Feiras-livres. E clorofórmio

Quando moleque, desde 5 anos, acompanhava minha mãe às feiras-livres. Meados dos anos 50. Quando morei, até os 20 anos, na então linda Vila Mariana.
Feira-livre sempre foi a "salvação da pátria" das classes menos favorecidas. Mas sempre estiveram em "bairros nobres", também. Como hoje. Muito importantes e indispensáveis. Ainda que os moradores reclamem, de madrugada, de quando as barracas vão sendo instaladas. E muitas vezes, sob o frio e a chuva, não, paulistanos?
Morávamos na José Antônio Coelho e, num raio de dois quilômetros, durante a semana havia várias feiras. Na Alcino Braga, por exemplo, lugar nobre. À época, perto dos quartéis do Exército. Lembro até que, na esquina da Rafael de Barros, ficava estacionada uma "barraca" (uma carreta, às vezes) da COAP (acho que "Cooperativa de Abastecimento Popular"), do Governo – onde eram vendidos alguns gêneros mais em conta. Isso, num lugar como aquele, quase Jardim Paulista.
Outra feira era (se não me engano), aos domingos, ao lado do "Largo de Santa Generosa", comecinho da Tomás Carvalhal. Não lembro com precisão.
Como ainda hoje, ocorria a presença de portugueses, italianos e japoneses. Deles, eram as barracas de verduras e hortaliças, principalmente. A da Alcino Braga era até uma feira mais "VIP", pois lá havia produtos um pouco mais caros.
Lá por 1956 ou 57, também eu ia ao Centro – não para feiras – mas ao médico. Gostava e detestava.
Gostava: era lá na Martins Fontes. Predião enorme, em frente à DRT. Passou, no final, para o então INPS. No começo, era dos eletricitários da Light e dos ferroviários. Caixa de Aposentadorias e Pensões, coisa assim. Meu pai era "lightiano", do Cambuci. Trabalhava na limpeza e pintura dos lindos "lampeões ornamentais", de ferro, que ainda subsistem, no Centro. E também dos bondes da CMTC, cuja manutenção ainda ocorria no Cambuci.
Eu passava em frente do Largo da Memória: aquelas escadas, o obelisco, a fonte; os azulejos com o brasão de São Paulo; aquele paredão de pedras, da Xavier de Toledo: tudo isso me encantava.
Detestava: muitos médicos – logicamente, não todos – tinham aspecto muito sério, sisudo até – quando não assustador, para uma criança. De aventalzão comprido e aquele equipamento circular, com um furo central, afixado na testa, muitas vezes impressionavam um paciente infantil. Ocorria até de um tratamento um tanto frio, de quase nenhuma conversa. E o meu medão de "operar as amígdalas". Que se concretizou quando, certo infalível dia, fui amarrado à mesa de cirurgia. No então "Sanatório Santa Catarina". E sufocado com clorofórmio, dando um tranco na minha consciência: desmaiei, por fim. Terror, no mais exato padrão dos interrogatórios da Gestapo, como se vê em filmes de guerra… Exagero, não?
No segundo dia de convalescença, à noite, fui até a sacada do segundo andar. Lá embaixo, na Paulista molhada pela garoa, passava um bondinho aberto, da linha Avenidas. Que vontade de estar nele e sair voando daquele lugar! Clorofórmio, hein! Recomendado somente aos inimigos…
Retomando as feiras. Uma outra, de que me lembro, era para ir de bonde. Aos domingos. No "Largo de Moema", quando o lugar era chamado ainda de Indianópolis. Hoje, para a Municipalidade, é Moema, não? À época, até ruas não asfaltadas. E a "Brindes Pombo", a "Metalúrgica Barbará"…
Havia também, não me lembro em que dia, a feira-livre na atual Avenida Dante Pazzanese. Conhecida como "feira do Biológico". Àquele tempo, apenas uma interligação entre Rodrigues Alves e o Ibirapuera. Não me recordo se tinha nome tal via. O Instituto Dante Pazzanese, creio, não ainda edificado. Aliás, lá, edificação nenhuma.
Quero registrar, com licença do site: o trabalho árduo dos feirantes nem sempre é devidamente lembrado. Em São Paulo, foram gerações de trabalhadores que, contra adversidades, deram duro e fazem parte da história do desenvolvimento urbano da Paulicéia. Feiras-livres são tradição paulistana. Merecem, pois, os feirantes, de todos os tempos e de todas as origens, nosso reconhecimento. Sem as feiras, seria até o caos. Alimentar e financeiramente falando. Fica, pois, registrado.

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