Eu nasci em São Paulo, bem pertinho da Avenida Paulista. Cresci aqui nessa cidade de fatos e pessoas estranhas. Muita gente já escreveu sobre São Paulo, mas eu gostaria de registrar algumas impressões sobre esse local singular, onde é possível se ver de tudo um pouco – e ainda um pouco mais.
Há coisas por aqui que não entendo. Por exemplo, quando passamos pela lateral da Catedral da Sé. Eu já havia visto gárgulas exóticas, como as do Palácio das Indústrias, no Parque Dom Pedro, que são em forma de cachorro magro uivante. Mas as da Sé são em forma de sapos. Isso mesmo: sapos, e ninguém sabe explicar o porquê de sapos estarem numa parede lateral externa da igreja. Assim como outro fato curioso sobre igrejas: os signos do zodíaco no Mosteiro de São Bento. Quem entra no mosteiro vê, no teto, os doze signos do zodíaco pintados. E pelo o que sei em minha vã ignorância, a igreja não aprova a astrologia…
Outra coisa incrível que vemos por aqui são os nomes de ruas. Há nomes singelos, curiosos e absurdos. Temos a Rua do Bucolismo, próxima à Rua Alegria – e entre elas uma unidade do que se chamava FEBEM e hoje se chama Fundação CASA. Há várias homenagens à música: Rua da Música Aquática, da Música da Bruma, Travessa Música de Boa Noite, Travessa Música do Dilema, Rua Música Leve, Música Misteriosa e Música Outonal. Para quem não acredita, é só consultar o guia (porque ir in loco não recomendo; quanto mais estranho e fofo o nome, mais longe a rua). As danças também são homenageadas: tem a Rua Dança Brasileira, a da Dança Cigana, Dança Crioula, Travessa Dança da Canoa, Dança das Borboletas, das Luzes, das Horas, do Cavaquinho, de São Gonçalo, do Fogo, do Manjericão, do Pajé, dos Sabres, dos Sete Véus; Rua Dança Inacabada (o parceiro fugiu?), Danças Caipiras, Danças Húngaras e Rua Dança de Anitra (quem?). Ufa! E não para por aí. Já estive na rua-trocadilho Armando Pinto. Na Rua Céu Vazio (hein?). Na Praça Chá da Alegria (imagine se esse chá não é nenhuma substância ilícita…). Rua Chamatu (eu não!). Rua Cismas do Destino. Rua Brinco de Príncipe. As Travessas Coração Entristecido e Coração Selvagem. Rua Sol da Meia Noite. E a mais absurda: Rua Lembranças do Futuro! Será que foi Arnold Schwarzenegger quem a batizou?
Isso sem contar nomes de bairros como Jardim Shangrilá, Filhos da Terra (batatas?), Vila Nhocuné, Jardim Fada, Jardim dos Bichinhos, Jardim do Tiro (esse é bom)… Agora imagine o cidadão que mora num lugar com esses nomes na hora em que precisa dizer o endereço… Sempre deve ouvir piadinhas infames…
As placas de comércio também eram um capítulo à parte por aqui. Com a nova lei da prefeitura, ganhamos uma cidade mais limpa e perdemos um pouco de diversão. Não me esqueço de uma da academia do bairro onde eu morava: "Temos Curso de Medo D´água". Era tudo o que eu precisava! Que graça tem nadar sem medo? O interessante é o frio na barriga na hora de pular na piscina! Natação com emoção!
Essa cidade tem muita coisa que surpreende qualquer um, nas quais podemos prestar atenção quando não estamos preocupados com o horário ou com o sujeito suspeito que nos segue. Coisas "estranhas" como grilos nas noites do Brás ou maritacas no centro do Centro, bem na Praça da Sé. Coisas que, às vezes, nos distraem de tantas tristezas e misérias que nem sempre podemos mudar, vistas todos os dias pelas ruas de São Paulo.
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