A Gilda outro dia telefonou, disse que tinha sonhado comigo. Foi uma surpresa agradável. A mesma voz, o mesmo jeito de falar, a ansiedade por notícias. Uma boa amiga que foi levada pelo tempo. Colocamos assuntos em dia, matamos as saudades e desligamos.
Novamente ela ficou fazendo parte do meu passado.
Durante muitos anos ela foi a costureira da família. A Gilda fazia alta costura, como se dizia naquela época. Chegou a ter ateliê com várias costureiras, vestidos feitos por ela eram preciosidades no corte e no acabamento. Costurados e bordados à mão. Ainda tenho um deles no armário. Ela começou o ofício trabalhando com o irmão que era alfaiate. Aprendeu com ele a arte da alta costura. A boa roupa para pronta entrega ainda era uma realidade distante. Era preciso mandar fazer. Processo longo e dispendioso, fazer vestido custava caro. O início era a consulta aos figurinos onde se pesquisava os modelos, a ida a costureira para a escolha do tecido e metragem. Em seguida, a procura nas inúmeras lojas de tecidos da cidade. Dependendo da ocasião comprávamos no centro ou na Rua Augusta. Para as festas e casamentos os tecidos importados como rendas, tafetás, musseline estampada, seda pura, tule de diversas cores, depois de alguns anos o algodão nacional. Após a compra, as medidas. Fita métrica na mão bloquinho na outra a Gilda sempre usava um lápis com o qual rascunhava as medidas: ombros de um lado ao outro, comprimento do braço que ela pedia para dobrar um pouco, altura do corpo, cintura, largura do quadril, altura do vestido do ombro até a barra. Com o modelo escolhido no figurino algumas adaptações. A moda na década de 50 era de vestidos drapeados e rodados, lisos ou estampados. As sessões para experimentar eram sofridas, uma hora de pé ajustando o vestido dos lados com os alfinetes que vez ou outra cutucavam. Diziam que a quantidade dos alfinetes que prendiam na combinação indicavam o número de anos que faltavam para casar. Cada roupa precisava de no mínimo duas provas. A Gilda embora ótima costureira não dava conta das encomendas e era conhecida pelos seus atrasos. Era uma loucura, pronta para sair, de sapatos, meias, horário correndo e nada da roupa. De repente, lá vinha a Gilda esbaforida, desalinhada, exausta mas com o vestido maravilhoso para nos entregar. Uma verdadeira artista, do modelo do figurino e medidas num bloquinho, a criação. O resultado sempre valia o sufoco da espera. Ela fez o meu vestido de quinze anos de guipure, uma renda mais grossa, amarela, saia rodada, as costuras feitas a mão. Para os bailes de formatura os longos feitos por ela eram um sucesso. Tenho registrado em fotos dois que se destacaram, um com o corpo de renda branca bordada e com várias saias de tule costuradas umas sobre as outras em tons, branco, azul e rosa que usei com sandálias prateadas de salto bem alto e o outro com a frente de tafetá de seda pura estampada e as costas de tecido liso rosa antigo. Usei com uma sandália rosa metalizada com salto muito alto. Hoje fico lembrando com saudade de como conseguia rodopiar pelo salão ao som da orquestra do Silvio Mazzuca (Fox- blue do Glem Miller, as arrepiantes baladas de Nat king Cole, e os desafios para o equilíbrio e a velocidade do: mambo- jambo, dos chorinhos, dos sambinhas e do novíssimo cha-cha-cha) com aquelas sandálias. A Gilda ainda costura, porém agora eu compro roupa de pronta entrega. O sonho acabou.
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