Galeria Metrópole

Para minha alegria, recebi, certa vez, numa das pensões em que morava, a visita de querido primo do interior. Ficou alguns dias em São Paulo e, depois de resolver seus assuntos comerciais, pediu-me que o levasse a um lugar onde pudesse ouvir música e tomar whisky.

Eu gostava muito do Jogral, na Galeria Metrópole, reduto garantido de boa música e de bebida honesta. Freqüentado por artistas, intelectuais e boêmios, o Jogral, do Luiz Carlos Paraná, fez história na noite de São Paulo.

Paulo Vanzolini, cientista e compositor nas horas vagas (Ronda, Volta por cima, Praça Clóvis etc.), era um de seus mais assíduos e ilustres freqüentadores. Levamos sorte, pois naquela noite, além das atrações habituais, como Manézinho da Flauta, Evandro do Bandolim e Adauto Santos, o convidado especial era o legendário sambista Ismael Silva, que fazia curta temporada na capital paulista.

Apesar de toda sua importância para a autêntica música brasileira, estava pobre e relegado ao ostracismo. Veio à famosa casa noturna para receber a Ordem do Jogral, com que Luiz Carlos Paraná homenageava as grandes figuras da nossa cultura. Uma das marcas do Jogral era a de prestigiar e de tirar do anonimato grandes artistas, como Ismael.

Foi emocionante ver e ouvir aquele crioulo espigado, de terno de linho branco, cantando seus grandes sucessos, como “Antonico” (Ele é aquele que na Escola de Samba toca cuíca, toca surdo, e tamborim…), “Nem é bom falar”, “Pra me livrar do mal”, “Tristezas não pagam dívidas”, “Se você jurar”, imortalizadas por Francisco Alves, Mario Reis e Carmen Miranda, dentre outros. Não era cantor, mas dava às suas composições uma interpretação muito pessoal, com muita bossa, muita ginga e malandragem.

Chico Buarque disse certa vez, ensina o pesquisador Ricardo Cravo Albin, que Ismael foi sua maior influência, e João Gilberto regravou muitos de seus antigos e antológicos sambas.

Sempre que nos encontramos, meu primo ainda o menciona com entusiasmo comovedor. Não é para menos, primo! Ouvimos, naquela memorável noite, um dos maiores sambistas brasileiros de todos os tempos! Ismael e Jogral são, hoje, apenas lembranças que guardamos com carinho e ternura.

Morreu pobre, em 1978, numa modesta casa de cômodos no Rio de Janeiro, e o centenário de seu nascimento, em 2005, foi praticamente ignorado pela mídia.

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