I – Que ferrovias despertam fascínio, todos sabemos. Quem não gosta de trens, o melhor dos passeios? Pode até não ser preferência unânime: mas será por maioria de votos. Quando a gente afortunadamente ainda é criança, além dos trenzões de verdade, trenzinhos de brinquedo também nos alegram o coração, claro. Depois, quando infelizmente o vagão-infância é separado do nosso trem da vida, recorremos aos trens elétricos de ferromodelismo para revigorar ou resgatar um pouco da alegria de criança, não? E, de acordo com as diretrizes que norteiam o belíssimo site, o que isso tem a ver com memória paulistana? Talvez algo curioso ou pitoresco só. E isto posto, abram-se as passagens de nível no rumo da Estação Nostalgia.
II – Faz mais de meio século. Eu, lá pelos dez anos de idade. Minha mãe compra na bela "A Sensação Modas" – defronte à estação de bondes de Vila Mariana – um trenzinho de brinquedo. De lata, pintura que parecia esmaltada – cinzento com detalhes brancos e pretos. Tempo, aquele, de muito brinquedo de madeira, de ferro e bonecas de pano – que choravam…
III – Trenzinho "de luxo", dizia a caixa de papelão com o logotipo da fábrica. Um círculo vermelho com duas letras, maiúsculas: MM. Metalma – Metalúrgica Matarazzo, do Brás. Contemporâneos de meus 63 anos claro que se lembrarão da Metalma.
IV – Era, aquele tempo distante, época em que não se falava de shoppings. Grandes lojas, de todos bem conhecidas, eram Sears, Mappin, Clipper, Pirani, Cássio Muniz, Americanas, Mesbla e por aí vai. Supermercados – naquela São Paulo de empórios, quitandas e mercadinhos? Um dos primeiros terá sido o Peg-Pag, defronte ao Cine Phenix, na Domingos de Morais, entre Joaquim Távora e França Pinto. Claro, não esquecendo o Mercadão e alguns, de bairro, como os da Lapa e Santo Amaro.
V – Lembrando mais, creio também ter sido da Metalma um belo bondinho. Que eu via nas vitrines de lojinhas e armarinhos. De algum modo, tal bondinho pretendia lembrar o Gilda. Tinha "Avenidas" no letreiro. Mas ele não era o Gilda. Eu embora moleque, prestava atenção nos detalhes dos veículos: o bondinho não era o Gilda. "Parecido" e olhe lá!
VI – O bondinho – por mim presumido Metalma – tinha uma porta ("aberta", um recorte na lata), de cada lado e em cada "frente". Era mais ou menos como o Gilda quando, em 1947, navegou da Broadway para São Paulo. A alavanca de contato, do bondinho de brinquedo, não era igual às dos bondes da CMTC. De carretilha: era do tipo pantógrafo, um "T", como os de Santos. Ou como os do Rio, que eu via nas maravilhosas páginas de O Cruzeiro e Manchete.
VII – Já a pintura desse bondinho – também me parecia esmaltada (como me falavam), era próxima à da CMTC. Acho que até com emblema. Não tive deles. E tu, contemporâneo (a)? Guardaste-o? Que bom! Fico com inveja.
VIII – Pois aquele trenzinho da Metalma ele só restou guardado na minha lembrança. A locomotiva – não em escala – era uma "réplica" das máquinas (como a gente mais falava) a vapor, das que a gente via nos filmes do Cine Cruzeiro. Puxava três "vagões" (ou quatro) de passageiros – que traziam a inscrição Pullman.
IX – Muito tempo depois é que me esclareceram: de passageiros, não é vagão
e, sim, carro. Nunca mais descarrilei no vocabulário: carro.
X – Trenzinho de dar corda: uma baita corda para ele perfazer o pequeno trajeto circular perdendo (decepção) velocidade gradativa e rapidamente. Era um tal de rec-rec-rec, com a chavinha, na barriga da "máquina". Ela até cansava. Como eu.
XI – Muitos e muitos quilômetros rodados nos trilhos da vida, eu até já bem distante da estação adolescência. Foi que comprei outro trenzinho. Elétrico, desta vez. Em escala Ho, dizia a caixa de papelão com alojamento de isopor. Não era propriamente de brinquedo. Era para ferromodelistas – coisa que nunca pretendi ser: só moderadamente apaixonado.
