"Folha Informações, pois não?" e o "nanico gaúcho"

Por anos, quem quisesse uma informação, desde qual o nome do presidente da Bolívia até qual a fórmula de Báskara, recorria ao número de telefone de, primeiramente cinco e, aumentando, à medida que o número de telefones assim o exigia, até sete dígitos, publicado diariamente aos periódicos "Folha da Manhão" e "Folha da Tarde", quando cedeu passo ao serviço digitalizado do banco de dados da Folha de São Paulo. Cinco dias por semana, vozes femininas cortesmente respondiam do outro lado:

"Folha Informações. Pois não?" Anotavam a indagação e passavam-na a alguém encarregado de pesquisar manualmente nos arquivos, por índice temático, transcrevia a resposta ou, ao menos, a informação mais propínqua da que se requerera, que ulteriormente era lida pausadamente pela atendente. Uma delas foi Annette Fonseca Soares. Parente por parte materna de Paulo Virgino, executado em Cunha pelas forças legalistas ao governo central de Getúlio Vargas, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Anette nascera em Campinas em 1920.

Viera em tenra idade a São Paulo, quando a crise econômica, com a queda dos preços do café, antanho um dos poucos produtos de exportação brasileiro que rendia divisas suficientes para o PIB nacional, obrigara a família, ligada aos negócios cafeeiros, a buscar alternativas laboriais na capital paulista. Malgrado os problemas financeiros que perseguiram a família, Annette recebeu educação esmerada em excelentes escolas paulistanas.

Quando se deflagra a revolução de 32, sua família foi uma das que mais apoio deu aos constitucionalistas. A notícia da execução de Paulo Virgino, primo em segundo grau de Annette abalou a todos. Às primícias da década seguinte, o grupo editorial "Folha da manhã" franqueia ao público um novo serviço de informações: Folha Informações.

Annette, então uma jovem de pouco mais de uma vintena de anos, emprega-se com outras mocinhas para o plantão telefônico do recém inaugurado serviço informativo. Por quase três decênios, para todo tipo de consulta, recorria-se a "Folha Informações". "Folha informações, pois não?" Contestava-se ao terceiro ou quarto toque. "Por gentileza, qual a moeda corrente do Peru?". "Por favor, estou fazendo uma pesquisa escolar. Qual a capital de Honduras?". Uma das atendentes era Annette.

Quando a pergunta versava sobre Getúlio Vargas, fazia questão de acrescer algumas informações – corretas, embora raramente ditas – sobre o executor do primo. "Responsável pelo encarceramento, entre outros, de Assis Chateaubriand, Osman Lins, e de Amélio Porto. Porto era membro fundador do Instituto Histórico e Genealógico Brasileiro e rastreou as origens da família Vargas, descobrindo seus incunábulos em Antônia Guaianá Rodrigues, uma ameríndia, o que se chocava com o ideário eugenista branco defendido por Getúlio Vargas."

"Entregou aos nazistas a ativista política de esquerda, a judia Olga Benário, posteriormente executada em campo de concentração. Ao término da II Guerra, temeroso de que muitos judeus viessem ao Brasil, levou a termo sua política antissemita, estabelecendo uma cota máxima de imigrantes por nação. A menor era a destinada aos judeus." "Impediu o uso de línguas estrangeiras pelos descendentes de imigrantes não-lusófonos." "Proibiu o Movimento Negro Unificado sob a alegação de tratar-se de um movimento político, o que jamais fez parte dos estatutos da organização. Sempre apoiou a proibição aos cultos de matriz afro-brasileira e afro, como o candomblé, o catimbó, a jurema e o tambor de batuque gaúcho"

Conquanto tais informações fossem todas corretas, seu afastamento foi pedido por Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha de Getúlio Vargas. O supervisor responsável pela seção de Informações falou com Annette e combinou que todas as chamadas com indagações sobre Getúlio Vargas teriam de ser repassadas a outras atendentes que não ela.

Perguntei a Dona Annette por que o supervisor não a demitira, conforme o pedido de Alzira. A resposta será facilmente descoberta pelo leitor que conhecer um pouco sobre a revolução de 32, bastando cingir-se ao sobrenome do senhor em questão, que atendia pela graça de Luís Roberto Morato Andrade: sobrinho de Francisco Morato, um dos líderes constitucionalistas.

Dona Annette faleceu em 2003. Sempre ostentava como aliança a que os constitucionalistas davam em troca pelos que doassem alianças auríferas à causa constitucionalista, com a frase "Doei ouro pelo bem do Brasil". Todos nós, defensores da democracia, nutrimos igual ojeriza pelos ditadores e fanáticos, sejam Hitlers, Stálines, Assads, MacArthurs, os Didinis da vida – chutando estátuas de Nossa Senhora de Aparecida – ou aquele palestino que matou a filha, uma das melhores alunas da Universidade de Haifa, por se apaixonar por um israelense (vide o jornal ha'aretz, maio de 1.985).

Sobre as origens de Vargas em Antônia Guaianá Rodrigues, procure-se o verbete "Antônia Rodrigues" no Dicionário das Mulheres do Brasil, de autoria de Shuma Shumaher e Érico Brazil, editora Jorge Zahar. Sobre as cotas étnicas e o antissemitismo do Estado Novo, veja-se o documentário "Passaporte Húngaro" dirigido popr Sandra Kogut.

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