Escola SENAI Roberto Simonsen

Em 1954 eu fui estudar no SENAI a mando da empresa em que eu trabalhava, de manhã tinha aulas praticas do oficio marcenaria e a tarde aulas de alfabetização secundaria, uma espécie de ginásio, já que eu tinha o curso primário. O SENAI ficava na Rua Roberto Simonsen, esquina com a Rua Salvador Moreira, de fronte ao inicio da Rua Assumpção.<br><br>Depois de um ano de idas e vindas por aquele mesmo caminho, tive a incumbência de levar meu irmão para tirar a carteira de menor para começar a trabalhar. Seu primeiro emprego era na Casa da Bóia (Rua Florêncio de Abreu), fiquei amedrontado, por que teria que ir à Rua Consolação e só sabia ir ao bairro do Brás. Meu irmão já estava trabalhando e ainda não tinha o documento. Minha mãe fez um sanduíche, era um filão de pão cheio de mortadela para não ficar sem comer, e eu fui esperar o meu irmão sair na hora do almoço, sentado em um banco da Praça da Sé, saboreando aquele mega sanduíche próximo a uma banca de jornal. Depois de dar umas três mordidas no “sanduba”, olhei a manchetes de um jornal que dizia: “Morreu Carmem Miranda nos Estados Unidos”. Era o dia 5 de Agosto de 1955.<br><br>No SENAI tínhamos duas horas de almoço, a comida custava o equivalente a R$ 10. Todos os dias eu levava o dinheiro para comprava os tickets. Na hora do almoço ficava uma fila de alunos com o prato na mão passando por uma fileira de latões, cheios de comida fornecida pelo SESI. O primeiro latão era de feijão, depois o de arroz, a seguir a mistura, pão e banana, nessa ordem. Um colega de classe ajudava a servir a comida e era no latão de arroz que ele ficava… Justamente o mais difícil por causa do arroz que grudava na escumadeira, e ele tinha toda hora raspas com uma com uma faca. Perguntei ao colega o que ele ganhava em ficar servindo a comida:<br>- “Simplesmente não pago” – disse ele sorrindo.<br><br>Então pedi para ele arrumar uma “boca” para mim. Pensei: ”já pensou eu comer todo dia de graça?”. Seria uma boa sobra de dinheiro para comprar figurinhas das balas de futebol na loja “A Americana”, que ficava na Rua do Gasômetro, bem pertinho da escola. As "difiçonas" a gente trocava la mesmo. <br><br>Ele deu um jeito e eu comecei a ajudar a servir. Para começar os novatos começavam pela banana ou pão, aos poucos ia para o feijão, mistura e dificilmente para o arroz por que o Nelsinho era o especialista na escumadeira. Só se ele faltasse entrava outro naquela vaga. Logo que entrei vi que uma coisa que deveria ser feita, mas não estava sendo. Era ajustar nossos pratos antecipadamente para não pegar a raspa do tacho, "Afinal a gente camela, que nem doido para ficar com a sobra?". E daí por diante nossos pratos ficavam bem feitinhos, guardadinhos em câmara ardente para não esfriar. O mesmo se fazia as quartas feiras, dia<br>de feijoada, onde as melhores partes de carnes estavam reservadas para os "Degas".<br><br>Tínhamos duas horas de folga entre os períodos de aula, nessas duas horas ficávamos no anexo ao refeitório onde ficava o auditório, bem em frente ao palco dos shows das sextas feiras. Lá tinha mesas de ping pong e outros divertimentos, também a quadra de basquete ao lado, onde se disputava o campeonato interno da escola. Nesse campeonato nossa classe que era da turma TD, começou vencendo outra, cujos alunos eram da mesma idade e tamanho, foi uma vitoria difícil com a vantagem de dois pontos, ou seja, uma cesta. Fomos avançando até chegar o jogo mais difícil que era conta a turma TF, de alunos mais avançados, com idade entre 16 e17 anos e tamanho superior aos nossos colegas de 14 anos e mirrados de corpo.<br><br>Para que a vitoria fosse deles ouve muita coisa errada, e a molecada ficava quieta para não apanhar, mas eu achei por bem reclamar que fomos roubados, por cestas anuladas, por esse ou qualquer outro motivo. Nossa turma só era inferior no tamanho, mas jogava muito basquete, afinal não fazíamos outra coisa no recreio, até lata servia como bola, quando não tínhamos uma. Perdemos por dois pontos de diferença, e se houvesse honestidade teríamos ganhado o jogo.<br><br>Todos aceitaram a derrota, mas eu não. Fiz um rascunho reclamando do que aconteceu para enviar a secretaria da escola, ai um aluno que tinha uma boa caligrafia, o Antonio Madela, passou a limpo e mandamos para a secretaria. Nos até tínhamos nos esquecido daquilo. Eis que um belo dia o alto falante da escola anuncia que a partida tinha sido anulada e outra ia ser disputada. A data foi marcada e um enorme interesse por parte de toda a escola, nossos<br>adversários por terem mais idade eram grandões, e nossa classe era composta por meninos magrelos e mirrados, por isso toda a torcida estava do nosso lado. O que eles tinham de facilidade para botar a bola no cesto, era o contrario de nos, que tínhamos de jogar ela, para embocar no aro. Novamente perdemos pelos mesmos dois pontos do jogo anterior. <br><br>Sacanagem tinha aos montes, na hora do almoço muitos alunos iam à estação do Norte (Roosevelt), onde sempre tinha umas moças dando sopa. Tinha sempre alguém convidando um colega em voz alta:<br>- “Zé, vamos “molhar o pescoço”?".