Eu estava sentado ao lado dela. Ela olhava pela janela sem dar tratos ao redor. O trólebus seguia macio em direção à Santana. Era linda, cabelos escuros. Jovem, sem um pingo de maquilagem. Sua beleza não exigia nada. Tinha livros escolares em seu colo. Tomei coragem e puxei conversa. Ela sorriu. Seus dentes, lábios, nariz, olhos, tudo perfeito.<br><br>Eu morava na Rua da Aviação 53 que ficara para trás, pois já estávamos subindo a Rua Alfredo Pujol. Eu não queria encerrar aquele papo descontraído e delicioso sem ajustar uma continuidade. Ela fez sinal que deveria descer e eu fui junto. Conversamos mais alguns minutos e marcamos um encontro. Ela morava em um sobrado na Rua Marechal Hermes da Fonseca, 465. Deixou-me com um largo sorriso.<br><br>Que corpo, que andar, que pernas. Fiquei ali parado na esquina até perdê-la de vista. Deveria voltar para casa e tomar um trólebus de volta, mas comecei a caminhar pensando nela. Era uma longa caminhada, mas minha cabeça não tinha espaço para nenhuma outra coisa e minhas pernas seguiam em ritmo lento. Nos dias em que seguirão nos encontramos mais vezes. Seu nome era Marilena, Marilena Inácio Jorge: <br>-“Anthony, quero que você venha a minha casa. Vai ser divertido! Você vai tocar e eu vou cantar”.<br><br>E assim foi. Sua mãe era professora primaria e seu pai ourives. Tinha ainda uma irmã menor, a Teresinha. Ficaram contentes em me conhecer. Sua mãe também tocava piano, mas era muito acanhada com o instrumento. Nos dias que se foram, descobri que Marilena não era só naturalmente linda, mas tinha uma voz com a qual podia fazer inveja ás melhores cantoras do momento:<br>- “Anthony, você já ouviu falar em uma cantora peruana, seu nome é Yma Sumac”.<br><br>Soube que Yma Sumac tinha a qualidade sonora de barítono a soprano. Ela poderia ir acima de quatro oitavas (comparável de 123 á 2270 Hz). Pois bem, pasmem, mas a Marilena conseguia o mesmo com sua voz! Fiquei impressionado. Ela gostava de cantar canções espanholas, e para mim eram fáceis de acompanhar ao piano. Marilena aprendera tocar castanholas e alguns passos de "Dança Flamenca" com sua vizinha ao lado, uma jovem espanhola que, profissionalmente, ganhava algum dinheiro dançando no "Recreio Chácara Souza”, não longe dali, na Avenida da Cantareira. Umas das preferidas era "El Beso" uma tradicional canção espanhola, que Marilena dominava com sua voz e pronúncia, e também com sapateados flamenco. Tinha um vestido rodado que era feito especialmente para aquela interpretação. O meu acompanhamento era mais um martelado de notas, mas que para fazia sucesso. Fazíamos uma dupla perfeita. Porém, tudo aquilo permanecia no anonimato. Ninguém sabia daquele nosso "sucesso" além de os “de casa”.<br><br>De quando em quando, ouvíamos rádio. Em uma noite estava no ar um programa de calouros chamado "A Hora do Pato" na Rádio Nacional. Demos risada, mas seu pai saiu-se com esta:<br>- “Que tal vocês dois irem nesse concurso de calouros?”<br> A idéia perambulou pelas nossas cabeças algum tempo:<br>- “Sim, vamos fazer isso. Vamos nos inscrever nesse programa e ver no que dá”.<br><br>O entusiasmo foi contagiante. Sua mãe estava certa do nosso êxito. Marilena e eu não poderíamos negligenciar com os estudos, afinal a escola era mais importante do que tocar e cantar. Mas arranjamos tempo e fomos à Rádio Nacional, na Rua das Palmeiras. Fizemos a inscrição. Deveríamos passar por um pequeno teste que foi bastante simples. O contrarregra gostou e deveríamos nos apresentar em um domingo.<br><br>Eu acredito que o contrarregra era o senhor Luciano Galegari. Se eu soubesse que um dia eu fosse escrever sobre tudo isso eu teria tido papel e lápis naquela época. Portanto, alguns nomes podem escapar ao certo. Deveríamos chegar cedo. Marilena, vestida com aquele vestido rodado, pouco batom nos lábios e castanholas em punho. Eu, de terno e gravata é claro. Já na coxia, podíamos escutar o burburinho vindo do auditório repleto naquele domingo:<br>- “É normal tanta gente assim?”