Flôr do Itaim F.C. – 1978

Assim como muitos brasileiros, fui criado respirando futebol, aos cinco anos tive o primeiro real contato ao olhar para cima no final da copa de 1958, meio assustado vi a quantidade absurda de balões que estavam flutuando, parecia um formigueiro no céu da vilinha Santa Terezinha, na Rua Antonio Tavares, no Cambuci. Depois disso, chutei bola de meia dentro de casa, bolas de plástico de todas as qualidades, lembro de uma em tom caramelo após a copa de 62 que trazia o autógrafo de todos os jogadores, também meio marrom, chutei a bola Pelé na rua, nos quintais, as primeiras de capotão, em diversos campinhos, nos pastos verdinhos de Jacupiranga no meio de muita bosta cremosa, na época dos 14 anos, quando preparávamos traves de bambu. Nesse mesmo período houve a febre do futebol de botão, surgiu a coleção Onze de Ouro com ilustrações avançadas, lembro que a bolinha mais usada era o dadinho. Também adorava ir ao estádio do Pacaembu ver os jogos do Palmeiras, havia a “charanga do Minguinho” que mandava marchinhas carnavalescas… Com pistons, trombones de vara e uma percussão de primeira!<br><br>Meu grande ídolo foi o Adhemar Pantera que chutava feito um cavalo, assistia a muitos jogos pela TV. Também ia ver meu pai jogar na várzea, no campo do Marítimo F.C., quando já morava no Itaim Bibi. O velho jogava com a cinco e era chamado de Dino Sani, pela semelhança. No intervalo das partidas ficávamos fazendo chutes a gol com aquela bola oficial, muito cheia e ensebada, imaginem, ainda com perninhas finas e já tentando bater de fora da área.<br><br>Nas férias era mais futebol, em Santo Amaro no Campo do Estrela, atrás da Semp havia um campinho de terra vermelha onde batíamos bola descalços, “lá era bola todo dia”, ”fornada de fominhas nativos da Vila Almeida”: Arthur, Bié, Régis, Marcelinho Malá, Lau, Zinho, Tchelão, Maurício, Redinho, Marcos, Zabeu, Nino, Paulinho, Fábio, Múrcio, Gino, Cabela, Tomás… Logo o futebol de salão também se fez presente e em 1968 joguei pelo C. A. Paulistano o campeonato infantil metropolitano, cujo técnico era o Helinho, com Aureliano, Pãozinho, Marcos Ratinho e o goleiro Máximo. Enfrentamos: Ipiranga, Banespa, Palmeiras, Juventus, Hebraica, Tenis Club Paulista, Indiano, entre outros…<br><br>Minha cabeça era um trevo futebolístico e às vezes me perguntava: O que era mais legal? Jogar botão, jogar nos campinhos, jogar na praia, jogar no salão, jogar pebolim, assistir aos jogos na TV, nos estádios, ouvir os jogos pelo rádio, jogar na escola, colecionar figurinhas, colocar a bola em gols imaginários, jogar nos sonhos?<br><br>No cinema, havia antes dos filmes o canal cem com imagens impactantes em câmera lenta, era meio hipnotizante ver aquilo e lógico eu ficava esperando a nova sessão para ver de novo. Sem falar no maravilhoso e querido Rei Pelé que estava no auge, “fazendo misérias em campo!” Veio a Copa de 1970 e o que assistimos naquele mundial não foi desse planeta, quem viu, viu a magia do puro futebol, arte se manifestando.