Essa historia começa 30 anos atrás. Um jovem garoto de 18 anos acaba de tirar a sua carta de motorista e trabalha de empregado com seus parentes na feira em barracas de frango e miúdos bovinos. De repente seu irmão também feirante compra uma barraca do mesmo ramo para trabalhar, pois também era empregado, e passando algum tempo alguém lhe ofereceu outra barraca que ele comprou, mas não tinha quem tocasse e deu a várias pessoas que no fim largava. Estando eu na casa dele certo dia ele me disse: Neco, você não quer tocar a barraca? Você já tirou a carta de motorista… Eu fiquei pensando, porque trabalhava de empregado e esta barraca era muito difícil, porque tinha muita concorrência e tudo com feirantes antigos, e eu começando agora sem prática de dono, só de empregado, fiquei pensando um pouco e pensei quem sabe? Falei para o meu irmão: eu topo! E já peguei o caminhão bem antigo da barraca e levei para casa, minha mãe falou: de quem é este caminhão?! Falei: é do Roberto, e ele deu para mim tocar a barraca dele. Ela falou: mas você nem sabe dirigir direito ainda e já me pega um caminhão com barraca e tudo?! Eu disse: o pai vai comigo pra começar. No outro dia já estávamos na feira trabalhando, andei por várias feiras, comecei várias novas… Em quase todo São Paulo já montei minha barraca. Conheci minha mulher Vera Lúcia, que também me ajuda, e também vieram 3 filhos, Fernando, Luciano e Adriana, todos foram criados indo para a feira desde pequenos no caminhão, saindo de madrugada com mamadeira e cobertor e lá íamos nós, cada dia pra um lugar diferente.
Eu comparo os feirantes a artistas de circo, que cada dia estão em um lugar diferente, e não podem repassar para os fregueses os seus problemas, as tantas dificuldades que têm que enfrentar no seu dia a dia, e com sorriso e às vezes com alguma brincadeira distraem seus problemas e alegram os fregueses. Estou hoje com 48 anos e nesta estrada já se vão 30 de trabalho contínuo, sem domingo nem feriado, e de terça a domingo. Estou relatando minha história para quem pensa que feirante é pessoa de baixa classe ou a ralé, que pense bem porque não e nada disso, feirante é um trabalhador muito árduo, que levanta cedo, às vezes não ganha tão bem assim e tem que estar sempre animado, com sorrisos e brincadeiras, porque o negócio exige que seja assim. Queria agradecer a quem ler e entender nossa luta, os feirantes já foram responsáveis por 80% de toda a escoação de hortifrutigranjeiros de São Paulo durante vários anos e ainda somos responsáveis pelo menos por uns 60%. Esta cidade já dependeu em grande parte de seu abastecimento pela feira, a querida feira livre de São Paulo.
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