Eu era pequena, quase do tamanho do misterioso móvel de onde saía a voz do rádio, quando me habituei a sua companhia diária, suas informações – na casa de vovô, a "Hora do Brasil" era ouvida diariamente -, suas músicas… Ah! Isso era o que eu mais gostava, e que nos acompanhava durante as longas viagens pelas estradas precárias a caminho do interior, por cerca de cinco, seis, até mais horas, depois tão encurtadas pela Rodovia Anhangüera e mais ainda pela Rodovia Castelo Branco, quase sem curvas e rampas, que as reduziu para noventa minutos! Inacreditável! Era o progresso que chegara.
As pessoas eram bonitas e elegantes, vestidas com tailleurs de mangas compridas, colares de pérolas, anéis de ouro e, muitas vezes, solitários de brilhantes que adornavam os dedos das senhoras, sem risco algum, quando iam de ônibus para o centro da cidade fazer suas compras.
A cidade era tranqüila, todos se tratavam com respeito e educação e as pessoas humildes, trabalhadores, eram educados e corretos. Podíamos permitir seu acesso dentro das nossas casas onde realizavam os mais diversos serviços: pedreiros, pintores, jardineiros, encanadores, lavadeiras, quituteiras em época de festas, algumas vezes trazendo o filho menor que permanecia no quintal a seu lado sem incomodar ninguém, educado e limpo.
Eram bons tempos, podíamos acreditar nas pessoas sem temê-las. Em dias de festa, as casas permaneciam com a porta de entrada aberta, para os convidados irem entrando na medida em que chegassem. Depois das festas, era comum vermos alguns mendigos que permaneciam discretamente na calçada em frente, do outro lado da rua, na esperança de um lanchinho especial, que nunca faltava. Depois de dar alguns pratinhos para a quituteira levar para sua família, parte das sobras mamãe colocava num pacote para dar aos que esperavam ali em frente, que, felizes, recebiam abençoando e agradecendo com toda a educação!
A fartura imperava na maioria das mesas paulistas. Nas conversas dos adultos, ainda se falava muito no longo tempo da ditadura de Getulio Vargas, que, por sinal, foi um dos nomes que mais ouvi na "Hora do Brasil". Ouvia tanto que pensei que ele fosse o dono dela. Vovô me explicou que ele dirigia o país, portanto ele mandava mais do que naquele programa! Ele mandava no país inteiro! Puxa! Pensei… Ele devia ser muito grande e forte para conseguir fazer isso sozinho!
Lembro-me ainda do meu aniversário no ano do quarto centenário de São Paulo, 1954; minha mãe, como sempre fazia, organizou a minha festa. O vestido novo já estava sobre a cama, o bolo de aniversário no formato de uma linda casinha de bonecas, realizado pela habilidosa quituteira, quando o rádio deu a noticia que deixou os adultos estarrecidos: o presidente Getulio Vargas havia se suicidado no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Falavam em estado de sítio, momentos de apreensão, e eu não conseguia entender nada, pois naqueles momentos importantes, sabíamos que deveríamos ficar quietas para que pudessem ouvir as notícias no rádio das quais, em hora oportuna, seríamos comunicadas. Eu ficava quieta, mas pensava: Por que tanta apreensão? Se era estado de sítio (eu adorava o sítio do papai, era um local delicioso), num palácio cheio de laranjeiras, puxa, ele podia chupá-las à vontade… Uma cidade inteira transformada num sítio cheio de laranjas ia ser muito bom… Por que estavam todos assustados?
Era muito difícil entender os adultos… Falavam muito na filha dele, Ivete Vargas, que também estava no Palácio. Mas, afinal, o que era suicídio? Será que naquele palácio existia isso além das laranjeiras? No correr do dia, fiquei sabendo que o Getulio havia morrido. Não se explicava o que era suicídio, mas, para mim, era o nome da sua morte. Assim descobri que morte tinha nome, mas não entendia bem porque as pessoas teriam medo de vir ao meu aniversário, de sair de casa à noite naquele dia, pois ali ninguém havia morrido!
