seu geito, de sua imprescindível capacidade de relatar, com muita delicadesa, cada parágrafo desse emocionante roteiro. Não é ciumes, não, Ana Maria, apenas vc. se apropriou dos profundos recônditos de minha alma ao redigir esse texto. Sou paulistano, nasci no Braz, na rua Assumpção, filho de barês, de Polignano à Mare, onde estive por duas vezes, participo de todas as festas do São Vito, até hoje, 40 anos morando na zona oeste, vou em todas elas. Realmente Polignano é um deslumbre, quem não conhece, vá conferir o que a Mortari descreve. No próximo ano, não deixem de ir a uma das noites dessa festa sem igual. Mortari, tenha uma feliz tragetória nessa busca constantes de festas populares. Mil vezes, parabens.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 11/11/2008 Eco!!!!! Culinária maravilhosa mesmo. Enviado por Benedito - [email protected]
Publicado em 11/11/2008 Ana Maria, seu texto traz informações que eu desconhecia, obrigada por acrescentar tantos fatos importantes ao meu saber e que hoje ficou maior. Parabéns pelo seu texto, grande beijo. Enviado por margarida p peramezza - [email protected]
Publicado em 11/11/2008 Senhora Mortari parabens pelo seu relato. Fez um tratado de historia sobre a emigraçao dos POLIGNANESI em Sao Paulo. Imagina que eu fiz o serviço militar na Puglia: Bari, Trani e Barletta anos depois atè trabalhei em Bari morando em Alberobello viajando pela Regione mas nunca visitei Polognano. Agora quando estiver por aqueles lados vou fazer uma vista.
Abraços Pino Orsini
P.S. Apesare nascido na Italia mas criado em Sao Paulo sinto-me oriundo - tambem eu sou uma nova raça....rs....rs.....
Enviado por giuseppe orsini - [email protected]
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