Basta tomar conhecimento de algumas estórias por aqui contadas para termos a convicção de que, muitos de nós, pertencemos a uma geração privilegiada. Muitos dos que aqui escrevem, assim como eu, podem dar graças a Deus por termos conhecido as agruras de uma guerra mundial, seus estragos provocados mesmo depois de muitos anos passados, e poder assistir o retorno da paz, mesmo que muitas vezes disfarçada e mentirosa.
Vimos o homem desembarcar na lua e fincar uma bandeira, embora ainda alguns não acreditem.
Assistimos à trajetória de carreiras artísticas de verdadeiros gênios como Frank Sinatra, Elvis Presley e Beatles, assim como Cassios Clay e Taisson.
Assistimos nosso país conviver com uma ditadura militar incompetente e teimosa, cujas injustiças cometidas atingiram não apenas os políticos e suas famílias, terroristas, subversivos, artistas e jornalistas, mas sim uma infinidade de militares que foram indiscriminadamente julgados, condenados, presos e exonerados por seus pares e superiores hierárquicos.
Tivemos o desprazer e a angústia de ver nosso dinheiro ser bloqueado pela desprezível Zélia Cardoso, mas também vimos o responsável por sua nomeação levar um pé no traseiro. O que foi muito pouco.
Assistimos ao mundo rastejar para os árabes, quando ainda dependíamos exclusivamente deles para nos abastecer de petróleo, e agora vemos nosso país livre dessa dependência.
Tivemos a alegria e o romantismo de podermos viajar nos trens puxados por uma Maria Fumaça e nos bondes, com seus vagões em madeira de lei, lindos e sem nenhuma pressa. Mas também conhecemos o metrô, quem diria, e tem gente que diz serem mais limpos que aqueles da Inglaterra.
Vimos nossa amada cidade completar quatrocentos anos, tendo como prefeito aquele que, com o símbolo de uma vassoura, chegou até o planalto. E quando chegou lá fez tantas besteiras que uma tal de força oculta deu um jeito de colocá-lo na rua. A força era tão oculta que até hoje permanece assim.
Para festejar o quarto centenário, ganhamos o Parque do Ibirapuera, com seu sistema de alto falantes de alta fidelidade, a grande novidade da época.
Assistimos Pedro Galaço, lá mesmo no Ibirapuera, perder suas últimas lutas já em final de carreira, mas também vimos Eder Jofre, nosso Galinho de Ouro, ser campeão do mundo em duas categorias fora do Brasil. Vimos nosso grande peso pesado Luizão tentando lutar contra boxeadores estrangeiros sem muito sucesso, mas também vimos Maguila, alguns anos após, colocando alguns no chão. Principalmente um argentino.
Conheceríamos o tênis por intermédio da grande Maria Ester Bueno, nossa eterna campeã de Wimbledon, para valorizarmos os feitos do nosso menino Guga.
Conheceríamos o Maracanasso de 1950, mas depois pudemos comemorar cinco campeonatos mundiais. Sem contar que veríamos nossa seleção perder duas Copas do Mundo nas mãos de Telê Santana, unicamente por menosprezar nossos adversários, quando ela era indiscutivelmente melhor que todas as outras. Vimos jogar Pelé, Garrincha, Luizinho, Canhoteiro, Djalma Santos, Julinho, Rivelino, Ademir da Guia, Tostão, Mauro Ramos de Oliveira, Gilmar dos Santos Neves, Didi, Leônidas da Silva, Zito, Jair da Rosa Pinto e tantos outros verdadeiros artistas da bola.
Cansados de ouvirmos falar em Juan Manuel Fanjio, conheceríamos os Fitipaldis, Jose Carlos Pat, Nelson Piquet, Pupo Moreno, Massa e até o Barrichello, mas em compensação assistiríamos ao vivo, justamente num primeiro de maio, a morte do nosso eterno campeão Airton Senna.
Conheceríamos todos os nossos pioneiros em rádio e televisão e, lentamente, os perderíamos: Homero Silva, Edson Leite, Geraldo José de Almeida, Blota Junior e sua esposa Sonia Ribeiro, Randal Juliano, Leporaci, Nóbrega, Paulo Gracindo e muitos outros.
Conseguimos sair do rádio galena passando por aqueles trambolhos a válvulas e já estamos assistindo TV com sinal digital.
Veríamos Valdir Azevedo compor e solar, num instrumento de poucos recursos (o cavaquinho), músicas que ficariam para sempre na história da música brasileira, como Brasileirinho, Pedacinhos do Céu, Delicado, Minhas Mãos meu Cavaquinho, Camundongo e muitas outras. Assim como nosso saudoso Jacob Bitencourt, o Jacó do bandolim.
Ouviríamos a potência da voz de um Vicente Celestino e também o sopro de voz do super afinado João Gilberto. Cantaríamos as músicas de Luiz Gonzaga e do Gonzaginha. Ouviríamos nossa Elis Regina dizer, nos versos de Belchior, que nossos ídolos ainda eram os mesmos, porém o álcool e as drogas não deixaram isso acontecer e tiraram de nosso convívio, precocemente, ela própria e outros ídolos, como Raul Seixas, Antonio Marcos, Paulo Sergio e muitos outros.
Quem poderia esperar que a chamada música caipira um dia chegasse no ponto em que chegou. E todos nós, acostumados a ver Tonico e Tinoco, Palmeira e Biá, Luizinho Limeira e Zézinha apenas em espetáculos circenses, passamos a assistir pela TV dezenas de duplas caipiras. Já não são tão originais como antes. Viola agora passa bem longe delas. O acompanhamento é feito por instrumentos elétricos de última geração, mas o sotaque ainda é o mesmo.
Acompanhamos pela TV a ascensão e queda da Jovem Guarda, porém jamais perdemos o contato com as músicas que ela produziu. Roberto Carlos com certeza, tal como Nelson Gonçalves e Orlando Silva, será imortal.
Quem de nós, que chegou a ouvir um disco de 78 rotações, com uma música de cada lado do disco, num gramofone ou numa vitrola que mais parecia um guarda-roupas, poderia esperar que um dia teria nas mãos um CD ou um MP3 contendo mais de duzentas músicas?
E o telefone, então. Para quem chegou a esperar horas para que uma telefonista conseguisse completar um interurbano para qualquer cidade do interior, naqueles telefones de dar corda, como poderia esperar que um dia pudéssemos, com um aparelho do tamanho de um maço de cigarros, falar com qualquer parte do mundo imediatamente?
E para encerrar, o maior de todos os privilégios. Estarmos vivos para podermos, no aconchego de nossos lares, aqui escrever, como se escritores fôssemos, relacionando-nos direta e indiretamente com milhares e até milhões de pessoas por intermédio deste veículo fantástico que é o computador.
Que privilégio.
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