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Categoria - Paisagens e lugares Memórias Marcelinas Autor(a): Ana Maria Lisbôa Mortari - Conheça esse autor
História publicada em 19/05/2008

Em 1958 eu estudava no Colégio Santa Marcelina, no bairro das Perdizes, quando as irmãs Marcelinas adquiriram uma propriedade num local distante, cercado de bosques de eucaliptos e ar puro, para construir uma casa de repouso para as irmãs idosas e convalescentes...
Entretanto, a superiora Irmã Sophia Marchetti, pioneira da fundação das obras Marcelinas no Brasil, vendo a pobreza de Itaquera, desprovida de serviços de saúde, idealizou a construção de um hospital, para atender a população carente da região.
Essa obra de fôlego e coragem, na distante e tranqüila região chamada Itaquera, na época com apenas cerca de 60.000 habitantes, materializou-se do sonho dessa irmã de caridade, como eram chamadas!
A origem do bairro Itaquera – “Ita-Aker”, que em guarani significa "pedra a dormir" – como núcleo residencial data de 1890, quando o Dr. Rodrigo Pereira Barreto trocou sua fazenda de Ribeirão Preto e Sertãozinho pelas terras em Itaquera, e o Dr. Francisco Gentil de Assis Moura, juiz comissário da capital, adquiriu as terras de Geraldo Marcondes de Abreu, mediante procuração em causa própria, terras essas que atualmente correspondem as Vila Santana e Vila Cristinópolis.
Para possibilitar a realização do Hospital, as irmãs acionaram todas as famílias da região de Perdizes, Pacaembu e adjacências, além das famílias de suas inúmeras alunas, montando um grande mutirão gerador das necessidades financeiras e materiais que surgiam a cada momento.
Eu participei de inúmeras rifas, sorteios, doações e quermesses na chácara do Colégio, que foram feitas sempre com o intuito de arrecadar fundos para a construção do hospital.
Eu não levava o menor jeito para vender as rifas, portanto papai comprava os bloquinhos que recebíamos e eu levava o dinheiro das rifas para o Colégio.
Fizemos vários piqueniques com as irmãs, indo de ônibus escolar do Colégio nas Perdizes até Itaquera, para conhecermos o local e depois para vermos as diferentes etapas da construção, todas contagiadas pelo sucesso da futura obra. Era uma viagem.
Recordo-me das diversas irmãs empenhadas e cada uma se auto cobrava pela participação e empenho na realização do Hospital.
Pais de alunas cuja profissão podiam colaborar de alguma forma se ofereciam para ajudar.
Assim, com a sensação de que todas nós éramos parte daquele projeto, assistimos no dia 5 de agosto de 1961, depois de apenas três anos de trabalho, a inauguração do “Hospital Santa Marcelina”, com a presença de diversas autoridades e do bispo Dom Paulo Rolim Loureiro.
Alguns pais fizeram doações diferenciadas, como o senhor José Cardamone, pai da minha amiga Maria Eugenia, que doou uma cama cirúrgica para o hospital!
Em 1961 a superiora Sophia transferiu-se para Itaquera, a fim de cuidar de perto da sua obra.
O hospital começou com 150 leitos, um pequeno laboratório de análises clínicas, uma sala de radiologia, duas salas de cirurgia, uma sala de parto e duas de emergência.
Para seu funcionamento, contava na ocasião com um corpo clínico de 7 médicos e 30 funcionários, ajudados pelas irmãs e dirigidos pela incansável diretora e fundadora Ir. Sophia Marchetti para atender àquela população.
Papai, como médico, recebia na época muitas amostras de remédios, além das que ele pedia aos laboratórios para enviar ao hospital e eu semanalmente levava para a Irmã Aparecida, minha mestra de classe e superintendente do ginásio, vários sacos de amostras diversas de remédios, para serem encaminhadas para o Hospital.
Entretanto, o crescimento acelerado da cidade, a migração em massa, transformaram Itaquera e vizinhanças num dos bairros de grande e desordenada expansão; Surgiram as COHABs e a pacata Itaquera atingiu cerca de 700.000 habitantes e a região 3.500.000!
O Hospital cresceu e tornou-se referência para a população local, além de praticar intensificada campanha de combate ao mosquito da dengue, junto a toda gama de atendimento médico-hospitalar. Porém, esses equipamentos e programas ainda são insuficientes e não conseguem atender a incomensurável demanda.
