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Categoria - Paisagens e lugares São Paulo, minha vida Autor(a): Antonio Fernandes - Conheça esse autor
História publicada em 27/10/2005
São Paulo, minha vida...

Lembro-me, ainda, daquela manhã fria e chuvosa de quase quarenta anos atrás. Minha família e eu, todos numa Kombi alugada, que “rasgava” a cidade com destino ao bairro de Santo Amaro; final de uma viagem que começara no dia anterior, na nossa terra natal, lá no sul de Minas Gerais.

Vínhamos com a cara e a coragem, mais alguns cacarecos que couberam na tal Kombi.

Fugíamos da fome e da miséria e de um futuro opaco que já começava a rondar nossa casa. A cidade de São Paulo representava a promessa e a esperança de uma vida melhor para aquela família de lavradores, que não tendo mais condições de permanecer no campo, aceitara a oferta de uma pequena casa de fundos, por parte de parentes, que já estavam a algum tempo por aqui.

A Kombi ia atravessando a metrópole e eu, com oito anos de idade, ia ficando admirado com a quantidade de ruas, casas, carros e pessoas, tudo novidade para mim, que só conhecia a roça e a sede do município em que nasci, de menos de mil habitantes.

De repente, passamos próximo a um pilar de grandes proporções, em cuja base superior havia um enorme cavalo negro, montado por grande cavaleiro. Dei um grito de susto e isso foi motivo de riso para todos. Meu pai, minha mãe, minhas três irmãs, minha avó e até mesmo o motorista, riram a valer.

Anos depois, fiquei sabendo ser a estátua de Duque de Caxias, o único duque brasileiro. Monumento erguido pelo escultor Victor Brecheret na Praça Princesa Isabel, no centro da cidade, considerada a maior estátua eqüestre do mundo, com 48 metros de altura e 20 de diâmetro. Para mim, até hoje, representa o marco de meu encontro com a cidade.

Nossa família instalou-se, então, na casa cedida pelos parentes, e passou a lutar pela sobrevivência na metrópole.

Poucos meses depois, meu pai, que sofria do coração, veio a falecer, e minha mãe e a irmã caçula mudaram-se para a casa de outros parentes no interior do estado. As irmãs mais velhas, que já andavam de namoro, vieram a se casar, quase que simultaneamente. Eu, então, fiquei a cargo delas. Como uma passou a morar na Zona Norte e a outra na Zona Sul, eu passava temporadas na casa de uma e de outra.

Em decorrência desta minha situação particular, aprendi logo cedo a conhecer a cidade, pois estava sempre em trânsito, da casa de uma para a de outra irmã, da Vila Maria ao Jabaquara, ou vice e versa.

Eu, quando estava na zona norte, freqüentava com meus amigos o clube da prefeitura, na Praça Cianorte, com suas ótimas piscinas. Já quando estava na zona sul, aproveitava ao máximo o Parque do Ibirapuera. No começo ia com meus amigos e o pessoal da escola para jogar bola e brincar na beira do lago, visitar o Planetário ou observar um dos mais famosos postais de São Paulo, o Monumento às Bandeiras. Olha Brecheret aí novamente! Depois, já mais crescido, ia ao Parque para namorar...

Muitas vezes, para conseguir algum dinheiro, já com doze ou treze anos de idade, nunca tive vergonha de fazer os mais variados tipos de trabalho.

Se o tempo estivesse bom, eu saia vendendo picolés em uma caixa de isopor pelas ruas. Outras vezes, com um desses carrinhos de pedreiro, eu saia recolhendo papéis, vidros e metais para vender nos depósitos de ferro velho.

Sempre ganhava algum dinheiro, que depois gastava com prazer na Cantina do Colégio, em cinemas, gibis, etc.

Desta forma, eu me igualava aos amigos que viviam com pai e mãe que lhes davam mesadas.

Naqueles tempos existiam bons cinemas nos bairros e no centro. Hoje, só nos shoppings.

Foi mais ou menos em 1968 ou 1969 que comecei a perceber a construção da primeira linha do Metrô, com início no Jabaquara. Naquela época não havia as máquinas modernas de hoje e demoliam casas e prédios que se encontrassem no traçado, interditando ruas. A primeira destas máquinas foi batizada pelos brasileiros de Tatuzão.

