Feiras livres do Bixiga…

Década de sessenta. Ainda transpira nos jornais o impacto da renúncia de Jânio Quadros à presidência. Os militares movimentam-se lentamente para os golpes de 31 de março de 64 e a Willys Overland do Brasil lança aquele que seria o símbolo de status, o "Aero Willys – 2600".

No meu velho e bom Bixiga, a vida seguia seu rumo. Gente caminhando pra lá e pra cá na velha Rua Santo Antonio, meu tio Rafael, sempre na porta de casa, inteirando-se das novidades (era membro honorário do DIVA – Departamento de Investigação da Vida Alheia) e, por lá, colhia as informações de tudo e de todos, para depois comentar com os outros membros de sua "sociedade".

A quase pacata situação de minha rua só era quebrada nos dias de terças-feiras quando, no trecho da mesma Rua Santo Antonio e a partir do local denominado "cinco esquinas" (Santo Antonio/São Domingos/13 de Maio/Santo Antonio/Delegado Everton/Santo Antonio), indo até a Rua São Vicente, era instalada a feira livre.

O movimento começava logo às primeiras horas do alvorecer quando, barraqueiros e barraqueiras (no melhor sentido da palavra), armavam suas tendas para a venda de seus produtos. O burburinho tinha início já às seis horas da manhã e atingia a sua efervescência a partir das oito horas da manhã, com uma sinfonia de vozes que, misturadas a todos os timbres, anunciavam frutas, legumes, hortaliças, peixes, embutidos, cereais, ervas, novidades etc.

O vai-e-vem de carrinhos e sacolas das senhoras donas de casas, empregadas, patroas, meninas-moças, e até alguns senhores era constante naquele trecho quase que exíguo da artéria (que já não era tão larga assim), mas dava-se sempre um jeito. Afinal a feira estaria lá até a metade da tarde para atender a todos.

Minha mãe, a velha dona Maria, assídua freguesa daquela e de outras feiras livres, tinha por costume fazer várias inserções em suas compras. A primeira era para pesquisar os preços. A segunda, para a aquisição do que mais imediato precisasse. A terceira, para uma "pechincha" mais incisiva e a quarta, para aproveitar os preços da "xêpa". Ainda havia mais uma investida, desta feita a minha, quando ia catar algumas sobras de hortaliças e verduras para complementação alimentar das galinhas e patos, crias de meu pai. Por ser feira móvel, dois dias após sermos servidos em nossa rua, a feira transferia-se para a Rua Rocha, nos dias de quintas-feiras (se não me engano), e lá, a rotina seguia seu roteiro mais uma vez. E lá ia a minha velha e saudosa mãe em mais "via crucis", na luta pela economia.

Nos dias em que não havia feiras livres, éramos servidos por vendedores ambulantes que, empurrando uma espécie de carroção tipo plataforma (ou bancada), seguiam pelas ruas do bairro (as planas, evidentemente, posto que os tais carroções pareciam ser muito pesados) e, anunciando suas vendas (frutas, verduras e hortaliças), utilizavam-se de um inusitado sistema de divulgação, alcunhado de "boca de lata", que era um cone metálico com um bocal que aplificava a voz e podia ser propagado até certa distância. Tais carroções, por serem muito pesados, eram empurrados por dois ou três vendedores (era uma sociedade horti-fruti granjeira) e, quando tinham que atingir uma ou outra ladeira, a união da força humana era necessária. Nas descidas, então, era um "deus-nos-acuda". Enquanto apenas um ficava no comando direcional, os demais atuavam como "freios ou redução de marcha". Fora estes contratempos, tudo seguia na mais perfeita ordem e as vendas eram realizadas, e o que era melhor, sempre se conseguia um bom desconto ou uma boa "quebra" nas compras.

Outra feira que também teve sua importância e sucesso nas redondezas foi a da praça Roosevelt, nos dias de sábado. Essa era enorme e bastante concorrida.

Dado ao tamanho da praça, barraqueiras das mais diversas localidades por ali se instalavam para venderem seus produtos.

A variedade de gêneros era mais apurada com frutas e hortaliças de todas as espécies e procedências.

Frutas da estação, nobres, nacionais e importadas, hortaliças e verduras dos mais variados tipos, além dos cereais, secos e molhados, peixes, embutidos, enlatados, confecções, ervas milagrosas, produtos naturais etc.

Também chamava a atenção os velhos carregadores de compras. Eram sempre senhores de meia (ou alta idade, a exemplo de meu tio Pedro) que, com um grande cesto de vime trançado e uma rodilha de pano para a cabeça, enchiam os tais grandes balaios com as compras dos fregueses e transportavam-nas até suas residências.

Havia uma tabela de preços para tal frete e a depender da distância o preço subia, mas nada que pudesse amendrontar o cliente.

Hoje, passados mais de quarenta e cinco anos daquela época, não temos mais as feiras livres. Os super/hiper/mega mercados se instalaram nas esquinas, nas grandes lojas e nos grandes espaços, oferecendo-nos, além do necessário, o que de mais supérfluo tenha e as pessoas adquirem.

Os velhos carroções e seus cones "boca-de-lata" sumiram. Em seus lugares estão as velhas kombis (alguma nem tão velhas) e agora utilizam-se do sistema Delta de sonorização com alto-falantes.

As sacolas e os carrinhos já são obsoletos e as compras deixaram de ser conduzidas por carregadores profissionais. Agora temos o nosso carro popular que, mesmo sendo "hatch", comporta em seu porta-malas as compras que o cartão de crédito permite levar (se o espaço não for suficiente, acomoda-se no banco traseiro).

Tudo muda neste mundo. Só não muda as minhas saudades e as minhas lembranças, e as barraquinhas toldadas das feiras livres, me parece, ainda podem ser vistas no bairro de Higienópolis e com tabelas de preços em reais, dólares e euros. Eu hein!

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