Festa Junina

A época de São João – era assim que se dizia quando chegava o mês das festas juninas. Era um tempo gostoso em que se podia soltar balão sem que nada de ruim acontecesse. <br><br>Logo no começo do mês de junho, do início daqueles gostosos anos 1950, as casas já estavam embandeiradas com as imagens de Santo Antonio, São João e São Pedro. Todas com um mastro alto, com a imagem de cada santo no topo, uma ao lado da outra, formando um triângulo; muitas com iluminação.<br><br>O dia de Santo Antonio, mesmo sendo considerado o santo casamenteiro, ainda era uma festa tímida, sem muita fogueira. O forte desse dia eram a missa e o baile de Santo Antonio (isso quando caía no sábado e domingo).<br><br>Agora, quando chegava o dia de São João, a coisa fervia. Não tinha uma casa que não tivesse uma fogueira, fogos ou que não se soltava um balão. O dia de São João representava a festa. Por isso, o povo dizia: Festa Joanina. E, na verdade, era Festa Junina, pelo fato de ser no mês de junho.<br><br>O dia de São João coincidia com o aniversário da minha mãe. Aí a festa era maior. Soltávamos muitos balões, pois meu irmão José era o baloeiro da família desde pequeno. Meu pai comprava muitos fogos, bombinhas e biribas, fósforos de cor e estrelinhas para as crianças. Já para os adultos, eram caramuru três tiros, o de um tiro canhão, que quase estouravam os tímpanos.<br><br>Lenha para a fogueira a gente já vinha guardando há muito tempo. Começava com troncos de eucaliptos de um metro e meio de comprimento, com uns diâmetros de mais de vinte e cinco centímetros, que cortavam do Brooklin para a construção de casas. Quando chegava o dia de São João, os troncos já estavam bem secos. Colocávamos de dois em dois até que ficava numa altura de dois metros. Por dentro, caixa de frutas que pegávamos na feira e que é fácil de queimar. Na hora da fogueira, um litro de álcool e um fósforo eram o bastante para quase queimar a casa.<br><br>Soltamos um balão charuto de muitas folhas, que subiu como um foguete devido ao excesso de breu que meu pai colocou na tocha. Berto, para comemorar, soltou um caramuru. Só que ele errou o alvo e o foguete estourou bem no meio do balão. Meu pai engoliu seco, porque era o filho de Dona Laura, a quem ele respeitava muito. Mas que foi de propósito, isso todo mundo sacou.<br><br>Berto era um gozador. Quando Dona Laura foi levar quentão em canecas de louça (que era outra superstição), para puxar o saco do São João e conseguir dividendos futuros, todos devolveram a caneca. Ele jogou no poste e ela se espatifou. Ainda bem que as canecas eram da mãe dele.<br><br>Aí veio a hora da quadrilha. Era uma quadrilha de pessoas inocentes, diferente das quadrilhas de hoje, que são iguais às de Brasília. Uma parte veio da igreja, a turma treinada pelas carolas, e outra parte da escola treinada pelas professoras. “Balance”, “olha a cobra”, “sai de baixo”, e por aí ia.<br><br>Na vitrola RCA Victor, um disco 78 rotações. Aquelas bolachas pretas tocavam uma música gravada por Francisco Alves. “Ó Rosa Maria, venha pular a fogueira, que a noite tá fria, levante dessa cadeira. Pega um foguete e um busca pé, venha ajudar a soltar balão. Rosa Maria não faça chiquê, que é noite de São João”.<br> <br>A vizinha do lado à dona Iésse e seu marido, Seu Alfredo, família de italianos, sempre estavam na festa. Eram vizinhos habitues de casa. Estavam no apogeu da dureza porque seu filho, Afonso, tinha pegado o dinheiro que estava escondido no armário, dentro da lata de arroz, para jogar bilhar no Bar Central da Rua Joaquim Floriano. Por isso, foram filar a bóia lá em casa.<br><br>Seu Alfredo, não sei por que cargas d´água, sempre me chamava de Mário Cagarósso. Era muito gozado ele. Contava muitas histórias da baixa Itália. Meu pai, também descendente de italianos, e meio chumbado, morria de rir. Seu Alfredo, visivelmente com a cara cheia, cantava alto assim, no estilo de Vicente Celestino. Má porca Itália, como é bela, essa merda, nessa abertura distincione!!<br><br>Quando chegava a meia noite, tinha aquelas pessoas que iam pisar descalços nas brasas. Segundo elas, era uma simpatia. E faziam com fé, que não queimava e nem doía à sola do pé. E tinha gente que pisava mesmo. Más só depois que tiravam as batatas doces que eram colocadas debaixo das brasas, para assar.<br><br>A coisa estava avançando pela madruga, e só parava quando seu Antonio, um português invocado que era feirante, veio gritando com um “berro” na mão: “Vamos acabar com essa bagunça. Preciso trabalhar amanhã!”.<br><br>Acabou a festa. Como se dizia naquele tempo, “acabou a história, e morreu a Vitória”.<br><br>e-mail do autor: [email protected]