Futebol, churrasco, cachaça e desastre

Futebol, churrasco, cachaça e desastre – Vila das Belezas, Jardim Brasília – Campo Limpo.

Um dos maiores desastre com mortes de jogadores da várzea da Zona Sul, aconteceu após um jogo de futebol na parte da manhã de um sábado… Com a vitória, foi feito logo a seguir uma comemoração, pois a tarde desse mesmo dia haveria um outro jogo com os mesmos jogadores para um outro time.

Após um jogo no campo da A. A. Portuguesa da Vila das Belezas, conhecida como Portuguesinha, com campo no Bairro Ingá, vizinho da Vila das Belezas, num sábado de manhã no mês de novembro de 1971 em plena primavera de muito calor, o time da empresa Borrachas Ruberart, que além de seus funcionários tinha no seu time jogadores do Brasília E. C., A. A.Portuguesa da V. das Belezas e Vila das Belezas F. C., essa fábrica fica na Vila das Belezas, na Rua Josefina Moretti, esquina com Rua Tenente Isaias Branco de Araujo, onde o time fabril venceu e foi oferecido um churrasco na empresa para comemorar o feito, onde a carne e bebida foi servida em abundância, não houve miséria.

Todos os jogadores e convidados beberam muito, mesmo sabendo que a tarde alguns deles iriam jogar pelo time da empresa Poliquima do Campo Limpo a convite do "Dionísio bunda".
A tarde em torno das 15h, após o churrasco os que iam jogar estavam apostos para irem no carro do Zu, que era de família de portugueses da Vila das Belezas, ele tinha um Simca Chambord, e foram os seguintes jogadores no seu carro: Zu no volante e que era dono do carro, jogador da Portuguesinha, Adalberto (bel), Walter, Sandoval, apelidado de Nego São, Adilson, apelidado de grilo, irmão do Rose (Rosevaldo) e Nego Edson todos jogadores do Brasília E. C. , Iza da Portuguesinha e Corinthinha da Vila das Belezas.

Quando todos estavam dentro do carro, dois dos amigos deles, o Marróquio e o Zezé mineiro, do Jardim Brasília, tentaram impedir que saíssem, mas não teve jeito, inclusive todos queriam que o Marróquio fosse dirigindo, mas o Zu retrucou e disse:
– “Eu levo o carro e quem for homem que venha comigo”.

Ao sair com o carro, o Zu fez uma manobra na rua para entrar na estrada de Itapecirica da Serra rumo ao Campo Limpo e deu uma rateada no volante que assustou a todos, inclusive um outro jogador que estava no carro, o Valdir, goleiro da Portuguesinha e do Extra do Vila das Belezas F. C., abriu a porta e se jogou de tanto medo que sentiu, pois ele pressentia o perigo, ralou se todo, mas saiu do carro, os outros foram embora e os amigos Armandinho e Marróqui foram atrás deles de táxi.

Quando o carro chegou, onde hoje é o cruzamento da Estrada de Campo Limpo, antes da subida, com a hoje Av. Carlos Caldeira, na época só um córrego, o córrego do morro do "S" – hoje canalizado, ali havia uma ponte de concreto e um pouco mais alta que a própria avenida, todo carro que passava ali dava um solavanco.

Justamente, nesse dia e hora, quando o carro com os jogadores passaram por esse local e deu o solavanco, o motorista Zu perdeu o controle do volante, pois o mesmo estava pesado e desgovernou-se e foi para na faixa oposta da estrada de Campo Limpo, nesse momento descia um ônibus da Empresa S. Luiz Viação Ltda, atual Campo Belo Ltda., com itinerário Campo Limpo – Santo Amaro, o motorista do ônibus foi para a outra faixa de contra mão para não atingir o carro, mas este voltou para a faixa correta e já era tarde o ônibus passou por cima deles, inclusive o motorista do ônibus morava no mesmo bairro que os acidentados no Jardim Brasília e tinha um filho que jogava com eles no bairro, aliado a isso o veiculo acidentado estava em alta velocidade.

Salvaram-se dois jogadores Adilson, apelidado de grilo e o Nego Edson, ambos foram socorridos e levados para o hospital das Clínicas onde Nego Edson recebeu alta no Domingo e o grilo ficou internado para operar a bacia.

Os dois se salvaram porque estavam no banco da frente com o motorista Zu, quando o ônibus atingiu o carro amassando-o todo, as portas se abriram e o Adilson que estava do lado da porta foi atirado para longe com deslocamento da bacia e o Nego Edson estava no meio também foi jogado para fora do carro, o Zu que estava dirigindo ficou preso e morto no volante.

Os que estavam no banco de trás do carro faleceram, apenas Adalberto (Bel) ainda ficou internado três dias, até na terça-feira e depois veio a falecer e o único que teve um velório que foi feito na Sociedade Amigos do Jardim Brasília, onde hoje é o EMEF, os demais foram direto ao velório do cemitério e sepultamento no domingo de manhã. Todos foram sepultados no cemitério de Campo Grande em Santo Amaro.

Vale salientar que o Marróquio muito ajudou a socorrer os acidentados sem ser parente, pois era muito amigo deles, cresceram juntos no bairro e ficou todos esses dias de sábado até terça-feira ajudando no que podia, deixando de trabalhar e quando voltou ao serviço na quarta-feira estava demitido da empresa Al-Car do bairro do Brooklin.

O desespero foi geral, o assédio ao local foi muito grande, os curiosos se aglomeravam em volta do acontecido, os amigos que foram de táxi, Marróquio (Alemão) e Armando, funcionário da Ruberart, estavam logo atrás e puderam ver quase tudo chamaram, socorro, ambulância, polícia e também ajudaram no resgate dos amigos, tentaram parar alguns taxista, mas todos se negavam pelo estados dos corpos ensanguentados, ao mesmo tempo que ajudavam agradeciam por não ter aceitado a carona parecendo adivinhar o acidente; as ambulâncias naquela época ainda era aqueles carros branco, baixo tipo Belina.

Enfim, a comoção foi geral no bairro e na região, foi notícia nos principais jornais da capital, um deles o jornal Notícias Populares deu muita ênfase e passados quase quarenta anos o assunto sempre vem a tona quando o assunto é futebol antigo da região ou quando alguém cita o nome desses jogadores acidentados e que eram amigos de todos do bairro onde a maioria nasceu aqui mesmo e aqui tiveram suas carreiras e vidas ceifadas.

A velha frase sempre é válida, bebida e volante, uma combinação perigosa.

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