<br><br>No colégio Costa Manso montamos um belo time que batizei com o nome de Alianza, jogávamos aos sábados no Brigadeirão… O Alianza F.C. encerrou suas atividades jogando um amistoso contra a Aabb na estrada de Itapecerica, no campo gramadinho deles, quando vencemos por 5 a 1. Depois, demorou, mas foi espontâneo, era isso o que eu mais queria. Eu estava pronto para ser, ainda, um bom jogador, já havia passado “bem da idade” (era um tempo diferente de hoje quando “pequenos boleiros” têm seus empresários logo cedo para abrir portas), mas comigo o sonho se mantinha…<br><br>Pensava, estava decidido, uma grande sacada era jogar na várzea, mas para valer! Não iria ganhar dinheiro, não seria famoso, não teria médicos a minha disposição, não iria dar entrevistas e nem jogar em um gramado tipo um tapete e muito menos, jamais jogaria em um estádio lotado. Essas visões ficavam no campo dos sonhos, como seria lindo jogar no Maracanã… Mas eu havia decidido que mesmo de forma amadora iria me dedicar a uma trajetória que estava guardada.<br><br> Aconteceu em 1977, em um antigo bar do Itaim que ficava na esquina da Rua Tabapuã, estávamos eu e meu amigo Ion, talvez até tomando cerveja, quando começamos a ouvir uma conversa mais acalorada sobre a formação ou a recuperação de um time do bairro. Entramos na conversa, era o técnico Cachimbo falando que não estava conseguindo arrumar jogadores, para o segundo quadro do Flôr do Itaim, para a manhã do domingo seguinte. E ali mesmo combinamos que faríamos o meio de campo, pois jogávamos juntos desde o tempo do ginásio no time da quarta série, que se chamou Alianza, “que isso, que aquilo”, mais cerveja e estávamos contratados!<br><br>Resumindo, Ion e Arruda… A dupla de meio de campo segurou a onda e se manteve titular no “segundinho” do Flôr por alguns anos seguidos. O time depois foi dirigido pelo técnico Baianinho, fizemos uma série de 36 jogos invictos, o Ion jogava com a cinco e eu jogava com a oito. O Agnaldo, lateral esquerdo, que era Botafoguense fanático implantou um uniforme com suas cores prediletas, camisas listradas na vertical em preto e branco, calções pretos e meias cinza… Ficou bonito!<br><br> Grandes adversários vieram: Mappin, Black Power, Vasco Santa Catarina, Progresso, Vila Noemia, Ponte Casa Verde, Vila Guaraní, Colombo F.C., Real Parque F.C., Tricolor Vila Pompéia, Democráticos F.C., Aristocrátas F.C., Flamenguinho, Cruz de Malta Sumaré, Nostalgia, Esmaga Sapo da Penha, Brasil 2000, Primos Unidos, entre outros… Acho que também jogamos com todos os times que se situavam ali ao redor, onde hoje temos o Parque do Povo: Canto do Rio, Marechal, Itororó, Cruz Vermelha, Marítimo… Quando o adversário faltava, tinha sempre um tira-teima entre o primeiro e o “segundinho” que bem entrosado, sempre ganhava.<br><br>Em 1978 a escalação do famoso segundo quadro do Flôr do Itaim: 1-Sales; 2 – Fino; 3 – Fachette; 4 – Angelim; 6 – Agnaldo; 5 – Ion; 8 – Arruda; 7 – Sidney; 9 – Cruz; 10 – Netão; 11 – Gigi. Ainda: Papel, Meireles, Madruga, Pavão, Cachimbo, Paulinho, Marcão, Niquinho… Entre outros que também brilharam. Do primeiro quadro me lembro: Zaia, Lepera, Arnaldinho, Chiquinho, e Romeu Cambalhota…<br><br>No bar ficavam o Vitché e o Chicão, nas vitórias a cerveja era por conta da casa. Lembro do time em formação posando para fotógrafos, mas infelizmente, nunca cheguei a ver tais fotos.<br><br>Depois desse tempo, após parar no Flôr, fui jogar uma temporada no Cruz Vermelha que se apresentava nas tardes de sábado no campo do Marítimo. Um dia o Cruz recebeu o time do Casa Prata F.C. onde reencontrei alguns ex-colegas do Costa Manso e o resultado é que acabei indo para o Casa Prata que não tinha campo, mas só pegava tapete, jogando geralmente contra times de fábricas…<br><br> Abraços aos jogadores amadores que tiveram carreira semelhante!<br><br><br>E-mail: [email protected]