É engraçado como certas coisas tem cheiro característico e definido, por exemplo: a goiaba! A goiaba tem cheiro de infância… Tem o cheiro da vila… Da velha vila da Rua da Ponte, hoje mais sofisticada: Clodomiro Amazonas, lá no Itaim Bibi. Aliás, Rua da Ponte, 67, casa 2.<br><br>A vila ainda existe… Passo em frente a ela, mas hoje ela não tem mais a marca da liberdade da minha infância! Mas… Goiaba tem cheiro de infância!<br><br>Tem cheiro da vila e do Taize… Um grande cachorrão preto, mistura de lobo e de pastor alemão e que adorava brincar com o Mike, um lindo coelhinho todinho branco, criado dentro de casa, e que dormia no meu quarto, na maioria das vezes, escondido da minha mãe. Taize era o terror da vila!<br><br>Quando pessoas estranhas entravam na nossa vila, mamãe só soltava o Taize: era uma debandada geral, e a gente vivia ali na maior tranquilidade.<br><br>Ao final, Taize começou a ficar violento e mamãe, já um pouco cansada pelos problemas da vida, levou o Taize para a chácara do Dr. Osmar e Dona Julinha, lá em Osasco, onde provavelmente ele viveu com muita liberdade, até o final de seus dias. Ah! Mike morreu, em razão de um mau jeito no pescoço com uma de suas brincadeiras com Taize.<br><br>Mas, goiaba tem cheiro de infância! Tem cheiro da Dona Miquelina, que fazia point-a-jour em sua velha máquina, e com ela sustentava sua família!<br><br>Tem cheiro do Seu Valter, meio maluco, que adorava hipnotizar as pessoas… Tem cheiro do Sr. Jacques… Recém-chegado da França, meio careca, e da sua linda esposa… Não lembro mais o nome dela… Mas a Nataly e Daiane, suas filhas, ainda fazem parte destas lembranças… E,como eu poderia adivinhar que depois de tantos anos ele seria o famoso Jaques Coiffure da Rua Augusta e tantas filiais?<br><br>Mas, acima de tudo, goiaba tem cheiro de "brincar de casinha". É que na vila em que eu morava, bem em frente à minha casa, tinha um pé de goiaba que mamãe havia plantado: grande, frondosa… Eu colocava um pano grande e velho em volta do pé, formando uma "casinha", e levava minhas bonecas para lá, e meus brinquedos.<br><br>E junto com a Meire, que um dia viria a ser minha cunhada, e hoje "ex-cunhada”, mas sempre amada e querida, brincávamos de "casinha". Eu tinha um lindo joguinho de chá, todo cor de rosa – que na verdade era da minha irmã, mas eu me apossei, pois ela não dava a mínima – e ali a gente fazia "salada de frutas", com banana, laranja, açúcar e canela, mas que tinham cheiro de goiaba! Lógico: brincávamos ao pé da goiabeira!<br>Eu tinha um lindo bebê de louça, chamado Carlos Alberto, e uma boneca de louça com corpo de palha, chamada Beti, que eram nossos filhos: tinha uma linda caminha de madeira e um carrinho de boneca, feito de vime.<br><br>Meu Deus! Como era gostoso brincar ali despreocupadamente, sonhar e esperar pelo futuro. É lógico que o futuro seria maravilhoso! Como não poderia ser? Se tudo o que vivíamos naquele momento era um projeto de nossos sonhos, como poderiam eles não se realizar?<br><br>É… Goiaba tem cheiro de infância! Tem cheiro de "a canoa virou", de "passa anel", de "lenço atrás", de "casinha", "essa calçada é minha"… Enfim, tem cheiro de felicidade! <br><br>E-mail: [email protected]