.<br>- “Não, é que hoje, logo após a "Hora do Pato" o Lucho Gatica vai se apresentar”.<br>- “Uau! O Lucho Gatica”.<br><br>O programa começou. Vários candidatos se apresentaram:<br>- “Você esta nervosa?”<br>- “Anthony, nós já cansamos de ensaiar essa música em casa. Vamos fazer a mesma<br>coisa, como se estivéssemos lá na sala de casa”.<br><br>E assim foi. O apresentador chamou os nossos nomes. Entramos no palco. Ganhamos um aplauso extra pela vestimenta e aparência da Marilena. Sentei-me ao piano. Ela chegou ao meio do palco. O público quieto e contemplativo. Deram o sinal para o início da nossa apresentação. Nos primeiros acordes, Marilena mostrou tudo o que sabia. Cantou como nunca. O sapatear acompanhava o estalar das castanholas. O rodar da saia davam mostras de suas pernas perfeitas. Quando terminamos, o auditório veio a baixo. O público aplaudia em pé, com vigor, com assobios. Davam mostras que queriam mais. A cortina se fechou e o auditório se acalmou.<br><br>O nosso grande sucesso deu-se pelo fato de que o público ali viera para assistir um cantor famoso de "boleros" de fala latina e a Marilena foi perfeita para aquela gente. Fomos informados que havíamos ganhado o concurso naquela noite:<br>- “Parabéns, parabéns” – era o que todos nos diziam.<br><br>Fomos informados que o senhor Dermival Costa Lima, encarregado da emissora, iria nos receber no dia seguinte. <br><br>Eufóricos, fomos para casa contar as boas novas. Nossos pais ouviram o programa e vibraram com a nossa vitoria. No dia seguinte fomos direto falar com o senhor Dermival. Ele nos recebeu em sua sala juntamente com sua esposa, a senhora Sarita Campos. Éramos todos sorrisos. Sem perder muito tempo, ele nos deu os parabéns e ofereceu um trabalho para a Marilena com um contrato de 3.000 cruzeiros:<br>- “Anthony, infelizmente, nós temos pianista e eu temo não poder contratá-lo também”.<br><br>Para mim foi um alívio, pois não poderia aceitar de qualquer forma. Meus estudos eram mais importantes.<br><br> Sem muita perda de tempo, fomos encaminhados para o Silvio Santos. Ele organizava um "show" chamado "A Ronda dos Bairros". Ele era também o locutor do programa "Manuel da Nóbrega". Como o Silvio Santos tinha um tom de pele muito clara, ficava vermelho com facilidade; por falar bastante, começou a ser apelidado de "peru que fala". As caravanas do Peru falante ficaram conhecidas na capital de São Paulo, em cidades do interior e em outros estados.<br><br>O Silvio iria aproveitá-la para seu espetáculos:<br>- “Como é seu nome?”<br>- “Marilena”.<br>- “Só Marilena?”.<br>- “Oh não, Marilena Inácio Jorge” – Silvio esboçou um sorriso acompanhado de um:<br>- “Hum… Deixe-me ver. Você canta bem, tem uma figura interessante, mas não é conhecida. Necessitamos de um nome artístico” – com o dedo indicador nos lábios ele mais do que depressa soltou: <br>- “Já sei. Lena, Lena Garcia que tal?”<br><br>Eu segurei meu riso, mas Marilena nem pestanejou:<br>- “Sim, sim Lena Garcia é legal”.<br><br>Dali nasceu a nova contratada da Rádio Nacional: Lena Garcia.<br><br>Como encarregado da Ronda dos Bairros, Silvio escolhia os artistas. Instalavam os selecionados dentro de um ônibus alugado e seguíamos para um cinema ou um circo previamente avisados para o show. Quase sempre, para acompanhar os cantores (as) o Regional do Rago era o escolhido. Eu seguia junto para fazer companhia a "Lena Garcia". Tive a oportunidade de conhecer, nessas rápidas viagens, Venâncio e Corumbá, Sollon Sales (O Seresteiro da Paulicéa), Alda (Aldinha) Perdigão, Barbara Ardanuy, Vilma Bentivegna, Roberto Luna, Francisco Egidio e tantos outros que escapam seus nomes.