Profissionais especializados em número reduzido (psicólogos, psiquiatras, neurologistas, endocrinologistas, cardiologistas e outras áreas afins) e a falta de equipamentos mais modernos, muitas vezes os impedem de realizar o trabalho com a dedicação que gostariam.
Infelizmente o quadro da saúde atual, com a mortalidade infantil de 14,52 a cada mil nascidos vivos; a materna de 44,72 a cada cem mil nascidos vivos exaurem as Irmãs e as equipes no intuito de conseguirem atender ao que elas se propuseram.
As principais causas da morte da população itaquerense são: doenças do coração, doenças cerebrovasculares, homicídios, pneumonias, doenças respiratórias. E o trabalho cresceu muito além do previsto.
Foi fundada também a Escola de Enfermagem e a Biblioteca Ir. Sophia Marchetti, que funciona desde 1999, direcionada às áreas de saúde, administração e radiologia, além de atender aos cursos técnicos, tecnólogos, de graduação e de especializações do programa de pós-graduação, inclusive na modalidade de residência multiprofissional.
A Casa de Saúde Santa Marcelina está situada na Rua Santa Marcelina, 177, em Itaquera, como o símbolo da realização, esforço e dedicação das Irmãs Marcelinas, de suas alunas e familiares além das diversas famílias da região de Perdizes e Pacaembu que se empenharam e colaboraram na realização desta realidade, chamada Hospital Santa Marcelina de Itaquera.

e-mail da autora: [email protected]

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Publicado em 15/06/2008 Acabo de presenciar aqui o embate entre Ana Maria e Mauro e me atrevo a dizer que provavelmente ambos sejam de uma sinceridade louvável. Ana Maria jamais presenciou, das acéticas instalações que freqüentava, quaisquer ações condenáveis que relata Mauro. Mas ele ao reafirmar suas informações transcreve sua boa fé. Mas, o engraçado é que eu, naquele momento em que li a réplica de Ana Maria, pude compreender cada lado da história, talvez por uma pura casualidade de ter lido, nesta manhã um trecho do romance O Cortiço. Hoje me deparei com a clareza do autor descrevendo a vida do cortiço com suas mulheres sofridas e seus homens infelizes que saiam diariamente para uma peregrinação cansativa de trazer uns trocados para casa, enquanto uma família abastada que morava ao lado tomava seu café, sem se dar conta do sofrimento que assolava os vizinhos. O autor revela esta distância apenas nomeando aquelas pessoas de "seres felizes".
Esta aparente distância entre esses mundos, no entanto, muitas vezes é percebida e captada. E foi, seguramente isso o que aconteceu com Mauro.
Enviado por roxana filetti - [email protected]
Publicado em 12/06/2008 Apesar das dificuldades, como os baixos preços pago pelo SUDS aos procedimentos médicos, o Hospital Santa Marcelina é uma realidade, no atendimento da população carente de Itaquera. A prima de minha esposa é médica onde trabalha há mais de 10 anos. Enviado por Nivaldo - [email protected]
Publicado em 12/06/2008 Ana,
Estudei na escola primária nessa época de 61 a 64. Presenciei tudo lá dentro, onde a janela do internad]to não alcançava.
No lado Cardoso de Almeida era vistos possantes e reluzentes automóveis dirigidos por motoristas particulares a buscar as alunas do colégio e internato. Na parte gratuíta o cenário era outro. Naquela época, inlusive por força do regime instaurado ninguém iria se atrever fazer tal denúncia. Mas acredite se quiser. Algumas "irmãs" eram verdadeiramente assombrosas. Cito nominalmente algumas delas, principalemte a que tinha um diastema enorme nos dentes, a Irmã Palmira, e a irmâ Úrsula, de semblante condizente a Auschwitz nos idos de 63 e 64.
Talvez pela clausura os recalques das dessas mulheres com pouquíssima vocação para o Magistério Elementar sempre se manisfestavam na parte mais fraca: Os alunos do serviço gratuíto.
As "freirinhas" em algumas ações pareciam que estavam a serviço da Gestapo. Eu mesmo presenciei muitas humilhações públicas como arrancar com violência o "quadro de honra", aquela medalhinha com uma estrelinha na ponta e uma fita verde-amarela, caso algum dever ou ato de indisciplina se manisfestasse. Tapas, socos, pontapés sem qualquer contato ou respeito com nada.