Em 1972, foi aberto um enorme poço na Avenida Prestes Maia, tornando-se um novo ponto de partida do Tatuzão, vários moradores, padres do Mosteiro de São Bento e freqüentadores da região central começaram a criar inúmeros obstáculos. Era o medo e a desconfiança: não conseguiam sequer imaginar que logo ali, alguns metros abaixo de seus pés, Tatuzões gigantescos estavam, supostamente, "devorando" o solo abaixo dos monumentos históricos, prédios de escritórios, caixas-fortes nos subsolos dos bancos...

Era costume de um de meus cunhados reaproveitar materiais de construção que eram descartados pelas demolidoras. Sempre me levava nessas empreitadas para ajudá-lo a separar tijolos, telhas, etc.

Numa dessas vezes, um velho senhor, dono de uma imobiliária, ali no Jabaquara, se impressionou com o desempenho daquele rapaz magrinho (eu) que separava alguns tijolos. Não sei se por pena, ou, quem sabe, por interesse mesmo, depois de indagar algumas coisas, inclusive se eu estava estudando, resolveu me dar um emprego em seu escritório.

Foi o primeiro presente valioso que recebi desta cidade. Eu tinha que limpar o escritório, ir aos bancos, prefeitura, repartições e o melhor: cuidar da biblioteca! Eu fazia isso muito bem e quando tinha tempo, lia os livros. Foi ali que tive acesso a alguns clássicos de nossa literatura.

Devorei “Clarissa” em um dia chuvoso de março de 1972. Depois vieram “Vidas Secas”, “O Primo Basílio” e tantos outros...

Aquele senhor foi um verdadeiro pai. Incentivava-me aos bons costumes, tais como a leitura e a prática de esportes. Minha primeira bicicleta foi ele quem financiou. Mais tarde, com ela eu ia pedalar num lugar bem improvável: o Minhocão. Fechado aos domingos, o viaduto começava a virar área de lazer na cidade, trocando o tráfego de automóveis por bicicletas, patins, skates e passeios de mãos dadas.

Quando surgiu a oportunidade de um emprego estável em um banco, foi ele quem deu o maior incentivo.

Desta época, recordo-me de fatos marcantes que ocorreram. O drama que a cidade viveu em fevereiro de 1972, na tragédia do Edifício Andraus, repetida em 1974 - em escala maior - no incêndio que destruiu o Edifício Joelma, na Avenida Nove de Julho.

Logo veio a inauguração do primeiro trecho do metrô, em 1974, o trecho percorrido foi Jabaquara-Vila Mariana, mas somente em 1975, a operação comercial foi estendida para toda a Linha 1-Azul, de Santana a Jabaquara. Foi uma revolução nos meios de transportes. Eu vivi tudo isto de perto!

À medida que a cidade ia evoluindo, ia me levando com ela. Com o emprego no banco, veio o primeiro carro e, logo depois, a independência. Aluguei um apartamento pequeno só para mim, na Liberdade, que mais parece um pedacinho do Japão em São Paulo.

Nos dias de trabalho que se seguiam, era obrigatória a minha passagem pelo primeiro viaduto desta cidade, o Viaduto do Chá sobre o Vale do Anhangabaú. Andando apressado, como um verdadeiro paulistano, admirava os prédios, principalmente o da antiga Light e do Teatro Municipal. Sempre achei que o cartão postal da nossa cidade fosse a Praça Ramos de Azevedo, com postes de iluminação ao lado e as palmeiras imperiais lá embaixo. Naquela época era comum chamá-la de praça dos gatos, pela enorme quantidade desses animais que, trazidos pela população e ali deixados, sobreviviam alimentados pelos transeuntes. O clima era ainda úmido com a garoa que se percebia mais forte no contraste com as luzes da cidade. Eu achava lindo.

Lá pelos anos oitenta, eu costumava passar minhas férias na casa de parentes lá em Minas, onde descansava durante todo o mês. Na volta, quando encarava novamente o burburinho característico de nossa cidade, nos bares, cinemas ou teatros, meu coração se enchia de alegria. Há muito tempo esta cidade já havia se transformado na minha casa...

Depois dos vinte anos de idade, comecei a colher os frutos dos meus anos de luta. Primeiro, as promoções no banco, depois a mudança para o apartamento próprio, lá pelos vinte e cinco anos, o ingresso na universidade, onde me formei em Direito.

Não posso me esquecer de mencionar aqui as viagens por todo o Brasil e até para o exterior, ampliando o meu leque de conhecimentos.

