Leia as Histórias

Categoria - Personagens O Frei cantor José de Guadalupe Mojica em São Paulo Autor(a): Ana Maria Lisbôa Mortari - Conheça esse autor
História publicada em 13/10/2008

Estavam se iniciando as férias de julho do ano de 1950 quando, de mãos dadas com minha mãe, entrei no Convento de São Francisco, em São Paulo, percorrendo o grande corredor lateral à Igreja, que nos levava a uma sala privativa, com cadeiras tipo poltronas de madeira, numa decoração bastante austera, como convinha a um Convento de Frades.

Logo depois de nos instalarmos, entrou uma figura alta, ereta, linda, de olhos verdes, vestida com o hábito marrom dos franciscanos, que, após cumprimentar minha mãe, foi apresentado a mim: Frei José de Guadalupe Mojica.

Minha mãe já havia conhecido o José Mojica antes dele ser frade, em 1937, quando esteve no Brasil e apresentou-se no Cassino da Urca, e também em seu retorno, em 1942.

Eu havia assistido ao filme de sua vida e ouvido muitas de suas árias e músicas, pois minha mãe comprava seus discos de 78 rotações e tocava na rádio-vitrola, como se dizia. Ele tinha uma voz maravilhosa de tenor, porém, me lembro que o olhava com muita curiosidade, pois apesar de conviver com muitos cantores e maestros, era a primeira vez que via um padre que cantava óperas; os outros só cantavam músicas gregorianas e sacras.

Simpaticamente, ele me contou que havia nascido no México, em 1896 (como minha avó), onde começou a sua carreira de tenor de ópera com o extenso nome de Crescenciano Abel Exaltación de la Cruz José de Jesus Mojica Montenegro Chavarria y Romero, mas que era conhecido em todo o mundo apenas por Frei José de Guadalupe Mojica. Convidou-nos, então, para a apresentação especial dele no Museu de Arte de São Paulo.

Sua voz era belíssima, e a simplicidade do frade apagava qualquer vestígio do grande astro de Hollywood que fora antes de entrar para o convento, por convicção, sem o menor desejo de retornar a carreira artística que deixou para trás. Entretanto, ele retornava a São Paulo para apresentar-se, por autorização de seus superiores, num programa de rádio para cantar, e só então havia tomado conhecimento que se apresentaria na inaugurante TV PRF-3 Tupi, num programa experimental, no dia 4 de julho, do Mestre de Cerimônias (assim se chamava os apresentadores) muito mocinho, o J. Silvestre, antes da inauguração oficial da TV no dia 18 de setembro de 1950.

É interessante que esta data foi sempre muito significativa em minha vida, se repetindo por muitas vezes.

O Frei José Mojica cantou acompanhado por um franciscano peruano, o pianista Pacifico Chirino e pela orquestra Tupi. Na inauguração da TV, ele fez um discurso muito bonito, declarando: "Todos os aplausos e todos os prazeres não dão a paz, nem valem o que vale uma hora de serviço ao Cristo"!

Feliz com os resultados da experiência, o Assis Chateaubriand, dono da Rádio Tupi, da TV que estava nascendo - que tantos julgavam ser um ato de loucura, da Revista O Cruzeiro e dos Diários Associados entre outros -, publicou, na manhã seguinte, a noticia do êxito da experiência da televisão, que minha mãe leu em voz alta para eu ouvir e convidou o Frei Mojica para uma segunda apresentação da TV experimental no dia 7 de julho.

Chatô, como era chamado, espalhou monitores de TV nos cruzamentos das ruas 7 de Abril e Bráulio Gomes, para que a população pudesse assistir, pois as pessoas ainda não tinham aparelhos de televisão em casa.

Nessa época, eu circulava direto nesse meio por fazer parte do grupo de arte da Mary Buarque, com seu programa Pequenópolis e do Clube Papai Noel que, logo após a inauguração oficial da TV no dia 18 de setembro, passou a ser apresentado na Rádio Tupi e também na TV aos domingos pela manhã. Por isso, conhecia todo mundo.

O programa televisionado foi realizado no Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, às 17 horas, apresentando o frei cantor, como diziam, para uma seleta platéia convidada. Eu estava lá, com meus pais, e o ouvimos declarar: "Em verdade, nunca pensei que após entrar para a vida religiosa, algum dia voltasse a apresentar-me em atividades radiofônicas, como agora". Nesse dia, eu ganhei uma bela foto dele, sempre vestido de frade, autografada e dedicada a mim com palavras de estímulo e elogios aos meus estudos musicais.

