Etéreas recordações

Pouco lembro da infância, porém lembro-me de papai. Acho que éramos quase simbióticos, na pior expressão da palavra. O que ele desejava para meu presente (e futuro) ainda hoje é uma quase plena verdade, numa igualdade de desejos acalentados pela sua e minha carreira. Hoje, sou professor de Artes e músico frustrado (embora atuante).

Papai (João Rossi) era tudo para mim e, apesar disso, também se frustrou em meio à sua inigualável linha artística volumétrica. Creio que Rossi adoraria ver-se em meio aos passarinhos de sua terra, outros animais e plantas pelos quais nutria adoração catártica, quem sabe gostasse de viver em meio à floresta "pujante" (este termo ele gostava bem).
Sabia, e catalogava num caderninho à mão, todo santo nome científico em latim das espécies animais e estava ciente das andanças e gostos ambientais destes seres.

Não sei muito bem, porém a família, de algum modo, barrou-lhe a possibilidade de cantar liricamente. E, quando isso teimava em acontecer, um Carinhoso, Índia ou Recuerdos de Ypacaraí eram entonados a voz plena, forte e entusiasmada de tenor bom que era. Entusiasmava-se, também, com um Piazzolla em Adiós Nonino, com o Volga russo, com Paul Robenson em Old Man River, com o Hammond de Earl Grant em Ebb Tide e, acima de tudo e todos, com Gigli e Pavarotti. Ele conhecia muitas óperas e seus autores. Entendia bem italiano, francês e espanhol. Quem sabe, João adoraria estar cantando árias nos teatros paulistanos e mundiais?!

Pouco lembro da infância, porém lembro-me de papai. Vagamente, vejo penumbras de como fui salvo no laguinho do parque, no Anhangabaú, quando muito pequeno, pelas suas mãos. Deixando-me na escola, nos primeiros dias, e eu chorando perdido pela sua presença. Defendendo-me no ginásio e faculdade dos professores que, insistentemente, reprovavam-me por notas ou por eu ser tão doentiamente tímido. Dando-me eternos (e lembrados) conselhos de como me portar na vida profissional, com retidão, honestidade e vontade. Para papai, se o aluno não aprendeu, o professor não o motivou bem. Para ele, fazer arte sem retorno monetário era o esperado e o mais correto, para não degradar a mente, não sair do "metiér" (eis outra palavra bem adorada por ele).

Rossi era, com mamãe, a vontade de espargir a arte pelos cantos de São Paulo. Era também a vontade de reunir conhecidos em festas costumeiras em nossa enorme casa, com churrascos especiais regados a harpa paraguaia e Che Guevara. Tanta devoção lhe valeu o amargo destino de prisão na Ditadura. Felizmente, sem ter passado pelas torturas tão usuais na época. Até aí ele era excessivamente reto; pouco a pouco, muitos colegas se afastavam e o isolavam e, de emprego em emprego, galgava novos convites para ser despedido por suas idéias. Até que a divisão em dois mundos desabou e, lembro-me bem, todos nós desabamos juntos. Como viver sem o ideal tão procurado?

Seria bom se, ainda hoje, víssemos na TV por cabo os seriados sobre animais selvagens que ele não conhecera, se ouvíssemos alguma nova composição minha que teimava em nunca vir, se fôssemos à praia de Santos mais uma vez, os 4 mosqueteiros.

Ele bem sabia, porém nunca pude dizer o quanto o amava!

Pouco lembro da infância, porém lembro-me de papai. Cujo tempo não me permite mais rever e sobra-me apenas sua falta terrível. Não acredito que possa mais revê-lo.