Durante muitos anos, a primeira quinzena de janeiro para a minha família era sinônimo de férias em Santos. O meu pai alugava um apartamento bem defronte à praia. Ficávamos preferencialmente ali, no posto 6, e achávamos tudo muito lindo, sobretudo aquele jardim imenso, na orla. Muito tempo depois, fiquei sabendo que o jardim de Santos era o maior do mundo em termos de extensão. Motivo de orgulho para nós.
O nosso ano de trabalho era coroado com essa viagem de férias, portanto, esperávamos por ela com satisfação. Então, passando o ‘reveillon’, naquele tempo não usávamos essa palavra enjoada não. Era passagem de ano mesmo. Pois bem, passávamos a ‘passagem de ano’ junto com a minha tia e prima, acompanhados de um franguinho assado, maionese, farofa e refrigerante.
No dia primeiro, logo cedo, saíamos de São Paulo que, na época, não víamos com tão bons olhos assim. Afinal, era só trabalho, correria, cheiro de fumaça, ônibus superlotado. Naquele tempo, os espaços culturais eram muito mais limitados que hoje, convenhamos. Assim, ir a Santos era, para nós, a glória. E esperávamos por isso com uma boa dose de doce ansiedade.
Muito animados, íamos levando apenas o necessário, observando as paisagens, a via Anchieta com as suas belezas e a certeza de que o mar estaria à nossa espera, pronto para nos abraçar, com toda aquela abundância de boas energias. No fusca ia o pai, a mãe e as bagagens. Os outros iam de ônibus e isso era muito divertido. A praia para nós era fantástica, afinal para quem passou a vida toda em apartamento, praia significava liberdade, mais oxigênio, possibilidades para se ver as coisas lindas da natureza.
O cheiro de Santos me acompanha e me envolve quando sinto um aroma fresco que vem do mar de Florianópolis, muitas vezes passando por alguma praça pública repleta de árvores de copas largas. Cheiro de vida, com pureza e carregada da belíssima força da natureza. Em Santos era sempre hora de tomar sorvete. Eu nunca vi alguém tomando sorvete com um olhar triste. E era sempre sorvete de massa, com aquelas bolas macias, suaves e cheias de magia que faz qualquer criança fantasiar com o paraíso.
Melhor ainda era ir a São Vicente. Cidade linda, conurbada com Santos há décadas, cheia de charme e de história. A ‘biquinha’, por exemplo, quem a conhece sabe onde fica o paraíso na terra. Ainda nos anos 70, a praça era um local de esbanjamento de doces de todas as formas, cores e sabores. As barracas eram encostadas umas às outras e, quando se comprava um doce, o local que havia ficado vazio era imediatamente preenchido por outro, igualmente fantástico.
São Vicente é uma cidade histórica riquíssima. Foi ali que, em 1532, o português Martim Afonso de Souza plantou a muda da cana-de-açúcar pela primeira vez na história do Brasil. Isso equivale a dizer que a partir daquela pequena plantação e da construção do primeiro engenho – o engenho do governador – esse nosso chão passou a ser efetivamente colonizado.
Assim, a feira de doces acabou se tornando uma homenagem ao açúcar aqui produzido, responsável pela invenção de um paladar todo especial, característico, e que acabou fazendo de nós pessoas altamente criativas no ato de fazer doces com matérias-primas variadas. Quem não gosta de um docinho de leite, uma goiabada, uma figada, uma cocada, um brigadeiro???
A raiz desse nosso paladar interessante passa invariavelmente pela história construída ali na ‘biquinha’, o local onde Martim Afonso também saciava sua sede. E a bica está lá, servindo aos passantes com generosidade e abundância. E tive o prazer de levar o meu filho para conhecer essa parte da cidade, num dia de verão muito ensolarado. Nós nos fartamos dos doces e da água, trouxe um garrafãozinho para casa, afinal tratava-se de uma água muito cheia de memória.
Onde antes era a casa do Martim Afonso, hoje é um memorial muito bem arrumado, com uma estátua do português bem na frente, anunciando história. A palmeira imperial defronte à sua casa ainda está lá e a cidade guarda os símbolos portugueses e os azulejos; e as igrejas têm aquele cheiro de uma história que não se acaba.
Na areia, uma estátua do Padre José de Anchieta, aquele Jesuíta que atravessou o Atlântico imbuído de uma missão evangelizadora. Fiz questão de tirar uma foto ao lado dele, passando a mão na sua careca enquanto ele se mostrava sério, compenetrado, escrevendo na areia.
Voltemos a Santos: soube que o próprio Pedrinho Mattar gostava de sair do seu apartamento no Embaré e ir tomar raspadinha na praia e, uma vez, dedicou uma música no seu programa Pianíssimo ao rapaz da barraca da raspadinha.
Santos e São Vicente era, para nós, uma extensão de São Paulo no seu sentido literal. Era o espaço para se refazer, se recompor dos tempos de correria. Responsabilidades a toda hora, compromissos sem fim. Por isso essa pequena homenagem às duas cidades, que me ajudaram a pensar na importância do encontro e da valorização da natureza.