<br> <br>Um dia o Waldomiro veio com uma conversa que tinha uma italiana na qual ele já havia “trepado” e ela estaria no Largo da Concórdia na sexta feira. Quando chegou o dito dia foi uma turma, e no caminho ele disse que todos deveriam se pesar na balança da farmácia. Todos se pesaram e alguns até ficaram surpresos com o que a balança mostrou. Daí ele virou as costas e disse:<br>- “Bem, vamos voltar” – e todos quase na mesma voz responderam:<br>- “E a Italiana?”<br>- “Vocês já “treparam” nela”. – a Italiana era a balança da marca Filizola.<br><br>Toda sexta feira acontecia um show, alguns alunos cantavam, outros liam poesias, principalmente as meninas, que eram poucas em relação ao numero de alunos, da escola. Na verdade tinha somente uma classe de meninas, já mocinhas, quando muito 40, em uma escola com mais de mil alunos. As meninas eram dirigidas e vigiadas por uma mulher chamada Edite, que mais parecia ser a mãe delas. Eu fazia parte do teatro da escola e alem de interpretar também escrevia esquetes e peças de curta duração.<br><br>Um dia resolvi escrever algo diferente, e minha inspiração veio quando eu estava no ônibus de volta pra casa sempre do lado da janelinha. Ali eu viajava literalmente, e as "minhocas” vinham chegando à minha cabeça. Quando chegava a minha casa passava para o papel. Um dia surgiu a ideia de escrever uma peça do tipo PRK- 30, um humorístico que era apresentado pela radio Nacional de São Paulo. Só sei que surgiram muitas coisas, que encheram uma folha de papel almaço, e olha que ela era grande.<br><br>Só não sabia que nome ia dar a peça , mas teria que ser algo parecido com o titulo PRK-30, um dia da janelinha do ônibus vejo uma radio Patrulha que tinha o numero 42 escrito na porta do Fusca preto e branco, que estava substituindo os velhos Furgões verdes musgo. O numero 42 eu achei simpático não sei se porque o contrario era 24, o apelido que dávamos aos rapazes da "bandeja". Como o sufixo das emissoras era iniciados com a letra Z, ZY tal, eu uni o Z com o 42. E com as iniciais de Radio Patrulha, então ficou sendo, ZY-RP-42.<br><br>Com a minuta do projeto na mão entreguei aos colegas do teatro que aprovaram até com louvor. Nossa primeira apresentação foi um sucesso, eu e o Walter Reis fizemos a locução, e teve a participação de outros colegas, por exemplo: o Roberto tocava de gaita de boca, e tocava muito bem, tinha sempre alguém metido a cantar, mas o forte mesmo era o Walter Negrini, que fazia a parte humorística. Ele não ria. Mas só de olhar para ele a gente ria. <br><br>O Roberto tocando gaita de boca um grande sucesso da época, muitas semanas na parada da Rádio Nacional com "Cerejeira Rosa” , interpretada pelo cantor Alcides Gerardi. Depois quem tocou foi o Walter Negrini, que nunca tinha pegado um instrumento nem para limpar. Com um Piston ele foi ao palco e anunciamos que ele ia tocar em solo de "corneta" o tango “Lá Cumparcita”. <br><br>Como Roberto tocou muito bem, todos acreditavam que o Walter ia tocar também, e essa era a nossa intenção. Ele colocou pedaços de jornal no bocal do instrumento e na saia nada alem do barulho do vento que saia da boca dele. Quando a platéia se escangalhava de rir. Ele botou o instrumento no meio das pernas tirou uma banana do bolso, e ainda na maior cara de pau sem dar um sorriso qualquer me oferece um pedaço depois e pedir que eu jogasse a casca no lixo. Não deu para segurar, o rapaz era um artista, caso o Manoel de Nóbrega o visse com certeza o levaria para a Rádio Nacional e para a Praça da Alegria, que ele apresentava no canal cinco.<br><br>No dia dos professores eu caprichei no texto, porque alem dos alunos vinham também familiares. Nesse dia alem da RP 42, eu escrevi um texto sobre os professores, e a farra foi a imitação do professor Pilsen, o mais temido por todos os alunos, que alem de professor era diretor da escola. Quando ele adentrava o pátio e dava o seu grito (“Sentido!) todos corriam<br>para a formação da fila para entrar em aula. Um dos nossos colegas o Roberto, era corpulento da mesma forma que ele, e conseguimos um avental cinza igual ao que ele usava, e não tinha um que não ria. Não sei como não fomos punidos aquele dia.<br><br>No show que demos fizemos miséria no palco. Alem de imitações com alunos e professores populares, fizemos também muitas imitações de coisas que o rádio apresentava, como propagandas. A do Melhoral, ficou assim:<br>-“Milharal, milharal, é melhor e não faz mal: café Milharal, moído na cara do freguês” – e fazíamos um gesto como se estivéssemos atirando grãos na cara de um cliente, para deixá-lo moído.<br>-“Amigo careca, para maior brilho do "aeroporto de mosquito" use Sapólio Radium!”.<br> – “Passa, Passa, um pouco a voz, quero repassar, passa, passa sua voz, para não engasgar. Na sua casa tem mosquito, não vou lá, na sua casa tem barata, não vou la. Peço licença pra mandar o seu Pilsen no meu lugar”.<br><br>Ai teve encrenca. Ficamos uma semana sem apresentação. No show seguinte, 15 dias depois, voltamos com mais deboche:<br>- “As rosas desabrocham com a luz do Sol e as e as rugas da ‘dona’ Edite, é no por do Sol, No por do Sol!”.<br><br>Outra encrenca e mais uma suspensão.<br><br>Ao final do ano tinha a formatura dos alunos do terceiro grau, com todos os formandos e familiares. Fomos convidados para uma apresentação na festa de formatura.<br><br><br>E-mail: [email protected]