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Categoria - Paisagens e lugares Duas vezes oriental Autor(a): Arnaldo Martinez Capel - Conheça esse autor
História publicada em 14/03/2008
Meu primeiro emprego, aos 15 anos, foi num escritório na Rua 25 de Março. Na época, aquela região era um reduto do comércio têxtil, encabeçado por empresários sírio-libaneses. Havia, pois, uma atmosfera árabe em quase tudo ali. A firma que me contratou como office-boy não era exceção. Em meus serviços externos eu procurava conciliar trabalho e passeio, sem detrimento do primeiro. Meus primeiros contatos com algumas coisas do mundo árabe foram fruto das minhas andanças pelas ruas da região. Esfiha aberta e quibe cru eu comi pela primeira vez na Brasserie Victoria. Música e objetos árabes eu ouvi e vi numa pequena loja na antiga Rua Santo André, e no Empório Syrio, que existe até hoje, eu comprava algumas guloseimas das mil e uma noites. Nas portas das lojas, nas calçadas ou em algum bar ouvia-se quase tanto o árabe quanto o português. Os nomes de algumas ruas contribuíam com esse ambiente: Rua Cavalheiro Basílio Jafet, Rua Comendador Assad Abdalla, entre outras. Numa época em que nem se sonhava com computadores pessoais e muito menos com internet, eu viajava através dos sons, aromas, sabores e cores que me chegavam aos sentidos. Somando-se a tudo isso, minha imaginação era o meu tapete mágico.
Adulto, fui para o interior de São Paulo, onde vivi 20 anos aproximadamente, e, durante esse período, poucas vezes vim à capital, da qual eu estava distante 600 quilômetros.
Aos poucos, algumas regiões da grande metrópole ganharam fama no interior, por causa do seu comércio próspero, competitivo e variado. A 25 de Março era, obviamente, uma dessas regiões. Logo começaram a partir excursões de todos os cantos do estado, com destino a São Paulo, para onde retornei no início de 2005. Fui então rever o pedacinho árabe, encravado no centro.
Que surpresa! Não posso negar que me entristeci a princípio, ao constatar que a 25 de Março e as ruas adjacentes haviam mudado de feição. Que sensação estranha: era como se todos aqueles momentos que eu vivi ali, na minha adolescência, tivessem sido apenas fruto da minha imaginação! Caminhando lentamente reencontrei, em meio ao efervescente comércio informal que se instalara, alguns pontos de outrora. E, para minha alegria, não eram tão poucos. Contudo, o árabe já não era tão ouvido como antes. Aqui e ali e principalmente nas galerias, ouvia-se o chinês, e os seus falantes eram a maioria dos proprietários das lojas dos mais diversos ramos. Eletrônicos, roupas, calçados, perfumes e até comida.
Como que com um sopro, a tênue sombra nostálgica que se aproximara de mim deu lugar a uma alegria que chegou paulatinamente, mas para ficar, quando percebi que, na renovação inevitável das coisas, dos lugares e dos costumes, a região da 25 de Março havia se tornado oriental pela segunda vez. Salim e Chan, agora, trabalhando lado a lado, cada qual com suas singularidades, numa cidade que dá oportunidade a todos. Essa é São Paulo. Essa é a minha cidade.

