Gordinho comilão

Morava em Pinheiros na Rua Borba Gato, hoje Virgílio Carvalho Pinto, entre a Teodoro Sampaio e a Cardeal Arco Verde. Ficava próximo ao final do muro do Cemitério São Paulo. Frequentávamos a Igreja do Calvário, onde fui batizado.

Desde já, me declaro culpado: sou o protagonista que leva o título dessa história. Moleque bom de garfo que sempre ao final das refeições perguntava à mãe "Posso comer o restinho da salada?". Ou então, "Posso pegar o bife que sobrou?". Não eram poucas as vezes em que meu pai me passava uma bronca pelo fato de eu estar crescendo bem mais para os lados do que para cima.

Em São Paulo, no ano de 1960, meu pai trabalhava para uma empresa de Engenharia Civil e precisou viajar para Campinas com um cliente no meio da semana. Algum contratempo em casa fez com que eu fosse viajar junto de meu pai e isto visivelmente o contrariou. O pirralho tagarela não parava de apontar; apontava as vaquinhas, os rios e os caminhões. E meu pai só olhando feio, pois eu, a cada momento, interrompia a sua conversa. O cliente parecia muito simpático e sempre dizia, "Ah, deixa o menino".

Viajamos pela rodovia Anhanguera e os quilômetros finais foram muito lentos, pois estavam terminando a sua duplicação no trecho próximo a Campinas. Após cumprir alguns compromissos naquela cidade, fomos até um restaurante no centro. Nos almoços de negócios, o esquema é de jogo rápido para não perder o dia. Só que o gordinho aqui não parava de comer e meu pai, já desesperado, esticou a perna e meu deu um leve cutucão com o pé por baixo da mesa. Estava eu tão desligado e desempenhando o ofício que sabia que achei aquilo casual. Nem liguei.

Então, recebi um segundo aviso bem mais forte e dolorido, ao que reclamei prontamente: "Pai, o senhor está me cutucaaando!". E o cliente logo veio em meu socorro: "Deixa o menino comer, nós ainda temos tempo." Quando levantei os olhos do prato e vi a expressão de meu pai, tive a certeza de que aquela viagem ia render vários dias de castigo…

Nem pedi sobremesa, sabia o risco que estava correndo. Meu pai cumpria o que prometia, para o bem ou para o mal. Cheguei a casa dormindo e escapei do corretivo naquele momento.

E a frase do "cutucaaando" virou folclore familiar.

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