<br><br>Tudo era muito divertido, mas eu passei a negligenciar meus estudo na escola. Enquanto a Lena Garcia ensaia aqui ou acolá, eu gostava de ver os "Demônios da Garoa" ensaiando. Eles ocupavam uma das pequenas salas acústicas e eu ficava ali dentro, ouvindo. Um dos seus componentes, Toninho Gomes, apelidado de "botina" (não sei o motivo) era muito falante e simpático. Um dia voltou-se para mim e perguntou-me:<br>- “Você canta?”<br>- “Eu? Não”.<br>- “Sorte sua”.<br><br>Eu nunca soube o que ele quis dizer com isso.<br><br>O Betinho e seu conjunto algumas vezes apareciam por lá. O "Bolão", seu saxofonista, era uma atração extra. Uma vez, a Lena foi convidada para cantar com eles na boate do Hotel Excelsior, que ficava no último andar do hotel. Eu gostava de assistir aos ensaios dos cantores (as) com a orquestra. As vezes do Osmar Milani e as vezes com o Maestro Gaó.<br><br> Por falar em Gaó, a Lena de disse que havia um “zum-zum-zum” de que a Hebe estaria tendo um caso com o Maestro. Disse-me ela que um dia ela viu a filha do Gaó discutindo com ele. O pessoal dizia que a coisas estava ficando feia e a filha do Gaó estaria pedindo "um basta" naquela situação.<br><br>Eu via todos e cumprimentava quase todos eles, mas eu nunca tive a oportunidade de dizer um “alô” para a senhora Hebe Camargo. Ela sempre passava ao lado. Ela era jovem e sempre sorridente mostrando suas duas covinhas. Suas sobrancelhas eram escuras e fartas, quase tocando uma na outra no centro do nariz. De qualquer forma, era atraente. Nesses ensaios com a orquestra, seu pai, o senhor Sigesfredo Monteiro de Camargo (carinhosamente apelidado de "feguinho"), quase sempre se sentava na primeira fila. Conversei com ele uma única vez. Ele era amável e sorridente.<br><br>Antes de a Hebe tornar-se a "Estrelinha de São Paulo" ela e sua irmã Estela começaram a carreira formando uma dupla chamada Rosalinda e Florisbela. A Lena disse-me também que a Hebe tinha outra irmã que trabalhava em um bar na esquina da Rua das Palmeiras, não longe da rádio. Eu acho que o seu nome era Francisca.<br><br>Eu percebi que a Hebe tinha livre tráfego na emissora. Ela era muito amiga da esposa do senhor Dermival e isso, me parece, lhe proporcionava liberdade. Eu estava perto da saída do prédio esperando pela Lena acabar seu ensaio quando a vi caminhando as pressas em minha direção. Ela me fez lembrar um touro miura em ataque ao toureador. Passou por mim sem parar agarrando-me pelo braço. Já estávamos na rua:<br>- “Marilena, calma o que aconteceu?” – ela estava esbaforida, tremula. <br>- “Veja, eu fui buscar uma partitura para cantar acompanhada pela orquestra. Já com a partitura na mão, fui em direção ao palco para dar a partitura aos músicos. Ai, muito antes de eu chegar lá a Hebe me parou, tirou a partitura da minha mão e disse que eu não poderia usar umas das suas músicas”.<br>- “E dai?”<br>- “Dai eu perguntei o motivo e ela respondeu que aquela orquestração foi feita especialmente para ela pelo Maestro Gaó. Ai o meu sangue subiu pela minha cabeça e perguntei para ela se era preciso me sentar no colo do maestro para conseguir a mesma coisa. A Hebe me segurou pelo braço e disse: “Escute aqui sua fedelha”. Ninguém vai me chamar de fedelha e antes que ela pudesse terminar de falar dei-lhe um bofetada na cara”.<br>- “Você fez o quê?”<br>- “Foi isso que você ouviu, dei-lhe um bofete na bochecha”.<br>- “Marilena, eu não acredito”.<br>- “Pois acredite. Você sabe que eu não minto”.<br><br>Eu comecei a rir imaginando aquele cena de novela acontecendo ali com a Hebe Camargo.<br>- “E ai conte-me o final?”<br>- “O final é que eu fui despedida. Eu já estava me enchendo de cantar sempre a mesma coisa, pois eles não me permitiam ir para cima. Anthony vamos para casa. Nós em casa fazemos o nosso sucesso sem ninguém a nos controlar. Falô bicho”.<br><br>A carreira da "Lena Garcia" acabara ali. Eu voltei a me dedicar completamente aos meus estudos o que foi unânime agrado em casa. Nunca mais vi a Marilena Inácio Jorge. Mais tarde, soube que ela havia se casado com um japonês e ido morar no Japão.<br><br><br>E-mail: [email protected]