Imagino que sequelas comportamentais possam ter se manifestado ao longo dos anos nos alunos que sofreram essa violência. Eu mesmo fui confundido com um "trangressor" e tive todo meu material jogado na rua Alberto Torres e chutado para fora como se fora um ataque de "head skins".
Tenha certeza que se isso tivesse ocorrido no setor que voce teve a felicidade de estudar a história teria sido diferente.
Infelizmente foi assim.
Enviado por Mauro Lima de Souza - [email protected]
Publicado em 10/06/2008 Mauro, não sei baseado em que você fez estas afirmações, pois estudei muitos anos lá, minha classe durante um ano dava as janelas para o lado da Rua Alberto Torres, onde era o páteo e as janelas das salas de aula do Santo Ambrósio, e podiamos ver o que ocorria ali. A dedicação das irmãs sempre foram notórias e, se hoje existisse ainda esse trabalho de educação que elas praticaram durante tantos anos, tenho certeza que muita criança teria saido das ruas e das drogas e teriam se encaminhado na vida.
Elas sempre foram muito rigorosas na educação isso com TODAS as alunas, fossem quem fossem, mas, daí a chama-las de sanguinárias ou dizer que elas maltratassem crianças jamais. Tanto se preocuparam com os necessitados que a parte de caridade tanto no ensino gratuito quanto na construção do Hospital de Itaquera, foram dedicados à eles. E do rigor da educação que graças a Deus recebi delas, tenho a dizer que é o que falta na juventude atual: limites.
Pois as pessoas que foram educadas com rigor, de comportamento, polidez e ordem, que incluia cabelos penteados, sapatos engraxados, unhas cortadas e limpas, e uniforme impecavel para se entrar no colégio, ao assumirmos a vida adulta, sabemos dosar as coisas em qualquer ambiente e na educação sem limites voce cria desajustados incapazes de se portar devidamente em qualquer lugar, como estamos cansados de ver nos dias de hoje.
As blusas de mangas compridas brancas e as luvas brancas dos nossos uniformes, saiam do colégio impecáveis como entraram, pois as carteiras, o chão e tudo era absolutamente limpo e brilhante, como até hoje, nem sequer marcavam as nossas mangas.Tenho muita saudade de tudo que vivenciei lá, e senti muita diferença ao encarar a Faculdade, onde muito desses bons hábitos não eram lugar comum.
Para quem quiser conhecer e checar tudo ou mais do que citei, incluindo o magnífico edifício de estilo gótico lombardo onde ele até hoje, está instalado, vale a pena, e poderão formar uma correta opinião pessoal sobre elas.
Enviado por Ana Maria Lisbôa Mortari - [email protected]
Publicado em 30/05/2008 As "marcelinas" nessa época mantinham na Rua Alberto Torres (nos fundos do colégio) um serviço gratuíto de escola primária. As inocentes freirinhas eram "terriveis sanguinárias". Por qualquer motivo espanacavam sem dó ou piedade qualquer aluno (de classe baixa) de quem sua fisionomia, atitude suspeita ou juízo precipitado as desafiassem. Se isso isso exitisse nos dias de hoje, provavelmente o colégio seria interditado pela Anistia Intercional. Enviado por Mauro Souza - [email protected]
Publicado em 21/05/2008 Encantador painel de realizações, Mortari, mostrando o esforço e dedicação de um grupo de pessoas voltadas ao bem comum, destacando-se a presença da incansável Irmã Sophia Marchetti. Em outro texto seu perguntei se v. é parente do Claudio Mortari, antigo técnico de basquete,aqui do nosso clube, v. não disse nada. Texto muito edificante.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 19/05/2008 Lindo relato de história que se perde diante do crescimento de uma população principalmente de migrantes que trazem pouco de sua história e não estão nem um pouco interessados na história do lugar que os acolhe, e isso nem é por descaso mas por pura falta de tempo em acomodar seus interiores e descobrir exteriores tão importantes.
Maravilhei com seu jeito de contar, com suas lembranças e o fato de ter convivido com pessoas tão generosas e decididas.
Me emociona saber que essa casa foi construida com tanta determinação.
Sinto muita pena que nos dias de hoje são poucas as pessoas que exalam generosidade e coragem.
Parabéns por ter participado de tão grande obra e parabéns pelo pai e orientadores que teve.
Um grande abraço.
Deus te ilumine.
MC
Enviado por mary clair peron - [email protected]
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