Aquela festa de aniversário foi um desastre. Nunca mais me esqueci do Getulio, que eu nem conhecia e que morreu no dia do meu aniversário! Que azar o meu! E no ano do quarto centenário…
À noite, algumas pessoas muito chegadas (na realidade, apenas avós, que fazem de tudo pela felicidade de seus netos, e duas tias, que moravam muito perto, além dos meus pais) comemoraram de modo bastante tranqüilo e discreto aquela data, fazendo-me assoprar as velinhas para aqueles poucos adultos, pois as crianças ficaram em casa.
Sem entender muito o que acontecera, fui dormir bem desiludida.
Pela manhã, eu e mamãe levamos uma porção de travessas de comida para a Igreja, além do bolo quase inteiro, para serem aproveitadas pelas crianças da creche e do orfanato, pois ninguém iria dar cabo daquela comilança toda. Na creche, a velinha do bolo foi reacendida e todas as crianças cantaram parabéns, o que me fez sentir muito feliz e acredito que a elas também, por terem bastante bolo para comer à vontade e, dessa maneira, minha mãe cumpriu sua palavra de que eu teria um aniversário cheio de crianças.
Esquecido rapidamente esse episódio, depois de um tempo, começaram a falar num outro presidente: Juscelino Kubitschek, que era médico como papai e que, com certeza, seria o próximo presidente da República do Brasil!
Simpático, sorridente, sempre feliz, cativava quantos pudessem ouvi-lo na rádio e vê-lo na recente TV Tupi Difusora, Canal 3, em branco e preto.
Foi o que aconteceu em 1956, quando o Brasil todo assistiu à chegada dele ao poder, e comemoramos um aniversário inesquecível naquele ano, com a presença, dentre muitos convidados, de um garoto de incríveis cabelos vermelhos, o "Fogueira", como o chamavam, que me incendiou de felicidade e que anos depois seria meu marido. Essa comemoração foi feita com muita alegria, quando todos falavam da modernidade de Kubitschek, como era familiar e popularmente conhecido, o Presidente que prometeu progredir 50 anos em 5…
Dois anos depois, em 1958, entrou no ar uma nova rádio, pertencente ao famoso grupo do Jornal Estado de São Paulo, com equipamentos moderníssimos, um padrão de locução e vozes inconfundíveis, que nos permitia sintonizá-la sem olhar para o dial do rádio, apenas pela programação cultural de alta qualidade e pela "voz padrão Eldorado". Instalada no sétimo andar do prédio do próprio jornal "O Estado de São Paulo", na Rua Major Quedinho, número 58, onde anos depois eu passaria minha noite de núpcias no Hotel Jaraguá de São Paulo.
Cresci ouvindo a Eldorado diariamente pela manhã antes de sair para o colégio, suas idéias democráticas, suas informações sobre a construção e inauguração da futura capital do Brasil: Brasília! Juscelino, ladeado pelos grandes nomes da arquitetura da época – insuperados até hoje, Oscar Niemayer e Lúcio Costa -, a idealizou e construiu no meio do cerrado, onde os brasileiros não acreditavam que pudesse ser plantada nem mesmo margaridas, que floresciam em qualquer jardim.
Desde então, passei a ouvir a Eldorado diariamente antes de ir para o colégio, onde eu entrava às 7h50min. De lá para cá, muita coisa mudou: os governantes, o sistema político e educacional do país, o sistema social e cultural, a família que não mais tem a garantia do sacramento que naquela época lhe garantia a união, até que a morte os separasse.
Cresci, fiquei noiva e casei com o "Fogueira", tivemos filhos e netos, o clima aqueceu, a garoa acabou, a Rádio Eldorado mudou-se para as modernas instalações do Jornal Estadão, na Marginal do Tietê, no Bairro do Limão, o meu rádio de cabeceira diminuiu e hoje é um pequeno rádio relógio e despertador que toca CD, pois os discos de vinil também diminuíram.
Só não mudou meu "vício" que, ainda hoje, cinqüenta anos depois (chamaríamos de bodas de ouro?!?), me faz continuar despertando com a velha companheira Eldorado, "De Olho na Cidade" e ouvindo "As Principais Manchetes do Dia"; quando dou meu "Bom Dia à São Paulo de Todos os Tempos e ao Geraldo Nunes" e estou apta para começar mais um dia paulistano.
e-mail do autor: [email protected]