Eu no convento (aos oito anos de idade)

Era o ano de 1964, começava a ditadura militar, mas eu e minha amiga Isabel, aos oito anos de idade, não tínhamos muita ideia do que era isso. Nossa rotina era escola e brincadeiras. Para nossa sorte, morávamos em um convento de Carmelitas (calma, não dentro dele, mas no mesmo terreno). O pai de Isabel era o sacristão e minha mãe a governanta do pároco da igreja.
Nos divertíamos muito, nosso "quintal" era praticamente um sítio (comparando não só pelo tamanho, como pelo verde predominante).

Como crianças curiosas, apesar de respeitosas as coisas da igreja, fazíamos planos "mirabolantes" para subir o muro do convento e ver a parte que nos era proibida. Havia histórias do que se passava por traz das "muralhas", nenhuma confirmada, mas que aguçava nossa curiosidade. Assistíamos encantadas as ordenações das moças que, se tornando carmelitas, não voltaríamos a ver seus rostos (naquela época viviam enclausuradas, os únicos que tinham acesso a elas eram: o médico e o sarcedote).

Uma das irmãs permanece em minha memória após tantos anos (quase 40), seu nome no celibato era Clara, eu nunca a vi, mas conversava muito com ela através da "roda" (um mecanismo existente na época para se entregar e receber pequenos embrulhos ou alimentos para as irmãs em clausura).
Ela nos perguntava muito sobre como era o mundo aqui fora, ela estava lá dentro (sem contato nenhum com o exterior) há mais de 60 anos. Pela voz devia ser bem "velhinha", sua voz era muito doce…

Contávamos (eu e Isabel) com muita animação sobre a televisão que havia chegado ao Brasil, e ela, obvio, não entendia como podíamos ver pessoas dentro de uma caixa (risos), os "carrões" que agora circulavam, a moda atual, Roberto Carlos, quatro rapazes (esquisitos) da Inglaterra. Enfim, ela ficava atualizada conosco e nós duas ouvíamos lindas histórias do que ela lembrava de sua infância simples do interior, sua opção por ser freira, a clausura…

Lembro-me bem, do último natal em que a "ouvi", eu ganhei um piano de brinquedo (claro) e a Isabel uma boneca que chorava (os mais antigos vão se lembrar, aquelas que precisava deitar para emitir um som de choro que vinha das costas). Fomos correndo a "roda" e chamamos pela irmã Clara para mostrar os brinquedos. Juro para vocês eu não vi sua expressão, mas senti toda sua emoção ao tocar aquelas novidades. A boneca "chorou" várias vezes depois que explicamos como funcionava, e do piano, apesar de brinquedo e desafinado, soou uma linda canção .Jamais esqueci aquela cena. O Convento era: Convento de Santa Tereza / Jabaquara / São Paulo.

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