Eu tenho tanto pra lhe falar…

Fui aluna do Estadual da Penha nos anos 1960 e estudei durante nove anos nesta escola. Para mim considerada minha segunda casa, participando ativamente das atividades da escola, lá estava eu nos passeios, nas viagens, no coral e tantos outros mais, mas a fanfarra era minha atividade predileta. Fiz um teste, o instrumento mais indicado foi a caixa de guerra e assim permaneci com ela, durante os nove anos que lá estudei.
O Estadual da Penha era considerado o melhor do Bairro da Penha e vilas vizinhas, era muito difícil uma vaga, por esta razão tínhamos uma responsabilidade enorme pelo lugar que ocupávamos. Era a escola que mais colocava alunos na USP, sem fazer cursinho e os mais procurados eram medicina, direito e engenharia.
Foi lá que passei parte de minha juventude, lugar em que meus pais confiavam plenamente. Apesar da linha pedagógica tradicional e autoritária, foi lá que aprendi muitas coisas e formei meu grupo de amizades que dura até hoje.
Tínhamos o privilégio de ter uma escola com uma infra-estrutura adequada e rica para a época em que vivíamos, com laboratório de química, física, ciências naturais, um teatro maravilhoso, piano, piscina, vestiário, quadra, sala para alunos especiais, cantina, pronto socorro, grêmio, biblioteca e uma belíssima fanfarra, ganhadora de muitos prêmios, nos concursos que a Record promovia e que aconteciam no Vale do Anhangabaú. Um currículo com treze ou quatorze disciplinas e um corpo docente escolhido a dedo.
Esta escola era limpa, cheirosa, o chão dos corredores eram encerados e brilhantes, os vidros estavam sempre inteiros e limpos e não era pichada.
Grandes e boas lembranças tenho do Estadual da Penha, mesmo não concordando com atitudes de alguns professores que excediam o poder que tinham nas mãos e muitas vezes cometiam injustiças.
O tempo passou e aos poucos esta escola ficou irreconhecível, depois de mais ou menos uns trinta anos, fui visitá-la e quanta decepção, nem física, nem moral, nem culturalmente a mesma. Mas posso dizer que o amor e a união foram mais fortes e hoje a escola conta com a ajuda de terceiros, associações, nosso grupo de ex-alunos, pais, o HSBC e o governo, unidos para ajudar na restauração desta escola que voltará a ser novamente o orgulho do bairro da Penha, pois será restaurada por completo e ainda complementada com as necessidades dos tempos modernos e atuais.
No ano passado fui uma das escolhidas a dar um depoimento sobre a escola, em um dos projetos de sensibilização para os alunos. Me emocionei ao entrar carregando a bandeira do colégio de que sempre me orgulhei. Imensurável o sentimento do momento, mediante as turmas dos segundos e terceiros anos do ensino médio. Confesso que nunca imaginei que um dia viria fazer uma apresentação de tão importante significado, para mim e para os atuais alunos. Quando eu poderia imaginar que um dia eu voltaria para a escola de coração aberto cheinho de emoção e expressar para todas aquelas criaturas ainda tão jovens, como foi e ainda é grande meu amor pela casa que me abrigou e fez parte de minha vida e da minha história?
Na colação de grau do Curso de Formação de Professores, cantei aos soluços no maior coral que esta escola já teve, com quase cem normalistas, aliás, a apresentação quase que foi só soluços e até o maestro, Professor Paulo, se emocionou, ainda mais que letra e música eram de sua autoria. Não lembro na integra, mas era mais ou menos assim…

Adeus escola, adeus, adeus… Chegou a hora de partir… Da casa que nos abrigou… Levaremos o porvir… E as nossas vozes vibrarão… Cantando esta canção… De despedida dos filhos teus… Adeus escola, adeus, adeus…

Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer, meu querido "Estadual da Penha"… Como é grande o meu amor por você!

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