XII – Era da ATMA. Precursor dos atuais trenzinhos elétricos Frateschi. A Lapa – bairro fabril de coração e raízes ferroviárias, igual Barra Funda, Brás, Mooca e Ipiranga – fazia trenzões de verdade, na Mafersa. E também aqueles trenzinhos de emoção, na Rua do Curtume, falava a caixa de embalagem e propagandas na "mídia" (que ainda mídia não se chamava). Ó lapeano que conheças as ruas do nobre bairro paulistano: que curtume foi que inspirou o nome da rua?
XIII – Também o trenzinho da ATMA teve o mesmo triste destino do da Metalma: devo tê-lo sucateado – como sucateados foram nossos trens de passageiros. Nem mesmo o apito da locomotivinha (que de verdade não apitava) comoveu minha indiferença. Paciência.
XIV – Trenzinho elétrico da ATMA. Que comprei em prestações no Mappin. E que paguei tão antes que o Mappin enviou carta, elogiando e agradecendo. E oferecendo outro: obrigado, um já bastava.
XV – Trenzinho réplica dos da Santos-a-Jundiaí: locomotivinha "diesel" de manobras, igual à GE de verdade; vermelhinha com detalhes em amarelo, até a inscrição RFFSA. Quatro "vagões" de passageiros, carros que – creio – a ATMA quis reproduzir, daqueles que, de verdade, eram de madeira, antigos. Marrons, como os que a EFSJ herdara da São Paulo Railway. A "inglesa", falavam os mais velhos de quando eu moleque. A SPR que, diziam, nos anos 20 a 40, teve até time de futebol. O qual virou o alvi-anil Nacional AC, da Comendador Souza.
XVI – A ATMA era tão ótima que produzia um montão de artefatos de plástico, não? Até belos aviõezinhos de montar, de plástico rígido, de colar as partes ("soldar", falavam). Que a gente comprava na Casa Aerobrás, da Major Sertório – até hoje. Era o monomotor Fokker, da FAB, de asas cor de laranja;
o Viscount da VASP. E um belo DC-3 que o comprador escolhia com que "pintura" – à base de decalques descolados n'água: da VASP, da Cruzeiro ou da FAB. Que, de tão bem feitinho o DC-3, tinha "rebites" nas "chapas de alumínio", de plástico…
XVII – Bem, já faz perto de 20 anos, agora. Meus dois filhos bem molequinhos. A gente montou um trenzinho elétrico, cá em casa, este sim, réplica impecável – em escala – detalhes magnificamente reproduzidos dos trens de verdade. Para nós, pura diversão. Miniaturas ao pé-da-letra: locomotivas, carros de passageiros, vagões, tudo! Devem ser com certeza dos mais belos do mundo! Frateschi, uma referência, sem dúvida. Trenzinho muito bem guardado, a salvo da "demolição"…
XVIII – O futuro – já vivido no presente – que se descortina no mundo dos trilhos e dos trens – como bem podemos ver na internet – é o de trens incrivelmente diferentes dos convencionais, dos tempos românticos e poéticos, dos trilhos sobre dormentes de madeira imersos na pedra britada; de locomotivas que badalavam sinos e de apitos tristemente belos, como os das marias-fumaças.
XIX – TGVs e trens de levitação magnética – estes, com ímãs e sem rodeiros, em trilhos apoiados no concreto; a 400 km/h, disparam em linha reta como projéteis gigantescos que são – tornando-se verdadeiros aviões sem asas: a própria fuselagem do TGV é uma fuselagem de avião.
XX – Cabe-me, então, recolher minhas lembranças ferroviárias – até as de uma São Paulo de há meio século – à Estação Nostalgia. Estação na qual uma placa de ferro, espetada num pedaço de trilho, à beira dos trilhos de dormentes de madeira, alerta o maquinista: "APITE". É só uma referência dos tempos ferroviários que sucumbiram ante novas conquistas da tecnologia. Um TGV, àquela velocidade, jamais tomaria conhecimento da inútil plaquinha…
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