Faz-de-conta que é gol! II

Anos 50, já mais de meio século! Que moleque paulistano de então é que não jogava botão? Futebolzinho de faz-de-conta. Pois se ainda havia jogo de botões de osso, quanto mais os de plástico, não? Eu mesmo cheguei até a "ganhar" um time dos de osso. Incompleto, até sem o goleiro. Servia só para completar outros times. Distintivinho gravado como se em baixo-relevo, bonito. Lembram-se, contemporâneos de meus 63 aninhos de Paulicéia?

É claro, cada turma de colegas de cada rua, de cada bairro, tinha maneiras próprias dentro do comum de jogar botões: regras, bolinhas, times diferentes. Mas cabe aqui lembrar. Pitoresco, só. Memória de paulistanice. Futebol-de-botões, também denominado de futebol-de-mesa. Que sempre joguei foi mesmo no chão: mais prático.

Afora os times de botões digamos "oficiais" – aqueles de fábrica, mormente vendidos em pequenos bazares e lojinhas – é claro que a molecada improvisava. Alegria e emoção não se confinavam às caixinhas de papelão, dos botões manufaturados no Brás.

Era Vila Mariana, período entre as Copas de 58 e 62. Que moleque aficionado por botões é que não tinha um time do scratch canarinho? Não eu. Mesmo com toda a empolgação desencadeada pela camisa amarela com o belo escudo da C.B.D.

Não era que eu deixasse de torcer pela seleção do craque-café (cuja camisa, a da seleção, a que mais gostava era a azul, a da decisão com os escandinavos). Ocorria que meus timinhos de maior simpatia eram outros, simplesmente.

Paulistanos de meu tempo lembram. Times de botão que a gente criava usando tampas de relógio – de bolso ou de pulso. De modelos masculinos, maiores. Tampas de relógio que a molecada impropriamente dizia "lentes". Ou celulóide, ou algo assim. As quais obtínhamos, de graça, dos consertadores de relógio. De portinhas estreitas, balcãozinho pequeno, um cubículo. Geralmente dentro de algum estabelecimento. Eram senhores japoneses que consertavam relógios, garantido. Alguns chegados depois da Guerra, diziam.

Caro contemporâneo. Tu também tiveste time igual? Era pegar cada tampa daquelas – ideais eram as não-planas, as "convexas". Como uma quase calota de quando a gente corta uma laranja bem no topo, não? Porque as bordas inclinadas da tampa (ou seja, o botão) davam belo efeito na "bolinha": encobrir o goleiro. Fizeste gol assim, contemporâneo?

Já na face interior da tampa – o côncavo – a gente passava um durex (scotch). Diametralmente. Para pintar o resto com esmalte de unha. Vidrinho surrupiado de alguma irmã ou mãe. Fosse qual devesse ser o time, nossos botões eram todos vermelhos – só variava o tom. Ficava, pois, por conta dos Peggy Sage ou Palermont. Tinha até algum time de esmalte branco. Mais caro, mais improvável de rapinar. Valia a pena. Porque a alma (juvenil) não era pequena.

Pois naquela faixa transparente, protegida do esmalte pelo durex, um outro durex então grudava a cara do jogador reverenciado: figurinha de álbum. Ou só o nome daquele craque. E se o pai do moleque tinha máquina de escrever, o cara esnobava: nome do craque datilografado. Direto de alguma Royal ou Facit sueca; de uma Underwood ou Remington-Rand – esta com dois tipos de maiúsculas, quem lembra? Ou de uma Olivetti Lettera – na qual eu viria a aprender e adorar datilografar, aos 14 anos.

A "bolinha" do (nosso) jogo! Nós, molecada da José Antônio Coelho com Caravelas. A bolinha era um minúsculo dado. Sim, pequenino dadinho – paradoxo – o qual em sendo cubo, rolava melhor que se esfera fosse! Por quê? Expliquem-no física e geometria, não moleques daquela época.

O goleiro. Um mastodonte se comparado aos jogadores-botões. Pois era o guarda-valas uma caixa de fósforo (Fiat Lux?) recheadinha de areia. Para "dar" peso. Revestida com capricho, papel colorido com o nome do quíper e o escudo do time ("logotipo" ainda não tinha nascido). Espalmava, fazia ponte e encaixava (faz-de-conta). Frango por baixo das pernas? Para uma caixa de fósforos, impossível… Tampouco usavam bonés, como goleiros europeus que "A Gazeta Esportiva Ilustrada" mostrava.

Traves: um capricho! Eram de arame e rede (quase uma rede de gol): tecido rendado imaculadamente branco. Que o dadinho-bola sacudia como as redes do Pacaembu! Era o que imaginávamos. Só faltava aquela multidão de torcedores. Que, dias de jogos, vi poucas vezes, desciam dos bondes nos pontos da Angélica, perto do belo Estádio…

O mesmo de nossos colegas que teve a criatividade de montar as traves também construiu um belo quão enorme campo, de madeira. Quase até dava para nele a gente entrar, na hora de jogar. Foram torneios e campeonatos, principalmente tardes de sábado. Nas quais invariavelmente minha mãe fazia deliciosos bolinhos-de-chuva. E fritava Mandiopã – para mim ao qual nada se igualava em matéria de insípido. Iguarias essas às vezes transferidas para a tarde de domingo – quando então eu não perdia o programa "Festa na Roça", da Rádio Tupi – do "Zé do Mato". "Toca bandinha, toca: vai tocando sem parar…".

Meus "heróis" do celulóide eram de times "pequenos": Portuguesa (a praiana), Botafogo de Ribeirão (da Vila Tibério, informavam locutores) e Ferroviária. Timinhos que faziam sucumbir um Real Madrid ou uma Fiorentina, quando não a seleção "russa" – cujos botões tinham a inscrição C.C.C.P… Timinhos meus que também sucumbiam, frente a times outros até sem nome. De jogadores diferentes um do outro, quando não um botão de paletó ou jaqueta…

Apito final: Prrr! O tempo passou, os botões mudaram de cara, como nós, ex-moleques, a Vila Mariana e São Paulo. Botões outros, horrorosos, surgiram. Lisos, de acrílico, desprovidos de charme. Vendidos em cartelas, em bancas de jornais. Botões anódinos. Não encobriam goleiro algum: nem um goleiro-pigmeu. Botões feiosos que não se distinguiam da própria fichinha de impulsionar. Eram um gol de impedimento, um gol de canela…

Daquele futebol de faz-de-conta só restou, no fundo da rede, a nostalgia. A qual remete minhas lembranças à São Paulo de que mais gostei: a de minha infância e um pouco além. Imagens que velhice alguma irá apagar. Lembranças tão distantes no tempo, mas tão perto do coração. Pertinho, como a marca do pênalti está para o gol… É só fazer de conta que o tempo parou.

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