A belíssima voz do Frei José Mojica tornou-o o primeiro tenor da Ópera de Chicago, logo após ter sido apresentado pelo incomparável Caruso. Tornou-se conhecido e famoso cantando clássicos da música popular em seus filmes de galã, como Maria La-Ô e Jura-me, antes de assumir a vida religiosa.

O Frei Mojica, considerado um dos grandes artistas latinos do século, antes de entrar para a vida religiosa, não pretendia retornar à vida artística, mas os frades o autorizaram a voltar a cantar, para arrecadarem fundos para as obras da Igreja, pois ele havia sido o galã mais bem pago de Hollywood nos seus tempos de artista, quando morava com a mãe numa mansão cor-de-rosa, com quadra de tênis e piscina, conforme aparecia nos jornais da época - um luxo bastante incomum.

Apesar do sucesso que atingiu, - pois além da voz belíssima ele era muito bonito, como já disse -, nunca se ouviu falar de farras e namoradas e foi por causa de uma doença da mãe que ele prometeu abandonar tudo e sagrar-se frade.

Contava-se que, em apenas uma turnê, ele arrecadou mais de trezentos mil dólares, com os quais construiu um colégio no Peru! Convicto de sua vocação, costumava declarar: "Eu tive em abundância tudo o que a juventude persegue, por isso digo que todo o ouro do mundo, a fama, o poder, o aplauso e o prazer não equivalem a uma hora a serviço de Deus".

Em 1955, por ocasião da morte de Carmem Miranda, ele esteve no Brasil e fomos à missa rezada por ele. Seus últimos retornos ao Brasil foram em 1964, quando, já casada, o recebemos em casa, sendo apresentado ao meu marido. Ele fez a entronização da residência e, em 1967, quando num jantar em casa de minha mãe, apresentei-lhe meus filhos.

Ele escreveu um livro de sua vida e, ao morrer, em 20 de setembro de 1974, deixou muitos filmes e discos gravados. Nessa data, eu, minha irmã e minha mãe estávamos na Europa e acompanhamos com muita tristeza o noticiário de sua morte, fartamente relatada em todos os jornais dos diversos países.

e-mail do autor: [email protected]

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 28/04/2013 Linda você e uma pessoa privilegiada de ter conhecido este talento bjs. Enviado por Marly Marley - [email protected]
Publicado em 31/03/2013 Trabalhando na TV Record, transmiti, em preto e branco, ao lado do jornalista Murilo Antunes Alves, missa conduzida por Frei Zé Mojica na igreja de São Francisco (SP) Inesquecível. Enviado por josé amaro balbani - [email protected]
Publicado em 19/03/2013 A página deste artista é muito bonita. Todos os pri-mas de sua de leigo reflete como um homem de caráter e retidão e o seu cristão suporta a qualquer debate. Enviado por sebastiiao adail - [email protected]
Publicado em 28/12/2012 Este e-mail é para enviar mensagem do meu pai. Ele mora na Paraíba. E é grande fã do Frei José Mojica. Parabéns pelo seu belo encontro com este grande artista. Enviado por Luiz da Costa Barroso - [email protected]
Publicado em 18/12/2012 assist um filme onde falou-se o nome dele e me interessou muito voces darem uma informação dele melhor.um filme dele. muito obrigado pela atenção de voces. Enviado por delis patricio - [email protected]
Publicado em 10/04/2012 Gostei imensamente o que você relatou; conhecí e recebí a santa comunhão quando êle celebrou uma Missa em Belo Horizonte em 1951, ou 1952. Enviado por Geny rocha de Brito - [email protected]
Publicado em 05/04/2012 Parabens pelo relato,domingo,15/04 rodarei no meu programa ALMA BRASILEIRA, Maria La ô com José Mojica pelos seus 116 anos.Das 8 as 10 hrs acesse o www.centraldoparana.com.br-Obrigado. Enviado por aldo Mikaelli - [email protected]
Publicado em 26/01/2012 Prezada Anamaria, amei o seu relato sobre Frei José Mojica, sempre tive interesse sobre ele, e fiquei satisfeita com seu depoimento !! Enviado por Josefina Siconello Pugliese - [email protected]
Publicado em 26/01/2012 Prezada Anamaria, amei o seu relato sobre Frei José Mojica, sempre tive interesse sobre ele, e fiquei satisfeita com seu depoimento !! Enviado por Josefina Siconello Pugliese - [email protected]
Publicado em 16/01/2012 A hora da saudades. Essa história, me comove. Enviado por jacira - [email protected]