Aqui, em São Paulo, o nosso "cara" é o metrô.<br>É o "cara" e a cara do século vinte e um, e nos enche de orgulho por sua magnitude, obra de engenharia de alta complexidade, ágil, moderno, maravilhoso. Mas, como tudo e todos, também possui seu lado “B”, sombrio, misterioso.<br><br>Corre que, à noite, após a meia-noite, passa a ser povoado por seres fantasmagóricos, almas penadas, fantasmas que percorrem seus túneis e estações e, entre esses seres fantasmagóricos há até a loira do metrô, que assusta e assombra o pessoal da limpeza e da manutenção. Isto para mim é um mero detalhe porque tive a sorte de ter uma estação da linha verde na esquina do meu prédio e, da janela do meu apartamento a estação é a minha paisagem favorita. Só que, dado este lado “B”, eu que sou medrosa, por via das dúvidas evito tomar o último trem e também, confesso não olhar a estação depois da meia-noite até o amanhecer.<br><br>Mas, como sempre há uma primeira vez, noite destas, após dois eventos super transados e imperdíveis (uma sofisticada noite de autógrafos no lançamento do livro Redação Publicitária, de Marina Negri, e posterior e não menos intensa e imperdível homenagem aos cem anos de Adoniram Barbosa, apresentada no teatro do Colégio Santa Cruz, por um grupo de professores e com a participação do atual diretor) fomos deixados, eu e meu marido, na estação Vila Madalena, uma das pontas da linha verde, no último trem que circularia.<br><br>Dado o adiantado da hora e a proximidade da meia-noite optei por fazer, mentalmente, a novena das rosas (de Santa Terezinha), santa à qual recorro quando me vejo diante de problemas que só o homem, o lá de cima (não o de Brasília, mas o dos céus), pode resolver. Caso seja atendida, a pessoa recebe uma rosa.<br><br>Foi na estação Consolação que aquele homem, ao embarcar, me chamou a atenção e me tirou dos pensamentos. Com dificuldades sentou-se no banco ao meu lado apesar do vagão ter apenas uma meia dúzia de gatos pingados e falou em voz alta, "estou indo para um albergue noturno e tenho muita fome, hoje ainda não comi nada".<br><br>Era a própria imagem da decadência: paletó de couro surrado, mochila que já havia visto melhores dias, uma das pernas das calças dobrada e recolhida na altura dos joelhos, e um par de muletas de madeira. Era aleijado. Eu, que horas antes tivera que me controlar diante de canapés, queijinhos, cerejas, vinhos que passavam em bandejas finamente decoradas as quais várias vezes rejeitei com o politicamente correto, "não, obrigada" senti-me incomodada diante daquela fome ali, bem ao meu lado.<br><br>Uma coisa é você saber, diante da mesa farta, que lá fora a fome se derrama pelas cidades, pelas casas, pelas ruas e outra, é essa fome estar ali, ao seu lado, ao lado de você que rejeitou comida para manter a forma, para ser politicamente correta, para sentir-se inserida no contexto.<br><br>Comecei a abrir a bolsa e meu marido tentou, com um gesto, impedir-me porque tanto ele quanto eu sabemos que essa prática é proibida no metrô e, tanto ele quanto eu, não alimentamos essa prática. Mas, o adiantado da hora, aquele homem em andrajos, as muletas, tudo junto me fez mandar às favas os escrúpulos e, com um toque leve em seus ombros, passei-lhe uma nota sem sequer olhar o valor.<br><br>Foi então que ele se virou e me olhou. Olhos verde-azulados, azul-esverdeados, que pareciam estar naquele rosto por um equívoco maior. Olhos feito aqueles olhos de anjos e de santos, desses que ficam em altares e que saem em procissões.<br><br>Balbuciei coisas tipo, "é para você comer alguma coisa", brinquei, "isto se encontrar algum lugar aberto, dá para aguentar até chegar ao albergue, não dá?”. Agradeceu, falou da perna, "perdi em um acidente", os olhos brilharam quando me confidenciou, "é uma provação…", e os dois ou três gatos pingados que estavam no vagão ao descerem colocaram moedas no colo daquele homem.<br><br>Quando o trem foi chegando à estação Paraíso ele disse, "eu vou ficar no paraíso" e, ato contínuo, colocou as mãos nas minhas e me disse, olhando para meu marido, "seu marido tem uma cara boa, é um bom homem". Olhou fixamente nos olhos do meu marido e completou, "você precisa dar uma rosa para ela".<br><br>Desceu na estação Paraíso e, por instantes, antes da porta fechar-se, eu o vi caminhando e desaparecendo engolido pela noite escura. Qual uma serpente gigante, o metrô sinalizou, fechou a porta e seguiu serpenteando por aqueles túneis escuros. Nem preciso contar que, ao ouvir o homem mencionar a rosa, meu coração disparou, minhas mãos gelaram, uma descarga de adrenalina me secou a garganta, meus cabelos arrepiaram e eu recomecei a rezar porque, como dizem "los hermanos", "yo no creo en fantasmas pero que los hay, los hay"…<br><br>Até hoje não tive coragem de confirmar se há albergue noturno nos arredores da Estação Paraíso. Se alguém souber me avise porque vou até lá perguntar se recebem albergados depois da meia-noite. <br><br><br>E-mail: [email protected]