"Na vida só existem dois valores absolutos: o amor e o trabalho" (Cora Coralina)

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Publicado em 03/06/2009 Bom dia Achei sua materia muito intessant eram historias q meu pai me contava, hoje preciso d sua ajuda como a da rosalva meu está indo aposentar e precisa comprovar o tempo q trabalhou nas Casas Burí se tiver uma forma de me ajudar ficarei muito agradecido.Um abraço Enviado por HUSTON SCHWARTEZ SOUZA - [email protected]
Publicado em 17/11/2008 ARNALDO, TAMBÉM QUANDO TINHA 15 ANOS TRABALHEI NA LOJA DAS CASAS BURI, NA RUA SANTO ANDRÉ, EU TAMBÉM ME LEMBRO COM SAUDADES E CERTA NOSTALGIA DAQUELE PEDAÇO DA CIDADE E TUDO O QUE VOCE COMENTA NA MATÉRIA ME TRANSPORTOU ÀQUELA ÉPOCA, OS SONS, OS AROMAS E ESPECIALMENTE AS ESFIHAS DAQUELE LUGAR ERAM ALGO MÁGICO. MAS, NA VERDADE MESMO EU TOMEI A LIBERDADE DE ECREVER PARA LHE PEDIR AJUDA. É QUE EU JÁ MORO NO INTERIOR DE SÃO PAULO HÁ ANOS E JÁ ESTOU EM IDADE DE PEDIR APOSENTADORIA E COMO PERDI A MINHA CARTEIRA PROFISSIONAL DE MENOR, ONDE CONSTAVA O REGISTRO DA BURI, DECIDI PESQUISAR NA NET PARA ENTRAR EM CONTATO COM ELES E PEDIR CÓPIA DO MEU REGISTRO DE EMPREGADO, PORÉM NÁO CONSIGO ENCONTRAR UMA PISTA, NEM ENDEREÇO OU FONE DESSA EMPRESA, NEM MESMO SEI SE AINDA EXISTE. ENTÃO, SE PUDER E SE SOUBER ALGO QUE POSSA ME AJUDAR A EU ENTRAR EM CONTATO COM ELES, EU LHE PEÇO, POR FAVOR ME INFORME POR E-MAIL. ok? MUITO OBRIGADA E PARABÉNS PELA SUA MATÉRIA. Enviado por ROSA MENDES VALSANI - [email protected]
Publicado em 24/03/2008 Mirça de fato o Paco e a Vitoria estão no Itaim...todavia não são mais os mesmos, inclusive a comida...já é bem diferente! Agradeço o carinho.
Um abraço
Enviado por marciaovando - [email protected]
Publicado em 19/03/2008 Marcia, o Paco, como a Vitória, estão hoje no Itaim. Abraços. Mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - [email protected]
Publicado em 17/03/2008 Arnaldo, nasci, cresci e viví bem próximo a 25. Seu relato, exato, me fez lembrar antigos amigos libaneses que, devido a proximidade com a colonia italiana do mercado e da Sta. Rosa, a inevitável mescla ocorria, com resquícios permanentes. Agora acontece o mesmo com chineses, coreanos, árabes, lituanos, gregos, africanos e... brasileiros. Isso é São Paulo, a mais legítima metrópole cosmopolita do mundo. Parabens.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - [email protected]
Publicado em 17/03/2008 Arnaldo
Também aos 15 anos trabalhei no escritório das Casas Buri e a matríz era na Rua Santo André. Estive lá muitas vezes resolvendo problemas de estoque. Lembro-me perfeitamente de tudo que você relatou. Alí era um verdadeiro mundo Árabe. Hoje é tudo chinês.E atualmente eles estão muito além da 25 de Março,né?
Bernadete
Enviado por Bernadete P Souza - [email protected]
Publicado em 17/03/2008 Acho que a 25 está mais mesmo ainda mais oriental: quase toda chinesa e coreana ! Enviado por Luiz S. Saidenberg - [email protected]
Publicado em 16/03/2008 aRNALDO, TAMBÉM VIVI ESTA 25 DE MARÇO DAS SUAS SAUDADES. iA ANDAR POR ELA EM BUSCA DE TECIDOS BONITOS, RENDAS E ENFEITES PARA OS VESTIDOS QUE EU MESMA CONFECCIONAVA PARA IR AOS BAILES DOS ANOS DOURADOS. E DEPOIS DA COMPRA, ÓBVIO, COMER AS GOSTOSAS ESFIRRAS, QUIBES E HALAWS. Enviado por Ivette Gomes Moreira - [email protected]
Publicado em 16/03/2008 Arnaldo foi com imenso prazer que lí seu relato e cheguei a vivenciar aquilo que você contou. Meu pai foi um próspero comerciante da 25 e pena o nosso convívio com ele foi curto. A Brasserie continua a existir na Jucelino no Itaim. São as melhores esfihas de massa folhada que já comí, e o patê de pimentão com nozes são incomparáveis. A 25 de março pertencia aos árabes, mas nas imediações, os orientais eram japoneses - donos do comércio atacadista de secos e molhados. Um abraço. Mirça Enviado por Mirça bludeni de Pinho - [email protected]
Publicado em 15/03/2008 Arnaldo, vivi aquela região com muita intensidade, meu pai e meu tio trabalhavam por lá
Algumas coisas de outrora ainda existem, tal como o Emporio Sírio, o Forninho, mas o Almanara da Rua Santoi André e a Bresserie Victória da 25 de Março deram lugar para lojas coreanas ou coisa que o valkha.
Que pena!
Enviado por Miguel - [email protected]
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