Flores em vida

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.

Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais.

Esta letra da clássica canção "Quando eu me chamar saudade", de Nelson Cavaquinho, descreve com simples palavras a ingratidão que vez ou outra cometemos com personagens conhecidos ou anônimos, integrantes de nosso rol familiar e de amizades.

As virtudes e o brilho pessoal de algumas figuras são reconhecidos somente após seu falecimento. Exercitando um pouco nossa memória, nos lembraremos de inúmeros casos. Por isso, lanço no ar uma imaginária campanha para reverenciar cada pessoa que nos fará falta quando se chamarem saudade, ou seja, que ainda estão entre nós, alegrando direta e indiretamente nosso cotidiano. Certamente, a Inezita Barroso e o Rolando Boldrin seriam exemplos típicos desta hipotética lista.

Ontem, resgatei trechos de uma gravação do extinto programa "São Paulo de todos nós", conduzido pelo versátil jornalista Geraldo Nunes na rádio Eldorado (atualmente Estadão). Esta edição descreveu a história comovente de Zica Bergami. Compositora, escritora e pintora (premiada até no exterior), a doce autora de "Lampião de Gás", canção símbolo paulistano.

Composta por Zica em 1957, a valsinha retratava as recordações de uma São Paulo dos sonhos; posteriormente desfigurada com seu crescimento desordenado e as consequências do irreversível e selvagem progresso. A singela canção se tornou um sucesso nacional ao ser gravada por Inezita Barroso no ano seguinte. Regravada por diversos artistas, ganhou até versão em japonês. O incentivo para procurar Inezita e gravar a música foi do poeta Guilherme de Almeida.

Nascida em Ibitinga no interior paulista em 10 de agosto de 1913, foi batizada como Elisa Campiotti e mudou-se para a capital aos oito meses de idade. A partir dos cinco anos passou a residir na Rua da Graça, no Bom Retiro, onde construiu sua feliz e iluminada trajetória.

As canções da compositora foram registradas em dois discos: "Zezé Freitas interpreta Zica Bergami", lançado em 1999, e "Zica Bergami – Salada de Danças" de 2000. As letras traduzem uma época da inocência e pureza de sentimentos quando havia o respeito pelo próximo e às instituições.

Este preâmbulo justificará minha estranheza ao constatar a ingratidão que comentei no início. Consultando o Guia de ruas de São Paulo, vi a inexistência de uma lembrança para exaltar esta paulistana de coração que adotou a capital como seu "cantinho do céu". Reparei que muitos logradouros são nomeados com "personalidades" de pouca ou nenhuma expressão para nossa querida cidade.

No entanto, o esquecimento não foi total. O Jardim da Conquista na zona Leste é constituído de pequenas travessas com títulos de músicas; ligando a Travessa "Somos Todos Iguais" e a "Saudade Passageira", lá está a Travessa “Lampião de Gás". Uma modesta homenagem. Que tal uma simpática pracinha florida e arborizada denominada "Praça Zica Bergami"? Quem a conheceu endossará esta simplória sugestão. Um forte abraço a todos.

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