Foi como um pesadelo

Esta é uma história inusitada que embora tenha acontecido há tantos anos atrás não consigo, por mais que queira, esquecer. Estávamos no meio do inverno do ano de 1951. Meu pai estava na Europa, onde tinha ido visitar seus parentes na Espanha. Eu trabalhava na livraria Saraiva, era um garoto, tinha 16 anos e estava fazendo o ginásio à noite no Liceu Vera Cruz, no Braz, e como meu pai tinha dois táxis fiquei incumbido de cuidar e receber as férias dos motoristas e repassá-los a minha mãe. <br><br>Era uma sexta-feira do mês de agosto e costumava ir almoçar em casa, que ficava a dois pontos de bonde do Centro. Quando cheguei em casa, notei que tínhamos visita. Era o Henrique Martins, um parente de longe que havia chegado de navio de Zaragoza, na Espanha, naquela manhã no porto de Santos. Trazia com ele alguns presentes e uma carta do meu pai, pedindo que o ajudássemos a conseguir algum lugar para morar. Como não tínhamos condições de hospedá-lo em casa, eu então liguei para o Sr. Arnaldo, que era gerente da livraria, e pedi dispensa para o turno da tarde, para poder ajudá-lo a procurar em uma pensão de uma senhora espanhola nas imediações da Rua Santa Ifigênia que conhecíamos. E depois do almoço, pegamos o ônibus 5 Estações, que era circular e que nos levou até a Avenida Duque de Caxias.<br><br>Como não sabíamos se ele conseguiria vaga, a sua bagagem ficou em casa. E talvez na volta ele pegasse um táxi se conseguisse. Chegando à pensão, tivemos que esperar pela dona Isabel, que era a dona, pois ela tinha saído a compras. Como ela demorava, resolvemos dar uma volta pelo Centro, para que ele começasse a se familiarizar com a cidade. Já quase no fim da tarde, a D. Isabel voltou e para a sorte do Henrique ela tinha uma vaga para ele que, como havia confessado para mim, seria uma coisa provisória, pois planejava, depois de conseguir um emprego, alugar talvez um pequeno apartamento. Pelo que ele me contou vinha fugindo daquele regime de ditadura que imperava na Espanha naquela época, o regime de Francisco Franco, e com papéis falsos saiu do país para não servir o exército, que era obrigatório. <br><br>Como já eram mais de 17h30 da tarde e os ônibus passavam lotados eu dei a ideia de irmos caminhando, pois a minha primeira aula só começava às 19h da noite. E assim fizemos, cortando pela Rua Aurora, saímos na Washington Luiz, na Luz, e pretendíamos descer a Paula Souza até o mercado e aí sairíamos no Braz. Quando estávamos quase na Brigadeiro Tobias, nas imediações do antigo Gabinete de Investigações naquela época, pois nem sei se ele continua existindo. Íamos conversando em espanhol, mesmo porque o Henrique não sabia nada do nosso idioma, vimos um homem de terno e gravata urinando em um canto da rua, olhamos meio espantados e continuamos nosso caminho. Nisso, esse senhor que estava nitidamente alcoolizado começou a gritar com a gente e pedindo que parássemos e com um revólver nas mãos mostrou aquela carteira típica de um policial, e querendo saber o que estávamos falando porque ele não entendia.<br><br>Eu procurei explicar a ele que o meu amigo tinha chegado da Europa naquela manhã e que íamos para minha casa no Braz. Não sei por que, esse homem nos deu voz de prisão e disse que os acompanhasse, já escondendo o revólver na cintura. O Henrique começou a se revoltar e gesticular, e de pronto eu procurei acalmá-lo, pois o bom senso dizia-me que aquele homem não era flor que se cheirasse, pois um sujeito bêbado que te aponta uma arma sem motivos, a melhor coisa seria fazer o que ele ordenava. E assim foi feito. Chegando ao prédio que abrigava um sem-número de delegacias especializadas, ele nos conduziu até o oitavo andar se não me engano. Na porta se lia "Delegacia de Vadiagem". Ao adentrar fomos logo sendo empurrados para um salão repleto de pessoas que mais pareciam indigentes. Nesse momento eu comecei a protestar e dizendo ser menor de idade e inocente. E já de cara tomei um cascudo de um sujeito que me ordenava a calar a boca e que só a abrisse quando fosse perguntado. <br><br>Dali em diante não houve mais diálogo e fomos ordenados a ficar todos de pé que iriam passar o pão. Um sujeito veio com uma bandeja enorme cheia de um pão que parecia amanhecido, oferecendo um pedaço a cada um de nós. Eu recusei, assim também como o Henrique. E o sujeito dizia: se não pegar agora não tem mais, só amanhã. O preso que estava do meu lado me implorou que eu pegasse e desse para ele que estava com muita fome, e assim fiz. Logo em seguida