Como numa longa viagem, a vida da gente também passa por períodos de turbulência. Depois dos trinta anos, casei, tempos depois me divorciei, troquei a profissão. De bancário pela a de advogado, arrumei nova companheira e, ainda hoje, sigo a minha vida de lutas, incansável.

Agora, já beirando os cinqüenta anos, posso garantir que já passei por inúmeras emoções, muitas das quais, inclusive, se repetem.

Uma delas, indiscutivelmente, é a emoção da volta. Depois de algum tempo fora, a falta que esta cidade me faz é imensa. O prazer de voltar sempre foi sublime. Ver suas luzes lá de cima quando se chega de avião à noite é gratificante! Saber que conhecemos cada um daqueles pontinhos luminosos, seus mistérios, seus encantos...

Assim como minha família, quantos milhões de seres esta cidade não terá acolhido nestes seus 450 anos, dando-lhes o prumo para a vida?

Portanto, é chegada a hora de cada um de nós procurar retribuir pelo menos uma pequena parte do carinho recebido, tal qual um filho devolvendo à mãe, um pouquinho de tudo aquilo que recebeu. De que forma? Amando e respeitando cada um de seus seres e preservando o local maravilhoso em que vivemos para as gerações futuras!

É assim que me sinto em relação a ti, minha São Paulo querida! Parabéns!!!

Antonio Fernandes, autor de “Fragmentos da Metrópole”, Editora Nativa - São Paulo, 2004.
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Publicado em 07/02/2013 muito linda essa historia eu vivi em sao paulo e tenho muita saudade Enviado por elenuca gadelha - [email protected]
Publicado em 31/01/2008 Então a Pça Ramos tinha mesmo grande qtde de gatos! Minha tia me contou que, quando jovem, ia de trem do Ipiranga (Vl Carioca) até a loja do Mappin e aproveitava para alimentar os gatos que haviam na praça. Sempre achei que fosse imaginação dela, que adora gatos (tem uns 5 em casa). Legal saber disso
Abraços
Enviado por Igor Nitsch - [email protected]
Publicado em 16/04/2007 São Paulo, é uma cidade dos meus sonhos, nunca morei, mais gostaria muito de morar nesta grande megalopole, que a cidade de são paulo, espero que algum dia, possa sair daqui de recife, para morar nesta cidade maravilhosa, um beijo são paulo, o mundo lhe ama, pois você é a nova iorque, do Brasil... Enviado por victor hugo da costa leite - [email protected]
Publicado em 01/04/2007 Emocionante Enviado por Carlos Eduardo Rosenthal - [email protected]
Publicado em 22/03/2007 Prezado Antonio,
parabens pela excelente historia. Sou paulistano, mas atualmente moro no Rio. Sempre soube que amava esta cidade, pois a cada dia descobria coisas nela para a admirá-la, mas agora, no Rio, sei o quanto ela me faz falta. Quando retorno para ver meus familiares e amigos, deve ser o mesmo sentimento quando você retorna e vê as luzes desta cidade, aquela sensação de estar em casa. Se Deus quiser, vou retornar para viver na minha Amada São Paulo.
Grande Abraço,
Paulista (como sou chamado aqui no Rio).
Enviado por FÁBIO WILLIAM T. DE MELO - [email protected]
Publicado em 02/02/2007 qual é o tipo de musica do estado de são paulo fank ou samba?? Enviado por henrique - [email protected]
Publicado em 21/10/2006 a minha história,só muda, os personagens,a origem(RN),minha profissão(economista),essa cidade é mais amada e conservada por nós que chegamos,do que,aqui nasceram. Enviado por umberto fontes - [email protected]
Publicado em 29/09/2006 Antonio, ler seu depoimento levou a viajar por esses anos que ja se foram, mas que ainda deixa muitas saudades, alias saudades deliciosas. Enviado por Marcia Guerra - [email protected]
Publicado em 12/08/2006 oi eu queria saber se vc sabe o nome do pai de victor brecheret Enviado por anacaroline - [email protected]
Publicado em 26/01/2006 Prezado Antonio

Sou paulistano, nasci no Brás, morei no Tatuapé, Moóca, Jardins, trabalhei na Pça da Sé... Ou seja, mais paulistano que eu impossível (rsrsrs).

Investido da autoridade de cidadão paulistano legítimo, sem "autoridade" oficial mas com muita autoridade moral, te declaro cidadão paulistano.

É por gente como vc ter vindo para SP que eu sinto muito orgulho de ser paulistano.

Um abraço concidadão.

Luiz Seman
Enviado por Luiz Seman - [email protected]
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