Estandarte

Acredito que tinha na época quatorze para quinze anos, já há dois anos frequentando a TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Família e da Propriedade), uma sociedade político religiosa de extrema direita, imagine um capiau de Itaquera num grupo destes.

Participei ativamente deste grupo e saí por não conseguir me enquadrar no perfil dos demais membros. Eu rezava, assistia à missa e comungava todos os dias, adorava e me destacava na área das artes e da política, porém não conseguia deixar de lado meus pensamentos "profanos" nas meninas do Ginásio Emilia de Paiva Meira, pois lá, nós militantes, não teríamos tempo e nem condições de vida para constituir uma família. Estávamos nos preparando para combater o comunismo e não poderíamos de forma alguma pensar em meninas.

Voltando ao foco do texto, foi numa das campanhas – acredito ser "Reforma Agrária – Uma Questão de Consciência", mesmo nome do título do livro escrito na época por Plínio Correia de Oliveira, o fundador e presidente da TFP (é óbvio que tanto o livro como a campanha defendiam os latifundiários) – que eu participei da manifestação de rua, ali na Praça do Patriarca, onde vendíamos os livros do Dr. Plínio.

Já era lá para as treze horas e eu, sem nada comer, equilibrava meu metro e oitenta e cinquenta e nove quilos no mastro do estandarte do leão rompante (símbolo da TFP). Aquele estandarte vermelho carmim com o leão dourado media aproximadamente uns quatro metros do chão ao topo, e era bastante pesado para segurá-lo de forma equilibrada, e pior ainda para me equilibrar nele.

Esperava ansioso por alguém que deveria vir me substituir para que pudesse mastigar um sanduba de carne louca guardado na minha mochila. Estava na esquina da São Bento com a Quitanda, bem defronte a Casas Fretin. Lá plantado de terninho preto e gravata listrada, cabelo curtinho tipo "Reco", quando começou a ventar.

O vento foi aumentando de intensidade e eu lutava para manter o leão em pé, pois um guerreiro morre e não deixa cair a bandeira. Não adiantou: após muito esforço e já fatigado, o estandarte foi literalmente jogado contra a vitrine da Fretin. Nem olhei, apenas escutei o barulho dos estilhaços do vidro despencando sobre a calçada, catei minha mochila e disparei para o Parque Dom Pedro, tomei o ônibus para Itaquera, onde fiquei abaixado no banco sem mostrar a cabeça pela janela. Aproveitei para devorar o sanduíche.

Em Itaquera, fui direto para casa, pedi dinheiro para minha mãe e fui passar uns dias na casa do meu irmão mais velho, o Dirceu, que na época morava em Campinas. Como estávamos em período de férias escolares, lá fiquei por um mês.

Nunca soube das consequências do ocorrido, e nem procurei saber, pois tinha medo e vergonha por derrubar a bandeira e ao mesmo tempo procurava um motivo para me afastar definitivamente daquele grupo.

Este foi o fim da minha estadia na TFP.

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