fomos todos encaminhados para celas como se fossemos bandidos. E o verdadeiro bandido já tinha ido embora, o que nos prendeu. Levaram o Henrique com a maioria dos presos para dentro e me ordenaram a sentar até que me chamassem. Tentei outra vez dialogar com um homem sentado atrás de uma escrivaninha que aos berros de "vagulino", e que calasse a boca e voltasse ao banco no fundo da sala. Aí comecei a pensar nas consequências que tudo isso ia acarretar a mim e a minha família. <br><br>Não demorou muito e o homem que levou toda aquela gente me sinalizou que me levantasse e o seguisse. E assim fiz e quando dei por mim estava dentro de uma cela com grades de ferro que me lembravam aqueles filmes que assistia de Faroeste ou cowboys. Mas aquele momento para mim era realmente inimaginável. Enquanto olhava para aquele ambiente desolador, pensava: quanto tempo iria ficar preso ali? No canto da cela tinha um buraco que fazia o papel de vaso sanitário e praticamente em cima dele, na parede, uma torneira e o chão de concreto sem mais nada. Aí começou a passar mil e uma coisas pela minha cabeça, ao longe ouvia uma cantoria que imaginava seria a cela onde estavam os outros presos (depois soube que os presos queriam que o Henrique cantasse em espanhol).<br><br>Eles com certeza sabiam que eu era menor, pois me trancaram sozinho na cela. O tempo foi passando e eu só pensava na minha mãe, o quanto ela ira sofrer até saber o que realmente havia acontecido. Já deveriam ser talvez 20h ou mais da noite. Aí me deu o tipo de uma loucura e comecei a gritar e chorar, e balançar as grades até que apareceu um homem com um escovão e um balde na mão e me perguntou qual era o meu problema? Essa foi à única pessoa (talvez mandada por Deus) que ouviu o que eu tinha para falar. Expliquei como tudo aconteceu e como eu fui parar atrás das grades.<br> <br>Então, ele me pediu que me acalmasse que ele iria me ajudar. E assim foi, dali a uns quinze minutos apareceram umas quatro ou cinco pessoas que me levaram para um lugar que eu não tinha estado desde que entrei naquele prédio. O chefe era um delegado que me deu ouvidos e expliquei a ele tudo o que havia acontecido, e quando disse a ele que naquela hora eu deveria estar na sala de aula no ginásio que cursava ele me disse: <br><br>- Meu filho, eu vou te por em uma viatura e vamos te levar até a escola. <br><br>Aí perguntei que horas eram e já eram 20h30. Eu agradeci, mas já tinha perdido umas duas aulas e que iria para casa. Mas pedi a ele que soltasse o meu amigo, o espanhol que também tinha sido preso comigo. E logo em seguida apareceu o Henrique fumegando em espanhol, eu lhe pedi calma porque aquelas pessoas nos estavam ajudando. Eu imaginava a má impressão que ele teve do nosso país, logo no primeiro dia. Ele que vinha fugindo de uma ditadura. Mas aí fomos para casa a passos largos e chegamos já eram mais das 21h da noite, mas com sucesso. <br><br>No sábado pela manhã, voltei ao trabalho e contei ao Sr. Arnaldo à odisseia que havia enfrentado, no que ele logo que o Sr. Joaquim Saraiva chegou lhe contou o acontecido. Aí ele logo me chamou e pediu que sentasse ao seu lado e pediu pormenores de tudo o que acontece e se eu lembrava de algum nome que por ventura havia escutado no que respondi negativamente, mas ele me disse que a Delegacia de Vadiagem era o bastante para achar os responsáveis. Como ele sabia que meu pai estava na Europa, ele fez o papel de meu pai, por isso inclusive eu o citei em uma outra crônica que o respeitava como meu segundo pai. <br><br>Ele acionou seus contatos mais influentes, mas como era sábado e era um dia de meio expediente tudo ficou para a segunda-feira. Na segunda-feira, logo pela manhã, fui encaminhado para o mesmo departamento lá na Brigadeiro Tobias e fiquei durante horas em uma sala com alguns detetives folheando álbuns de fotos para reconhecer o homem que me prendeu, mas tudo sem sucesso (eu até acredito que o álbum que continha a foto do culpado nunca me foi mostrada). Eu ainda dei uma ideia a eles que procurassem lá na Vadiagem, em alguma anotação, o registro da nossa prisão, mas eles até deram risada da minha proposta dizendo que a coisa não funcionava daquela maneira.<br> <br>Enfim, tudo ficou por isso mesmo, mas posso garantir que se eles me tivessem mostrado a foto daquele homem, eu o teria reconhecido, pois depois de tanto tempo já passado eu ainda lembro da sua imagem lá no fundo da minha memória, porque esse fato ficou marcado na minha vida. <br><br><br>E-mail: [email protected]