Eu sou fera

Antes de qualquer coisa, “deixa-me deixar” (perdoem a redundância) bem claro que se eu nunca fui um craque de bola, também nunca fui um perna de pau. Eu era e ainda sou, porque apesar dos meus 6.2, ainda dou meus chutinhos e meus piquezinhos, como um bom jogador de bola. Aquele cara que o pessoal escolhe para jogar no seu time ou aquele tipo que a moçada vai a casa convidar para jogar. Lá pelas bandas da Parada Inglesa e adjacências, joguei em todos os times de ponta. No Parada Inglesa, no Internacional, no Palmeirinhas do Carandiru, na Portuguesinha do Tucuruvi, no Danúbio Azul e por ai vai.

Foi lá pelos anos 60 e 70. Antes que eu caísse na clandestinidade, perseguido pela ditadura militar. Mas se tinha uma coisa que eu não gostava de fazer era jogar futebol de salão. Esta não era realmente a minha praia, mas por insistência dos amigos, entre 1970 a 72, quase todo sábado, lá estava eu na quadra do Real Madrid, nos altos da Rua Promerim, defendendo o Parada Inglesa Futebol de Salão.

Um belo dia, em um destes jogos qualquer, eu fiquei cercado na quina da quadra, de costas para o campo com um marcador implacável fungando no meu cangote. Eu não tinha o que fazer e pensei comigo: vou virar rápido e chutar a bola em cima dele, assim ganho um escanteio.

Foi o que fiz, mas o meu marcador percebeu minha estratégia e tirou o corpo de lado, de tal maneira que a bola não pegou nele. Só que ela tomou um efeito tão estranho, que formando um arco para dentro da quadra, foi entrar bem no angulo do goleiro inimigo. Quando vi a bola balançando as redes adversárias, sai correndo e gritando:
-“Eu sou fera, eu sou fera.”

Mas vocês querem saber, até hoje eu não sei como fiz aquilo. O gol mais bonito que marquei na minha vida, foi sem querer.

Dizem que é sorte de “boleiro”, fazer o que?

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